Dezesseis anos. Quatro Copas. Duas gerações de jogadores. Três coisas definem a magnitude do que o Paraguai carrega para o SoFi Stadium nesta sexta-feira: a ausência, a volta e o adversário. Tudo se explica daí.

O Grupo D e o peso de estrear em Los Angeles

A Copa do Mundo de 2026 inaugura um formato inédito com 48 seleções distribuídas em 16 grupos, e o Grupo D reúne anfitriões e retornantes numa combinação que poucos roteiristas ousariam inventar. Os Estados Unidos entram em campo no SoFi Stadium, em Inglewood, região metropolitana de Los Angeles, às 22h no horário de Brasília, diante de um Paraguai que não disputava um Mundial desde a África do Sul, em 2010 — quando chegou às quartas de final e foi eliminado pela Espanha, futura campeã. A partida será arbitrada pelo holandês Danny Makkelie, com VAR sob responsabilidade do espanhol Carlos Del Cerro Grande.

Para os americanos, a condição de anfitrião tem dupla natureza: isenta de Eliminatórias, a seleção comandada por Mauricio Pochettino usou o período de preparação para ajustar engrenagens — com resultados oscilantes. Nos últimos cinco amistosos, os EUA somaram duas vitórias e três derrotas, marcando 11 gols e sofrendo 12. A derrota mais recente foi para a Alemanha por 2 a 1, em 6 de junho, apenas seis dias antes da estreia oficial. Antes disso, uma goleada de 5 a 1 sobre o Uruguai em novembro de 2025 e uma derrota vexatória de 5 a 2 para a Bélgica compõem o retrato de uma equipe capaz de brilhar e de desmoronar no mesmo mês.

A Albirroja que voltou mais organizada do que saiu

O Paraguai de Gustavo Alfaro chegou à Copa pelo caminho mais duro possível: terminou em sexto lugar nas Eliminatórias Sul-Americanas, numa zona de classificação que exige consistência ao longo de dezoito rodadas contra as melhores seleções do continente. E chegou em momento de forma superior ao rival. Nos últimos cinco amistosos, a Albirroja registrou três vitórias — sobre Nicarágua (4 a 0, em 5 de junho), Grécia (1 a 0) e México (2 a 1) —, uma derrota para Marrocos (1 a 2) e outra para os próprios Estados Unidos (1 a 2), em novembro de 2025. Oito gols marcados, cinco sofridos: uma eficiência defensiva que Alfaro construiu com nomes conhecidos do futebol brasileiro.

Gatito Fernández, Gustavo Gómez e Junior Alonso formam a espinha dorsal de uma defesa que os torcedores do Flamengo, do Palmeiras e do Athletico conhecem bem. O meio-campo conta com Miguel Almirón, que acumula experiência na Premier League pelo Newcastle, e Diego Gómez, revelado pelo Inter Miami. Na frente, Antonio Sanabria divide responsabilidades com Mauricio — jovem do Palmeiras que deve ganhar espaço após a lesão do titular Julio Enciso, confirmada no último amistoso preparatório. Enciso.

Pulisic lidera uma geração que precisa provar algo

Do outro lado, Pochettino escala uma equipe construída ao redor de Christian Pulisic, o mais reconhecível rosto do futebol americano na Europa — atualmente no Milan. Ao seu lado, Weston McKennie e Tyler Adams formam um meio-campo com quilometragem europeia relevante. A defesa deve ter Antonee Robinson e Miles Robinson nas laterais, com Tim Ream como zagueiro experiente. No gol, Matt Freese herda a posição num momento de definição geracional.

Segundo o técnico Mauricio Pochettino, a equipe americana tem consciência do que representa estrear em casa numa Copa do Mundo.

"Jogamos em casa, com nossa torcida, e precisamos mostrar que somos capazes de competir com qualquer um", disse o argentino em entrevista coletiva antes da partida.
A frase soa como obrigação — porque é. Uma seleção que não disputou Eliminatórias e recebeu o Mundial de presente não pode estrear tropeçando diante de um adversário que lutou cada ponto para chegar até aqui.

Gustavo Alfaro, por sua vez, adota um discurso que mistura humildade com ambição calculada.

"O Paraguai vem aqui para competir, não para participar. Sabemos onde estamos e o que precisamos fazer", afirmou o técnico argentino, que já comandou equipes sul-americanas em Copas anteriores.
Não há tragédia nessa diferença de status: há contabilidade. O Paraguai sabe que uma vitória nesta estreia praticamente garantiria a classificação às oitavas, dado o formato ampliado do torneio.

O histórico recente e o que está em jogo no Grupo D

O confronto mais recente entre as seleções aconteceu em 15 de novembro de 2025, num amistoso disputado no Subaru Park, em Chester, Pensilvânia — vitória americana por 2 a 1. Mas amistoso é amistoso. Copa do Mundo tem outra pressão atmosférica, outro peso nos pés e outra velocidade no raciocínio. O resultado de novembro serve como dado histórico, não como prognóstico.

No Grupo D, uma derrota paraguaia na estreia não elimina — o formato com 48 seleções e terceiros colocados que avançam cria uma rede de segurança generosa. Mas uma vitória paraguaia reordena completamente a hierarquia do grupo e coloca os anfitriões numa situação delicada logo no primeiro jogo. Para os EUA, o cenário oposto: vencer confirma o favoritismo, alivia a pressão interna e permite que Pochettino gerencie o grupo com mais tranquilidade nas rodadas seguintes.

O segundo jogo do Grupo D acontece no mesmo dia, entre os outros dois integrantes da chave. Dependendo do resultado desta estreia no SoFi Stadium, a tabela do grupo pode estar praticamente resolvida — ou completamente aberta — antes mesmo de a segunda rodada começar. Os EUA voltam a campo em 17 de junho; o Paraguai também. Quem sair de Los Angeles com os três pontos terá uma Copa muito diferente pela frente.