Confesso: quando a candidatura dos Estados Unidos à sede da Copa do Mundo de 2026 foi anunciada, escrevi aqui que o risco político seria administrável — que o futebol sempre encontrou um caminho. Hoje, diante do caso de Omar Abdulkadir Artan, vejo o tamanho do meu engano. O árbitro somali de 34 anos, um dos 52 selecionados pela Copa do Mundo para trabalhar no torneio, foi deportado dos Estados Unidos na segunda-feira (8) depois de ter seu passaporte diplomático recusado pelas autoridades americanas. A Fifa confirmou o afastamento. A Somália, indignada, foi a público. E o Mundial ainda nem começou.

O passaporte diplomático que não abriu nenhuma porta

A história de Artan com os vistos americanos já era difícil antes de a situação escalar. Quando as dificuldades se tornaram evidentes, a embaixada somali em Nairobi interveio e concedeu ao árbitro um passaporte diplomático — um recurso que, na prática diplomática internacional, costuma garantir trânsito livre. Não foi o que aconteceu. As autoridades americanas consideraram o documento insuficiente e deportaram Artan de imediato, sem abertura para negociação.

A Fifa, pressionada, publicou comunicado que soou mais como recuo do que como posicionamento. "A Fifa não interfere nos procedimentos de imigração do país-sede, incluindo a emissão de vistos, e foi informada pelas autoridades de que a situação de Artan não será alterada neste momento", dizia a nota. A entidade acrescentou que "o governo do país-sede tem a palavra final sobre quem recebe visto e quem é admitido em seu território" — frase que, lida com atenção, é uma admissão de impotência.

Trump, a Somália e a lógica que chegou ao futebol

O contexto político não é novo, mas seu alcance sobre o esporte surpreende pela velocidade. A Somália está entre os países cujos cidadãos estão sujeitos às restrições de viagem impostas pelo governo Donald Trump — um pacote que, no final de novembro do ano passado, ganhou declarações ainda mais duras do presidente republicano, que descreveu o país africano como "podre" e anunciou intenção de encerrar o status especial que protegia somalis da deportação. Artan, mesmo com visto válido e passaporte diplomático, foi varrido por essa corrente.

Ciise Aden Abshir, assessor do Ministério da Juventude e Esportes somali e ex-capitão da seleção nacional, não poupou palavras.

"Negar sua entrada nos Estados Unidos e impedi-lo de trabalhar prejudica não apenas a ele pessoalmente, mas também mina o compromisso do futebol com a equidade, o mérito e o espírito de fair play. A comunidade do futebol deve apoiá-lo neste momento difícil."
Artan, por sua vez, respondeu com uma dignidade que constrange quem o barrou.
"Apesar das circunstâncias, estou de bom humor e focado nos próximos desafios da minha carreira. Quero agradecer à família do futebol pelas mensagens e desejar aos colegas todo o sucesso durante a Copa do Mundo. Espero poder me juntar a eles em futuras competições."

O que o currículo de Artan revela sobre a dimensão da perda

Para entender o peso simbólico do episódio, basta olhar para o que Artan representa. No quadro da Fifa desde 2018, ele seria o primeiro árbitro da história da Somália a apitar em uma Copa do Mundo — uma marca que, para um país de quase 18 milhões de habitantes com relação dramática com a instabilidade política, carrega significado que vai muito além do esporte. Foi Artan quem conduziu a partida de volta da final da Liga dos Campeões da África, em 2025, entre Pyramids FC e Mamelodi Sundowns, no Cairo — jogo encerrado em 2 a 1 para os egípcios, árbitrado, segundo os relatos, com firmeza e controle.

Sua regularidade rendeu o prêmio de Árbitro do Ano da CAF (Confederação Africana de Futebol) na temporada 2025 — distinção que a própria Fifa usou como critério para escalá-lo ao Mundial. Não se trata de um nome qualquer barrado por burocracia: é o melhor árbitro do continente africano impedido de exercer seu ofício pelo país que prometeu ao mundo um torneio inclusivo, conforme registrado pelo SportNavo ao longo da cobertura pré-Copa.

Artan não é um caso isolado neste Mundial. A Copa do Mundo de 2026 acumula episódios que constrangem os anfitriões antes da bola rolar — das restrições a delegações iranianas a incidentes de segurança próximos a centros de treinamento. Mas o caso somali tem uma camada a mais: um árbitro de excelência comprovada, escalado por mérito, derrubado por uma política que não distingue diplomatas de turistas. Essa é a mancha que os EUA precisarão explicar quando a Copa começar — e que nenhuma cerimônia de abertura apagará.