Enganou. O empate de 0 a 0 entre Brasil e Escócia, disputado em Frankfurt no dia 14 de junho de 1974, na abertura da fase de grupos da Copa do Mundo da Alemanha Ocidental, ficou na memória como uma curiosidade estatística — o único resultado que impediu o Brasil de ter 100% de aproveitamento nos quatro confrontos que as duas seleções travaram em Mundiais. Desde então, a Seleção ganhou todas as reedições, com placar acumulado folgado. Mas o futebol, como qualquer narrativa bem construída, raramente repete o mesmo enredo.
Robertson e McTominay, os protagonistas que mudaram a Escócia
Andrew Robertson, capitão e lateral-esquerdo do Liverpool, é o símbolo mais acabado do que a seleção escocesa se tornou nesta geração. Aos 32 anos, com mais de cem jogos pela seleção e títulos da Premier League e da Champions League no currículo, Robertson não é apenas um jogador experiente — é uma referência de liderança e intensidade que calibra o comportamento tático de toda a equipe. Sua capacidade de subir pela esquerda e criar superioridade numérica no ataque transforma o que seria uma função defensiva em vetor ofensivo constante.
Ao lado dele, Scott McTominay vive o melhor momento da carreira. Depois de anos sendo figura secundária no Manchester United, o meio-campista encontrou no Napoli o palco que precisava. Na temporada 2024/2025, contribuiu de forma decisiva para o título do Campeonato Italiano conquistado pelos napolitanos, consolidando-se como um dos volantes mais completos da Serie A — capaz de recuperar bola, progredir com ela e aparecer na área adversária com timing de atacante. A dupla Robertson-McTominay forma a espinha dorsal de uma seleção que, sob o comando de Steve Clarke desde 2019, passou a funcionar como organismo coeso.
"Temos jogadores que atuam nos maiores clubes da Europa. Não viemos à Copa do Mundo para fazer turismo", disse Clarke em entrevista coletiva antes da convocação final, sinalizando a seriedade com que a Escócia encara o torneio.
Os coadjuvantes que podem definir o jogo contra o Brasil
Se Robertson e McTominay são os nomes que saltam à vista, a Escócia construiu ao redor deles um elenco com profundidade real. Lewis Ferguson, do Bologna, é o exemplo mais eloquente. Revelado sob o comando de Thiago Motta, o meia-armador desenvolve uma leitura de jogo que remete ao tipo de jogador que os britânicos raramente produziam — técnico, posicional, com capacidade de criar em espaços reduzidos. Já Billy Gilmour, peça frequente nas convocações dos últimos anos, oferece saída de bola limpa e circulação rápida, qualidades que funcionam como antídoto ao pressing alto que o Brasil costuma impor.
Ben Doak representa o elemento imprevisível.

O jovem atacante, apontado como uma das maiores promessas do futebol escocês, chega ao Mundial cercado de expectativa e com a vantagem de quem ainda não tem padrão de comportamento consolidado para os adversários analisarem. John McGinn, veterano de seleção, completa o quadro de um elenco que mistura experiência europeia com juventude ousada — combinação que, em noites certas, pode surpreender qualquer adversário.
"Cada jogador escocês que atua fora sabe que tem de mostrar algo diferente. A Copa é a nossa janela", afirmou McGinn em entrevista à imprensa britânica durante a preparação.
O retrospecto favorece o Brasil, mas o Grupo C tem armadilhas
Historicamente, o Brasil domina. Após o empate de 1974, vieram vitórias em 1982 (4 a 1, na Espanha), em 1990 (1 a 0, na Itália) e em 1998 (2 a 1, na França, em partida que eliminou os escoceses ainda na fase de grupos). O padrão se repete, mas o contexto de 2026 traz variáveis que merecem atenção. A Escócia é a única seleção europeia do Grupo C, o que significa que chegará ao confronto contra o Brasil — previsto para a última rodada da chave — já com dois jogos de aquecimento e, possivelmente, com a necessidade de um resultado específico para avançar.
Há algo de O Senhor dos Anéis nessa construção: o adversário que parece menor no mapa pode ser justamente o mais traiçoeiro no caminho. Clarke é um treinador pragmático, que ao longo de sete anos moldou a Escócia num bloco de organização defensiva e transições velozes — exatamente o tipo de sistema que complica equipes ofensivas acostumadas a ter a bola e ditar o ritmo.
Conforme apurado em matéria do SportNavo, a identidade tática escocesa foi consolidada em dezenas de partidas sob Clarke, com ênfase em linhas defensivas compactas e aproveitamento de bolas paradas — setor em que Robertson e McGinn se destacam como executores.
O Brasil encerra sua participação na fase de grupos contra a Escócia em data ainda a confirmar pela FIFA, mas prevista para a terceira rodada do Grupo C. Para a Seleção, um tropeço nesse jogo poderia, em determinados cenários de tabela, significar a liderança do grupo — e, consequentemente, um cruzamento diferente nas oitavas de final. A Escócia sabe disso. Robertson sabe disso. E McTominay, que passou anos aprendendo a ser decisivo em momentos de pressão, certamente sabe também.








