Quando Alberto Simão, diretor de futebol feminino do Palmeiras, afirmou categoricamente que "o time feminino do Palmeiras hoje é autossustentável", ele não estava fazendo promessa para o futuro — estava descrevendo uma realidade já instalada em um clube que, menos de duas décadas atrás, havia encerrado o departamento feminino por falta de viabilidade financeira. A reestruturação das Palestrinas representa um dos casos mais consistentes de gestão profissional da modalidade no futebol brasileiro, e a inauguração do Centro de Excelência de Vinhedo consolida esse processo com tijolo e argamassa.
O modelo financeiro que muda o jogo
A autossustentabilidade não é um conceito abstrato na linguagem de Simão. O dirigente explicou, em entrevista ao PodPorco, que o departamento feminino opera com centro de custos próprio — o que significa que receitas e despesas são contabilizadas separadamente do futebol masculino. Mesmo a utilização do Allianz Parque, patrimônio do clube, gera encargos que o setor precisa cobrir com suas próprias fontes de receita.

"A gente tem a liberdade de jogar no Allianz no dia que quiser, mas o centro de custos é do feminino", explicou Simão, acrescentando que a equação do estádio principal exige planejamento preciso: "Para pagar a conta, precisamos de seis mil torcedores pagando ingresso."
O número de seis mil pagantes como ponto de equilíbrio para jogos no Allianz Parque é um dado revelador. Para efeito de comparação, o futebol feminino brasileiro registrou média de público próxima a 3.200 espectadores por jogo no Brasileirão Feminino de 2023, segundo dados da CBF — o que torna a meta palmeirense exigente, mas alcançável em datas de maior apelo. A venda de Amanda Gutierres ao Boston Legacy, franquia da NWSL americana, na temporada passada, também ilustra como o clube transformou o departamento em centro gerador de receita, e não apenas consumidor de recursos do caixa principal.

Vinhedo e o salto estrutural das Palestrinas
O anúncio mais concreto de Simão foi a inauguração iminente do Centro de Excelência de Vinhedo, cidade localizada a aproximadamente 90 quilômetros de São Paulo, na região de Campinas. Segundo o dirigente, a estrutura seria aberta em prazo curtíssimo a partir da entrevista.
"O Centro de Excelência de Vinhedo será inaugurado semana que vem", cravou Alberto Simão ao PodPorco.
A escolha estratégica por Vinhedo segue lógica similar à de outros grandes clubes que optaram por instalar suas categorias de base e departamentos femininos em cidades do interior paulista, onde o custo de instalação é menor e há mais espaço para estruturas completas. O objetivo declarado da direção é centralizar operações, qualificar as condições de treinamento e ampliar o controle sobre o desenvolvimento das atletas — um modelo que o futebol feminino europeu, especialmente na Espanha e na Inglaterra, consolidou ao longo dos últimos dez anos como diferencial competitivo entre os clubes de elite.
A análise do SportNavo sobre a evolução estrutural do futebol feminino no Brasil indica que, entre os principais clubes nacionais, apenas Corinthians, Flamengo e agora Palmeiras possuem instalações dedicadas exclusivamente à modalidade feminina com padrão profissional de treinamento — o que reduz significativamente a dependência de parcerias externas e aumenta a coesão das equipes durante a temporada.
Captação internacional e o olhar para a África
Além da estrutura física, Simão revelou uma estratégia de recrutamento que diferencia o Palmeiras dos competidores domésticos. O clube expandiu o monitoramento de atletas para além das fronteiras tradicionais — América do Sul e Europa — e passou a prospectar talentos no continente africano, mercado ainda pouco explorado pelos clubes brasileiros do futebol feminino.
A iniciativa tem fundamento histórico. O futebol masculino já demonstrou, ao longo de décadas, que mercados africanos produzem atletas de altíssimo nível a custos de negociação ainda acessíveis — padrão que o futebol feminino do continente começa a replicar, com a Nigéria e os Camarões figurando com crescente regularidade em Copas do Mundo femininas. Identificar talentos antes que o mercado europeu os absorva é o mesmo princípio que norteou a formação de gerações vitoriosas no futebol masculino.
O movimento de internacionalização do recrutamento, somado ao CT de Vinhedo e ao modelo de centro de custos independente, configura o projeto mais estruturado do Palmeiras feminino desde sua refundação. As Palestrinas disputam o Brasileirão Feminino 2025 com a nova estrutura já como pano de fundo — e o calendário da competição prevê rodadas decisivas ainda no segundo semestre, com o clube em busca de posição entre os finalistas da principal competição nacional da modalidade.








