Resistiu. Aos 47 minutos do segundo tempo, Mario Pasalic recebeu dentro da área e fuzilou o goleiro esloveno para selar um 2 a 1 que, na superfície, parece resultado de amistoso de preparação. No fundo, é mais um dado numa série estatística que há muito deixou de ser coincidência e passou a ser identidade nacional.

O que aconteceu em Varaždin e o que os números revelam

A Croácia encerrou sua preparação para a Copa do Mundo com vitória sobre a Eslovênia neste domingo (7), em casa, diante de seu próprio torcedor em Varaždin. O primeiro tempo passou sem gols, mas não sem chances: Budimir desperdiçou a melhor delas aos 24 minutos, aparecendo livre na pequena área antes de ser parado pelo goleiro Oblak em defesa de alto nível. A pressão croata foi contínua, com Ivan Perisic ativo pela esquerda e Mateo Kovacic arriscando de longa distância aos 34 minutos.

Na etapa final, Luka Modric abriu o placar aos 5 minutos após receber de Perisic na meia-lua e bater colocado, sem chances para Oblak. A resposta eslovena foi imediata, e o empate veio aos 37 minutos: Baturina errou o recuo, Andraz Sporar recuperou dentro da área e finalizou para vencer Livakovic. Com a Eslovênia crescida, o cenário se montou para mais um capítulo da saga croata — e Pasalic entrou em cena dois minutos além do tempo regulamentar.

Gols tardios como marca histórica da seleção xadrez

Seria injusto chamar de era — mas é uma era em escala doméstica — a tradição croata de decidir jogos nos minutos finais. A Copa do Mundo de 2022, no Catar, fornece a evidência mais recente e mais gritante: a Croácia eliminou o Japão nas penalidades após o empate em 1 a 1 no tempo normal, passou pelo Brasil nas cobranças após empate sem gols na prorrogação, e só foi parada pela Argentina nas semifinais. Em 2018, a virada sobre a Inglaterra na final da Copa — 2 a 1, com gol de Mandzukic aos 109 minutos da prorrogação — é o símbolo máximo dessa característica.

O padrão não é acidente. A Croácia tem uma das melhores médias de gols marcados entre os minutos 75 e 90 em Copas do Mundo desde 2014, segundo dados compilados pela FIFA após cada edição do torneio. O técnico Zlatko Dalić, que comanda a seleção desde 2017, cultiva um estilo de jogo baseado em resistência tática e aproveitamento físico nos momentos de maior pressão adversária. Nas palavras do próprio treinador em entrevistas antes do Mundial, "nós nunca paramos de acreditar, mesmo quando o placar não está a nosso favor — essa mentalidade está no DNA desta geração".

"Nós nunca paramos de acreditar, mesmo quando o placar não está a nosso favor — essa mentalidade está no DNA desta geração." — Zlatko Dalić, técnico da Croácia

As causas por trás do padrão croata

Três fatores estruturais explicam a recorrência dos gols tardios. O primeiro é a preparação física: a Croácia trabalha periodização específica para manter intensidade nos últimos 15 minutos, algo que Dalić implantou sistematicamente desde 2018. O segundo é a experiência acumulada — jogadores como Modric, hoje com 40 anos, e Perisic têm dezenas de partidas em situações de pressão máxima na Champions League e em Copas, o que reduz a ansiedade em momentos críticos.

O terceiro fator é tático: a seleção xadrez tem o hábito de ceder espaço ao adversário na fase final das partidas, atraindo a pressão e explorando os espaços deixados nas transições. Contra a Eslovênia, o padrão se repetiu com precisão cirúrgica — os visitantes cresceram após o empate aos 37 minutos, e foi exatamente nesse momento de maior exposição eslovena que Pasalic encontrou espaço para o gol decisivo. Aos 44 minutos, Kuzmic ainda salvou praticamente sobre a linha após tentativa de Matanovic, sinalizando que a Croácia não havia desistido mesmo com o relógio correndo.

Inglaterra em Dallas e o que esperar do Grupo L

A estreia na Copa do Mundo está marcada para 17 de junho, em Dallas, contra a Inglaterra, pelo Grupo L — que também reúne Gana e Panamá. O confronto replica, com carga simbólica considerável, a final de 2018 em Moscou, quando a Croácia virou o jogo depois de sair perdendo. A seleção inglesa, hoje mais experiente e com um elenco de maior profundidade do que há oito anos, chega ao duelo como favorita nas análises de mercado.

Mas os dados históricos recomendam cautela a quem subestima os croatas nos minutos finais. Desde 2018, a seleção marcou gols decisivos após o minuto 85 em pelo menos quatro partidas eliminatórias diretas. O amistoso deste domingo — com gol aos 47 minutos do segundo tempo contra uma Eslovênia bem organizada defensivamente — foi, antes de tudo, um ensaio geral para o que Dalić espera replicar em Dallas. Decidiu.