Confesso: eu subestimei Alex Pereira em 2022. Quando ele chegou ao UFC vindo do kickboxing, com 34 anos e cartel ainda modesto nas artes marciais mistas, escrevi aqui mesmo que ele seria mais um nome de passagem, daqueles que encantam na estreia e somem na primeira sequência difícil. Errei feio — e o que aconteceu nos últimos três anos me faz questionar se há algum teto para esse homem.

O feito que Washington pode testemunhar no dia 14

No próximo domingo, 14 de junho, o UFC Freedom 250 transforma a capital americana em palco de um momento potencialmente histórico. Alex Poatan, ex-campeão dos médios (até 83,9 kg) e ex-campeão dos meio-pesados (até 93 kg), enfrenta o francês Ciryl Gane em disputa pelo cinturão interino dos pesados (até 120,2 kg). Se vencer, ele se tornará o primeiro lutador da história do UFC a conquistar títulos em três categorias de peso diferentes — algo que Jon Jones, Daniel Cormier e Anderson Silva tentaram, mas não completaram da mesma forma.

O cinturão dos pesados pertence formalmente a Tom Aspinall, afastado por lesão. A criação do título interino foi a solução encontrada pelo UFC para manter a divisão ativa — e colocou Gane, ex-campeão interino da categoria, como o guardião mais qualificado disponível. Para Poatan, o caminho passa por um adversário que mede 2,01 m, tem alcance de 211 cm e é tecnicamente um dos mais completos que ele já enfrentou.

Como Poatan chegou até aqui — e o que o cartel revela

A trajetória de Alex Pereira no UFC é quase inverossímil na velocidade. Ele estreou na organização em outubro de 2021 e conquistou o cinturão dos médios em novembro de 2022, nocauteando Israel Adesanya — rival que já havia derrotado duas vezes no kickboxing. Perdeu o título para o mesmo Adesanya em abril de 2023 por finalização, mas respondeu subindo de categoria. Em novembro de 2023, nocauteou Jiří Procházka em dois rounds e se tornou campeão dos meio-pesados. Defendeu o cinturão quatro vezes seguidas, incluindo vitórias sobre Procházka (novamente) e Khalil Rountree Jr., antes de aceitar o desafio de subir mais uma divisão.

O cartel atual de Poatan no MMA registra 12 vitórias e 2 derrotas, com 10 finalizações — sendo 9 por nocaute ou TKO. A sequência de resultados recentes é de cinco vitórias consecutivas desde que perdeu o cinturão dos médios, o que reforça a narrativa de um atleta que cresce sob pressão. Nas odds de apostas divulgadas antes do evento, Poatan aparece como leve favorito sobre Gane, com linhas variando entre -130 e -150 nas principais casas americanas — margem que reflete tanto o histórico de nocautes do brasileiro quanto a incerteza gerada pelo salto de peso.

Os números do salto para os pesados

  • Poatan pesou 93 kg como meio-pesado; contra Gane, chegará próximo ao limite de 120,2 kg
  • Gane tem vantagem de 11 cm na altura e histórico de cinco rounds completos contra Francis Ngannou em 2022
  • Poatan nunca foi além do terceiro round em nenhuma de suas lutas no UFC
  • Os dois já tiveram encontros em treinos no passado, quando Gane ainda estava no Glory Kickboxing

O que ainda falta resolver antes do octógono

A semana de luta em Washington segue o protocolo padrão do UFC: media day na quarta-feira, coletiva na quinta, pesagens oficial e cerimonial na sexta. Mas o evento carrega uma tensão adicional que vai além das duas disputas de cinturão. Uma ação judicial movida contra o UFC ameaçou o cancelamento do card nas últimas semanas, embora a organização tenha confirmado a realização normalmente. Dana White chamou o evento de "Super Bowl do MMA" — uma hipérbole que, desta vez, encontra algum respaldo nos fatos.

A luta principal, entre Ilia Topuria e Justin Gaethje pelo cinturão dos leves, chegou a um nível de hostilidade que envolveu até familiares dos dois atletas durante a semana de divulgação. Gaethje chamou o campeão georgiano de termos que não se repetem em família, e Topuria prometeu nocaute no primeiro round diante dos parentes do rival. O Brasil ainda terá Mauricio Ruffy diante de Michael Chandler e Diego Lopes contra Steve Garcia no mesmo card — três brasileiros no mesmo evento, com Poatan no topo da pirâmide.

A questão que permanece aberta é o que acontece se Poatan vencer. Tom Aspinall, titular do cinturão linear, precisaria ser o próximo adversário — e a unificação seria o capítulo seguinte de uma história que, em 2022, eu achei que não teria tantos capítulos assim. O UFC Freedom 250 começa às 21h (horário de Brasília), com transmissão pelo Paramount+, e Poatan entra no octógono carregando a possibilidade de reescrever o que se entende por domínio de peso no MMA moderno.

Confesso: eu errei sobre Alex Pereira em 2026 — mas desta vez o erro foi não ter apostado mais alto desde o início.