Confesso: em 2022, eu subestimei a Espanha. Escrevi aqui mesmo, antes do Mundial do Catar, que Luis Enrique tinha talento demais no papel e coesão de menos no campo. A seleção foi eliminada nos pênaltis pelo Marrocos nas oitavas, e eu me senti parcialmente justificado — mas a história que veio depois me corrigiu com juros. A Copa do Mundo de 2026 começa com a Espanha como a candidata mais completa ao título, e desta vez não tenho a menor intenção de errar de novo.

O que os números de três décadas dizem sobre a Espanha em Copas

Antes de qualquer argumento tático, os dados históricos precisam ser colocados na mesa. A Espanha conquistou o único título mundial de sua história em 2010, na África do Sul, derrotando a Holanda por 1 a 0 na prorrogação com gol de Andrés Iniesta. Mas o que sustenta o favoritismo atual não é aquele troféu isolado — é a continuidade de um projeto que, com variações de geração, jamais abandonou seus princípios de posse e pressão alta. Entre 2008 e 2012, a seleção espanhola venceu dois títulos consecutivos da Eurocopa e um Mundial, um feito que nenhuma outra seleção europeia repetiu no mesmo período. Em 2024, conquistou a Eurocopa derrotando a Inglaterra por 2 a 1 na final em Berlim, com Mikel Oyarzabal marcando o gol do título. Esse ciclo de consistência não tem equivalente no futebol contemporâneo.

A comparação com outras gerações campeãs reforça o argumento. A Alemanha de 2014, por exemplo, chegou ao título com um grupo que levou quatro anos sendo construído após a reestruturação iniciada em 2010. A França de 2018 dependeu de um Mbappé de 19 anos que explodiu no torneio. A Argentina de 2022 carregou Messi como eixo gravitacional absoluto. A Espanha de 2026, ao contrário, não tem um único ponto de ruptura — tem um sistema. Pedri, Gavi, Rodri e Raphinha não são peças intercambiáveis de um time sem identidade; são jogadores que já convivem com o mesmo modelo de jogo há pelo menos dois anos em nível de seleção.

O elenco espanhol lido por dentro — e o que os rivais não conseguem copiar

Seria injusto chamar de geração o que a Espanha construiu — mas é uma geração em escala histórica. Lamine Yamal, nascido em 2007, já acumula mais de 30 partidas pela seleção principal e foi eleito o melhor jovem da Eurocopa 2024 com apenas 16 anos. Rodri, o volante do Manchester City, ganhou a Bola de Ouro em 2024 justamente pelo papel de cérebro que exerce tanto no clube quanto na seleção. Dani Carvajal, lateral direito do Real Madrid e campeão da Champions League em 2024, representa a experiência que ancora os mais jovens. Esse equilíbrio entre maturidade e talento emergente é o que diferencia a Espanha de concorrentes como a França, que chega ao torneio com relatos de tensão interna no grupo, ou a Argentina, que depende de um Messi que completou 38 anos em junho de 2025.

O esquema de Luis de la Fuente, técnico desde 2023, mantém o 4-3-3 como base, com variações para o 4-2-3-1 dependendo do adversário. A diferença em relação à era Luis Enrique está na verticalidade: a Espanha de 2026 é mais direta, pressiona em bloco alto e transita com mais velocidade entre as linhas. Nas eliminatórias europeias para esta Copa, a seleção marcou 32 gols em 10 partidas, com aproveitamento de 90% — melhor desempenho entre todas as seleções do Velho Continente no mesmo período.

Qual outra seleção no torneio chega com time definido, esquema testado, ambiente tranquilo e artilheiro de 19 anos que já jogou uma final europeia?

Favorita, mas não invencível — o que pode atrapalhar a Espanha no caminho ao título

A França, no papel, segue sendo a seleção de maior valor de mercado do torneio. Com Kylian Mbappé no Real Madrid, Marcus Thuram na Inter de Milão e uma geração de meias que inclui Camavinga e Tchouaméni, os franceses têm profundidade de elenco que supera qualquer rival. O problema, como registrado pelo SportNavo em cobertura anterior ao torneio, são os relatos de desgaste interno no grupo — um sinal de alerta que a história das Copas já transformou em eliminações precoces mais de uma vez. A França de 2002, campeã em 1998, caiu na fase de grupos sem marcar um gol sequer.

"Jamais subestime a atual campeã do mundo", escreveu o colunista ao se referir à Argentina — um lembrete de que competitividade e garra já valeram um título em 2022 mesmo sem o elenco mais brilhante da competição.

A Alemanha, por sua vez, entra em qualquer Copa como candidata por tradição e organização. Nas edições de 1954, 1974, 1990 e 2014, os alemães venceram justamente quando ninguém apostava neles como favoritos absolutos. O elenco atual, com Florian Wirtz como referência criativa e Kai Havertz como centroavante, tem qualidade suficiente para chegar às semifinais — e a partir daí, qualquer coisa pode acontecer. Portugal, que chegou ao terceiro lugar em 1966 com Eusébio artilheiro com 9 gols, tenta 60 anos depois encontrar o título que escapou naquela semifinal contra a Inglaterra. Cristiano Ronaldo, aos 41 anos, vive o capítulo final de uma carreira que pode ou não ter essa conclusão épica.

"O título que parecia destinado a coroar Eusébio em 1966 pode surgir 60 anos depois para eternizar ainda mais a carreira de Cristiano Ronaldo", observou o colunista, numa das apostas mais românticas desta Copa.

A Espanha, contudo, reúne o que nenhuma dessas seleções consegue combinar ao mesmo tempo: sistema coletivo maduro, elenco sem dependência de um único nome, técnico com título recente e ambiente de grupo estável. Nos três jogos da fase de grupos, a seleção enfrenta adversários classificados pela repescagem e por confederações menores — um caminho que, se mantida a regularidade, deve levá-la às quartas de final sem grandes sobressaltos. A partir daí, o confronto com França ou Alemanha definirá se o favoritismo se converte em título — ou se a Copa, como sempre, reserva mais uma surpresa para quem apostou cedo demais.