Três países, três modalidades de exclusão, um mesmo torneio. Um jogador barrado por acusações sem condenação. Um atacante com visto válido para apenas uma partida. Torcedores que ganharam ingressos no sorteio da Fifa mas não conseguiram embarcar. A Copa do Mundo de 2026 prometia ser a maior da história — e está sendo, inclusive na quantidade de pessoas impedidas de participar dela.

O Canadá e o caso Partey — inadmissibilidade sem condenação

Na terça-feira, 16 de junho, o juiz Roger Lafreniere, do Tribunal Federal de Ottawa, indeferiu o recurso apresentado pelos advogados de Thomas Partey, de 33 anos, meia da seleção de Gana. A decisão foi precisa na linguagem jurídica: Partey buscava uma "medida cautelar extraordinária e obrigatória" que exigiria do Canadá a anulação de uma "decisão de inadmissibilidade proferida legalmente". O governo canadense negou o visto com base num princípio que dispensa condenação — basta que haja "motivos razoáveis para acreditar" que um ato de inadmissibilidade foi cometido. Partey responde a acusações de estupro e agressão sexual no Reino Unido, delitos que nega categoricamente. O governo dos EUA, que também sedia jogos do torneio, concedeu o visto sem restrição. O Canadá, não.

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A ironia geopolítica é evidente: dois países que partilham a mesma Copa, o mesmo fuso-horário do Leste e décadas de tratados de livre-comércio chegaram a conclusões opostas sobre o mesmo indivíduo. Não há tragédia aqui no sentido grego — há legislação migratória dissonante operando sobre um evento que, por definição, exige coordenação transfronteiriça. Akua Mensah, canadense de origem ganesa, disse à Reuters que a decisão foi "lamentável". A advogada de Partey, Mackeda Bramwell, havia declarado antes do veredicto que a equipe jurídica estava "esperançosa quanto a um desfecho positivo". Depois da decisão, não respondeu aos pedidos de comentário.

O Irã e o visto de entrada única — logística como arma política

O caso iraniano tem uma dimensão diferente, mais reveladora dos meandros entre esporte e geopolítica. A Federação Iraniana de Futebol (FFIRI) confirmou que o ponta Mehdi Torabi, de 31 anos, recebeu um visto válido para uma única entrada nos EUA — enquanto os demais jogadores obtiveram vistos de múltiplas entradas. Torabi ficou no banco durante o empate de 2 a 2 com a Nova Zelândia, em Los Angeles, na segunda-feira. Após o jogo, o documento expirou. A delegação iraniana tem base em Tijuana, no México, e cruza a fronteira apenas na véspera de cada partida — um arranjo logístico inédito na história do torneio, forçado pela tensão política entre Teerã e Washington.

O perfil político de Torabi não é irrelevante para entender o tratamento diferenciado: o jogador é conhecido apoiador do governo iraniano, frequentou comícios pró-governo na Praça Valiasr em Teerã após os ataques aéreos de fevereiro, e o secretário de Estado Marco Rubio havia declarado publicamente que não permitiria a entrada de pessoas com ligações à Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC). O técnico Amir Ghalenoei foi direto em entrevista coletiva: afirmou que "nenhuma seleção sofreu tantas dificuldades em uma Copa do Mundo" quanto o Irã. Além de Torabi, o capitão Mehdi Taremi e um membro da comissão técnica foram retidos em aeroporto norte-americano após a partida contra a Nova Zelândia, atrasando o retorno da delegação a Tijuana. A FFIRI trabalha para obter novo visto a Torabi até sábado, véspera do jogo contra a Bélgica.

Senegal e a diáspora que substituiu os torcedores originais

Se os casos de Partey e Torabi envolvem jogadores, o terceiro eixo desta crise atinge uma dimensão sociológica mais ampla: os torcedores. Os EUA suspenderam total ou parcialmente a emissão de vistos para 39 países, entre eles Senegal. A diáspora senegalesa nos EUA é, segundo levantamento citado pela Reuters, relativamente pequena — o que amplifica o impacto das negativas. No Estádio de Nova York/Nova Jersey, nesta terça-feira, quem ocupou os assentos senegaleses foram imigrantes residentes nos EUA e torcedores internacionais solidários. O técnico Pape Thiaw havia antecipado o cenário, pedindo que a comunidade senegalesa residente nos EUA "fizesse barulho" pelas arquibancadas.

Mahmoud Touré, que emigrou do Senegal para os EUA há 25 anos, resumiu a situação com uma anedota concreta:

"Consegui meu ingresso da seguinte forma: um amigo meu de Senegal ganhou um ingresso no sorteio da Fifa, mas não conseguiu vir porque não obteve o visto. Esse é o tanto que a situação está ruim."
Jessica Ambres, moradora do Brooklyn, que vestia a camisa do Senegal e carregava a bandeira do país, foi além na análise:
"Sendo um dos países anfitriões desta competição, é um pouco desalentador ver como temos tratado os cidadãos do mundo."
O Senegal perdeu por 3 a 1 para a França em sua estreia — resultado que, em outro contexto, dominaria o noticiário. Aqui, disputou espaço com a ausência de quem deveria ter estado nas arquibancadas.

A Fifa entre a promessa e a execução

Em maio de 2025, durante o Congresso da Fifa em Zurique, o presidente Gianni Infantino declarou:

"O mundo é bem-vindo aos Estados Unidos. É claro que os jogadores, é claro, todos os envolvidos, todos nós, mas definitivamente também todos os torcedores."
A frase foi registrada pelo SportNavo e por dezenas de outros veículos como um compromisso público. Menos de um ano depois, um árbitro somali foi barrado, 15 dirigentes da FFIRI tiveram vistos negados, o chefe da delegação iraniana criticou a "falta de coordenação" da Fifa em questões de visto, e torcedores de pelo menos quatro países participantes — Irã, Haiti, Costa do Marfim e Senegal — enfrentaram suspensões totais ou parciais na emissão de documentos de viagem.

A questão não é apenas humanitária. Há uma dimensão econômica objetiva: torcedores internacionais que não conseguem viajar representam perda de receita em hospedagem, transporte, alimentação e merchandise — setores que, em Copas anteriores, movimentaram bilhões de dólares nas cidades-sede. A Copa de 2026 tem 48 seleções e 104 jogos distribuídos por 16 cidades em três países. A escala amplia tanto a oportunidade quanto a exposição a esse tipo de falha sistêmica. Gana enfrenta o Panamá em Toronto nesta quarta-feira, 17 de junho, sem Thomas Partey. O Irã joga contra a Bélgica no domingo, e a Federação tenta resolver a situação de Torabi até sábado. Se a Copa mais cara da história não conseguir garantir que um jogador convocado entre no país anfitrião para disputar sua segunda partida, qual é o valor real da promessa de Infantino?