Noventa e sete gramas. É esse o peso do tênis que, pela primeira vez em uma prova oficial, ajudou dois atletas a cruzarem a linha de chegada de uma maratona com menos de duas horas no cronômetro. No último domingo (26), a Maratona de Londres reescreveu a história do atletismo: o queniano Sabastian Sawe completou os 42,195 quilômetros em 1 hora, 59 minutos e 30 segundos, tornando-se o primeiro homem a quebrar a barreira das duas horas em uma competição oficial. Logo atrás, o etíope Yomif Kejelcha cruzou com 1h59min41s — outro marco histórico no mesmo dia, no mesmo asfalto londrino.
Três anos de projeto dentro de uma sola
O Adidas Adizero Adios Pro Evo 3 chegou ao mercado na quinta-feira (23), apenas três dias antes da corrida, como se a Adidas tivesse calculado o lançamento com a precisão de um pace de elite. O tênis pesa 97 gramas — uma redução de 30% em relação ao modelo anterior — e será vendido a partir de 25 de abril pelo equivalente a R$ 2,5 mil (US$ 500). Não é um número aleatório: representa o resultado de três anos de desenvolvimento até que a Adidas chegasse ao que internamente considera seu projeto de calçado mais leve já criado para corridas de rua.
Patrick Nava, gerente-geral de corrida da Adidas, não escondeu o entusiasmo ao comentar o desempenho de Sawe e Kejelcha com o novo modelo:
"Isso é uma prova dos anos de trabalho duro e dedicação que eles dispensaram, ao lado de nosso time de inovação, que desenvolveu um super tênis que abre uma nova era", disse Nava.
A declaração resume bem o que aconteceu em Londres: a barreira das duas horas não foi derrubada apenas por pulmões e pernas excepcionais, mas também por uma engenharia obsessiva de materiais e geometria de solado, refinada ao longo de ciclos de testes que envolveram os próprios atletas de elite da marca.

O que 97 gramas significam para quem corre 42 km
Para entender o impacto dessa leveza, uma rápida contextualização. Num tênis de corrida convencional de alto desempenho, o peso médio gira em torno de 200 a 250 gramas. Cada grama a menos no pé representa, segundo estudos da área de biomecânica esportiva, uma economia mensurável de energia ao longo de milhar de passadas. Em uma maratona, um corredor de elite dá entre 25.000 e 30.000 passadas. A conta da eficiência energética, multiplicada por esse número, começa a fazer sentido — especialmente quando a diferença entre o recorde e o fracasso pode ser medida em segundos.
Conforme levantamento do SportNavo, o Evo 3 não é o primeiro tênis da família Adizero Pro a aparecer em grandes recordes mundiais — a linha existe há anos e acumula pódios em maratonas majors —, mas a versão lançada em abril de 2026 representa o passo mais agressivo da Adidas na corrida tecnológica contra rivais como Nike e Asics, que também investem pesadamente em espumas de alto retorno energético e placas de carbono.
Tecnologia como protagonista — e o debate que vem com ela
A façanha de Sawe e Kejelcha reaviva uma discussão que o atletismo não consegue deixar de lado: até que ponto a tecnologia do calçado é parte legítima da performance e quando ela começa a distorcer comparações históricas? Em 2019, Eliud Kipchoge completou uma maratona em 1h59min40s no projeto Ineos 1:59 Challenge, em Viena — mas o feito não foi homologado pela World Athletics por ser uma corrida controlada, com lebrões e condições criadas especificamente para o recorde. O que aconteceu em Londres no domingo é diferente: prova oficial, competição real, recorde validado.
A World Athletics tem regulamentações sobre espessura máxima de sola e uso de placas rígidas, e o Adizero Adios Pro Evo 3 foi aprovado para uso competitivo. Mas o debate sobre o chamado "doping tecnológico" não vai desaparecer com a homologação do recorde. A cada geração de tênis, ele retorna — e a tendência, à medida que marcas investem centenas de milhões de dólares em P&D, é que os calçados continuem evoluindo mais rápido do que qualquer regulamentação consegue acompanhar.
O preço da velocidade
Os R$ 2,5 mil pelo Adizero Adios Pro Evo 3 colocam o modelo numa categoria acessível a pouquíssimos corredores amadores — e é justamente aí que reside outro ângulo da história. A análise do SportNavo mostra que, historicamente, os tênis de elite usados em recordes mundiais demoram entre seis meses e dois anos para ter versões mais acessíveis derivadas da mesma tecnologia no mercado. No caso do Evo 3, a Adidas ainda não anunciou planos para uma linha popular baseada no mesmo projeto.
O tênis estará disponível para compra a partir de 25 de abril, com estoque limitado — o que, somado ao preço e ao frescor histórico do recorde de Londres, já projeta filas virtuais nas plataformas de venda da marca. Sawe e Kejelcha transformaram um domingo em Londres numa data que o atletismo vai citar por décadas. E o Adizero Adios Pro Evo 3, com seus 97 gramas, virou ao mesmo tempo ferramenta de elite e objeto de desejo de uma geração inteira de corredores.








