Se a camisa do Haiti chegasse à Copa do Mundo com o design original — azul com detalhes em vermelho e a ilustração da Batalha de Vertières no canto inferior —, ela seria, provavelmente, o uniforme mais politicamente denso do torneio. Não por acidente. Por projeto. A fornecedora Saeta concebeu o uniforme como homenagem à resistência haitiana, evocando 18 de novembro de 1803, data em que forças locais derrotaram o exército napoleônico em Vertières e abriram caminho para a proclamação da independência do Haiti, em 1804 — a primeira república negra das Américas. A Copa do Mundo, no entanto, tem outras prioridades.
A decisão da Fifa e o que ela revela sobre poder simbólico
Durante o processo de aprovação dos uniformes para o Mundial de 2026, a Fifa identificou que certos elementos visuais do design haitiano "poderiam ser interpretados de maneira diferente sob seus regulamentos de equipamentos esportivos" e solicitou modificações. A linguagem burocrática do comunicado da Saeta não esconde a tensão subjacente: a entidade aplicou sua regra de proibição de "mensagens ou slogans políticos, religiosos ou pessoais" nos uniformes — uma norma que, em tese, protege o torneio de instrumentalização ideológica, mas que, na prática, opera de forma assimétrica. Representações de batalhas coloniais europeias em escudos e brasões de seleções do Velho Continente raramente passam pelo mesmo crivo. A Batalha de Vertières, porém, é uma narrativa antirracista e anticolonial, e sua presença em um campo de futebol em 2026 carregaria uma carga que a Fifa claramente preferiu evitar.
A Saeta, em seu comunicado, foi cuidadosa ao não confrontar diretamente a entidade máxima do futebol.
"O design final apresentado pela Saeta foi concebido como uma homenagem aos homens e mulheres que contribuem todos os dias para o futuro do Haiti e não tinha a intenção de ser uma declaração política", escreveu a empresa. A ressalva é reveladora: a Saeta precisou se defender de uma acusação que nunca foi formalmente feita. A Fifa não disse que o design era político — disse que poderia ser interpretado como tal. Essa margem interpretativa, controlada unilateralmente pela entidade, é o núcleo da polêmica.
Cinquenta e dois anos de espera e um grupo que não perdoa
O contexto histórico da classificação amplifica o peso da controvérsia. O Haiti retorna à Copa do Mundo após 52 anos de ausência — a última participação foi em 1974, na Alemanha Ocidental. A classificação para 2026 veio pela Concacaf, com o primeiro lugar em um grupo que incluía Honduras, Costa Rica e Nicarágua. Jean-Ricner Bellegarde, meio-campista que atua no Wolverhampton e é o nome mais reconhecido da seleção, resumiu o significado do feito com uma clareza que dispensa análise adicional.
"É inacreditável, para o país, para os jogadores. É uma grande experiência. Minha família está muito feliz. Representar o Haiti, com o que acontece no país que é muito complicado — o país está muito orgulhoso da nossa seleção", disse o camisa 10 em entrevista ao programa Golazo America, da CBS.
O Grupo C do Mundial, no entanto, é um teste de realidade brutal. O Haiti enfrenta Brasil, Marrocos e Uzbequistão — e ocupa a última posição do grupo no ranking da Fifa. A estreia brasileira, marcada para 13 de junho no MetLife Stadium, em East Rutherford, coloca os dois países frente a frente no primeiro sábado do torneio. Bellegarde, pragmático, reconhece a assimetria de forças, mas aponta uma vantagem estrutural pouco discutida:
"Quando se joga a Copa do Mundo, todos os jogadores têm mais pressão, o país pode pressioná-los. Mas para o Haiti é uma boa experiência. Se ganharmos um jogo será como vencer a Copa do Mundo", declarou o meia.
Quando o uniforme vira campo de disputa política
O caso haitiano não é isolado no contexto desta Copa. Em Los Angeles, manifestantes iraniano-americanos pedem à Fifa a exclusão do Irã do torneio, alegando que o regime usa a seleção como ferramenta de legitimação internacional. O governo Trump, por sua vez, tenta barrar um árbitro somali sob alegação de ligações com terrorismo — episódio que o portal SportNavo acompanhou nos últimos dias. Esses casos compõem um mosaico: a Copa de 2026, realizada pela primeira vez em três países sede (Estados Unidos, México e Canadá), está imersa em disputas geopolíticas que extrapolam o campo.
A diferença do caso haitiano é que a tensão não vem de fora da Fifa — vem de dentro do processo regulatório da própria entidade. Ao vetar a Batalha de Vertières, a Fifa não impediu uma declaração política: produziu uma. A decisão de apagar de um uniforme o símbolo máximo da independência do único país que nasceu de uma revolta de escravizados é, em si mesma, um gesto carregado de significado histórico. A questão que permanece aberta é se a Federação Haitiana de Futebol — que colaborou com a Saeta no projeto original — vai contestar publicamente a decisão ou aceitar a versão modificada do uniforme em silêncio, priorizando a participação no torneio sobre o embate institucional. O prazo para definição dos uniformes finais coincide com a abertura do Mundial, nesta quinta-feira (11), com México e África do Sul no Estádio Azteca, na Cidade do México.








