Todo mundo sabe que Copa do Mundo vai acontecer. O que ninguém esperava é que o maior torneio do planeta começasse a sangrar antes de uma bola sequer ser chutada — e que o sangramento viesse de um aeroporto em Miami, num sábado de junho, com um árbitro somali preso numa sala de interrogatório por 11 horas.
O sonho de Omar Artan e a sala de inspeção de Miami
Omar Abdulkadir Artan, 34 anos, desembarcou no Aeroporto Internacional de Miami no dia 6 de junho carregando algo raro: seria o primeiro somali da história a apitar uma partida de Copa do Mundo. Eleito o melhor árbitro da Confederação Africana de Futebol em 2025, ele tinha credenciais, convocação oficial da FIFA e o sonho construído ao longo de uma carreira inteira. O que ele não tinha era um visto válido para entrar nos Estados Unidos. Agentes de imigração o levaram a uma sala de inspeção. Onze horas depois, o mandaram embora.
"Acho que eles têm um problema com o meu país", disse Artan ao New York Times após o episódio. A Somália é um dos países afetados pela proibição de entrada imposta pela administração de Donald Trump — e nenhuma convocação da FIFA muda esse fato dentro do aeroporto de Miami.
A defesa da Casa Branca e o que ficou sem resposta
Na manhã desta terça-feira, 9 de junho, Andrew Giuliani — filho do ex-prefeito de Nova York Rudolph Giuliani e diretor executivo da Força-Tarefa da Casa Branca para a Copa do Mundo — foi a Washington defender a decisão num evento organizado pelo Atlantic Council. O discurso foi cirúrgico na forma, vago no conteúdo.
"Não foi negada a entrada a nenhum jogador nem a nenhum treinador. Houve alguns dirigentes aos quais a entrada foi negada, e por razões muito boas", afirmou Giuliani, que acrescentou: "Embora eu não possa entrar em detalhes, o que posso dizer, em linhas gerais, é que foi por uma razão muito boa."
O problema é que Artan não é dirigente — é árbitro selecionado pela FIFA. Giuliani não abordou essa contradição diretamente. O que ele confirmou, porém, vai além de um caso isolado: parte da delegação do Irã também teve vistos negados, a cota de ingressos para torcedores iranianos foi revogada, e a seleção iraniana precisou transferir sua base de treinamentos de Tucson, no Arizona, para Tijuana, no México — isso depois que os EUA e Israel atacaram Teerã em fevereiro, iniciando um conflito que ainda reverbera nas mesas de negociação diplomática.
Giuliani garantiu que "toda a comissão técnica iraniana vai entrar" no país, mas admitiu que alguns membros do staff foram barrados, sugerindo que "há algumas pessoas que dizem ser treinadores e talvez não sejam". Afirmação grave. Sem nomes, sem provas, sem contraditório.
Ian Wright e a frase que resume o clima antes da bola rolar
Quem não segurou a língua foi Ian Wright. O ex-atacante da seleção inglesa de 1998 — camisa 10 que viveu a Copa da França num momento em que o torneio ainda parecia pertencer ao futebol, não à geopolítica — usou as redes sociais para transformar a indignação em diagnóstico.
"Fãs estão sendo negados. Jogadores estão sendo negados. Representantes, jornalistas… e agora árbitros? Estou rindo, mas não é nada engraçado. Alguma coisa tem de ser dita. Nós temos os ingressos mais caros da história, as hospedagens mais caras, o transporte mais caro. É assim que um anfitrião deve se comportar no maior torneio do mundo? Essa é a Copa do Mundo do Caos."
A referência histórica de Wright não é gratuita. Na Copa de 1994, também nos EUA, a FIFA e o governo americano negociaram acesso de forma relativamente fluida para delegações de países com relações diplomáticas tensas — incluindo Irã e Arábia Saudita, que estavam no mesmo grupo. Trinta e dois anos depois, o mundo mudou, as políticas de imigração endureceram, e o torneio cresceu para 48 seleções. O que não cresceu foi a capacidade de garantir que todos os convocados — jogadores, árbitros, staff — consigam de fato entrar no país sede.
Enquanto isso, o futebol segue em campo. A Inglaterra treina em West Palm Beach, na Flórida — onde sentiu os efeitos de um terremoto de magnitude 6,1 na segunda-feira, com epicentro na costa de Cuba, sem feridos entre os jogadores. Thomas Tuchel encerra a preparação nesta quarta-feira contra a Costa Rica, em Orlando, antes de estrear no dia 17 contra a Croácia, em Dallas, no Texas. A Argentina de Lionel Messi joga esta noite contra a Islândia no Jordan-Hare Stadium, em Auburn, Alabama — último teste antes da estreia no Grupo J. A França encerrou os amistosos com vitória por 3 a 1 sobre a Irlanda do Norte, com hat-trick de Michael Olise e Mbappé em branco, mas Didier Deschamps garantiu: "Ele me disse que estava guardando os gols para os Estados Unidos."
A Copa começa na quinta-feira, 11 de junho, com México e África do Sul no Estádio Azteca — onde professores dissidentes da CNTE marcharam nesta terça-feira bloqueando a principal avenida de acesso ao estádio, em protesto contra a reforma previdenciária de 2007. A presidente Claudia Sheinbaum garantiu que a cerimônia ocorre conforme planejado. Omar Artan assiste de fora. Uma Copa do Mundo que se anuncia como a maior da história começa parecendo uma receita de bolo com metade dos ingredientes barrados na alfândega.








