R$ 25 milhões. Esse é o valor que o Comitê Olímpico do Brasil e o Comitê Brasileiro de Clubes colocam em jogo caso a PEC da Segurança Pública seja aprovada no Senado na forma como chegou da Câmara dos Deputados. Para ter dimensão do estrago: segundo Marco La Porta, presidente do COB, essa cifra equivale à soma dos orçamentos anuais do vôlei e do judô no país — duas das modalidades que mais entregam medalhas ao Brasil em Olimpíadas.
O que está em disputa no Senado
Na terça-feira, 28 de abril, a partir das 9h30, o Senado Federal recebe uma audiência pública convocada pela senadora Leila Gomes — ex-ponteira da seleção brasileira de vôlei e atual presidente da Comissão de Esportes — para debater os impactos da reforma tributária sobre o financiamento esportivo. O ponto central da discussão não é o texto original da PEC da Segurança Pública, mas uma alteração inserida no percurso: a mudança no cálculo de distribuição dos recursos provenientes das casas de apostas esportivas, as chamadas bets.
A proposta já passou pela Câmara e agora aguarda o crivo do Senado. Entidades como o COB e o CBC estão na linha de frente da resistência, e Felipe Cavalcanti, gerente jurídico do CBC, não economizou nas palavras ao dimensionar o problema.
"Se essa mudança for aprovada no Senado, acabou, não tem o que fazer, vai haver uma mudança na Constituição. A audiência pública desta terça-feira é sobre tributação, mas esse assunto também tangencia a questão das bets", explicou Cavalcanti ao Lance!.
Por que as bets importam tanto para o esporte olímpico
O modelo de financiamento do esporte brasileiro passou por uma virada estrutural nos últimos anos. As loterias tradicionais, historicamente a principal fonte de receita para confederações e clubes, perderam tração junto ao público mais jovem. Marco La Porta tocou exatamente nesse ponto durante o CBC & Clubes Expo 2026, realizado em Campinas na semana passada.
"Os recursos das bets são importantes porque compensam a queda da arrecadação das loterias, que hoje atraem um público de uma faixa etária mais elevada. Os jovens optam pelas apostas on-line, feitas pelo celular", disse La Porta, que também reforçou a necessidade de presença constante em Brasília para defender os interesses do movimento olímpico.
A lógica é direta: sem as bets como fonte complementar de receita, o buraco aberto pela queda das loterias simplesmente não fecha. E a PEC, na avaliação das entidades, agravaria esse cenário ao reduzir em 30% o volume que as operadoras de apostas repassam ao esporte nacional.
A engrenagem política que o esporte precisa mover
A mobilização desta semana segue um roteiro já testado. Em 24 de fevereiro, atletas e dirigentes ocuparam a Câmara dos Deputados em massa para pressionar contra alterações que consideravam prejudiciais — e a memória daquele dia ainda está fresca entre os envolvidos. Cavalcanti usou o episódio como referência ao cobrar o mesmo engajamento agora.
"Nossa posição é contra essa supressão de 30% dos recursos. É o momento de a gente se manifestar, como aconteceu em 24 de fevereiro, quando lotamos a Câmara", afirmou o gerente jurídico do CBC.
Conforme apuração do SportNavo, a articulação envolve não apenas o COB e o CBC, mas um conjunto amplo de confederações olímpicas que dependem diretamente das transferências das bets para bancar calendário de competições, bolsas para atletas de alto rendimento e estrutura técnica. A presença de Leila Gomes como convocante da audiência — uma atleta de alto nível que viveu na pele as dificuldades de financiamento do esporte brasileiro — dá ao encontro um peso simbólico difícil de ignorar.
O que acontece se o Senado aprovar a PEC sem mudanças
O cenário mais temido pelo movimento olímpico brasileiro é relativamente simples de descrever: uma emenda constitucional não volta atrás com facilidade. Uma vez promulgada, a nova fórmula de distribuição de recursos passa a ser lei permanente, e o ajuste de R$ 25 milhões ao ano sai do orçamento de modalidades que já operam com margens estreitas. O SportNavo identificou que confederações de atletismo, natação e ginástica também figuram entre as entidades que acompanharão a solenidade, ampliando o espectro de esportes diretamente ameaçados pela proposta.
A audiência pública do dia 28 de abril representa a última janela concreta de influência antes de o texto avançar para votação no plenário do Senado. Caso as entidades consigam convencer os senadores a incluir uma emenda de redação que preserve o percentual atual destinado ao esporte, o impacto pode ser neutralizado ainda nesta semana.








