A última vez que o Brasil entrou em uma Copa do Mundo sem um lateral-direito de origem na lista foi em 1970 — e naquela ocasião, Carlos Alberto Torres, que jogava na posição, era tão dominante que a ausência de reserva específico jamais foi discutida. Cinquenta e seis anos depois, Carlo Ancelotti chegou à mesma condição não por opção inicial, mas por uma cadeia de lesões que eliminou primeiro Vanderson, do Monaco — operado na coxa esquerda em março de 2026 —, e agora Wesley, da Roma, diagnosticado com lesão no músculo adutor da coxa esquerda após sair de campo em lágrimas durante o amistoso contra o Egito, em Cleveland. A resposta do técnico italiano não foi buscar outro lateral: foi convocar Éderson, volante de 26 anos da Atalanta, e reconfigurar a lógica do elenco.

A cadeia de lesões que deixou a lateral direita do Brasil sem dono

A pré-lista de 55 nomes enviada à Fifa continha dois laterais-direitos além de Wesley como alternativas para a posição: Paulo Henrique, do Vasco, e Vitinho, do Botafogo. Nenhum dos dois convenceu nas oportunidades que tiveram com a camisa amarela, e tampouco estavam em fase de destaque pelos clubes na reta final da temporada europeia de 2025/2026. A comissão técnica avaliou os dois e descartou ambos — não por falta de qualidade em abstrato, mas por ausência de argumento concreto para justificar a presença de um terceiro lateral num elenco que já havia encontrado soluções alternativas para a posição. Ibañez atuou como lateral-direito na vitória sobre a Croácia, em março de 2026, e cumpriu o papel com segurança. Danilo, hoje zagueiro titular do Flamengo, construiu a maior parte da carreira exatamente nessa função. A lateral direita, portanto, já tinha cobertura. O meio-campo, não.

AC Milan - Atalanta

Os quatro motivos que colocaram Éderson na frente de Andrey Santos e Gabriel Sara

A disputa pela vaga aberta por Wesley não foi entre laterais, mas entre meio-campistas. Os dois nomes mais cotados eram Andrey Santos, do Chelsea, e Gabriel Sara. O primeiro esteve em quatro das cinco convocações de Ancelotti anteriores ao torneio, mas perdeu espaço ao cair de rendimento no Chelsea na reta final da temporada europeia. Sara também ficou para trás na avaliação da comissão. Éderson venceu a concorrência por quatro razões documentadas pela comissão técnica.

O primeiro motivo é a versatilidade funcional. Éderson pode atuar como primeiro ou segundo volante, e sob Gian Piero Gasperini na Atalanta, já foi utilizado pelo corredor direito do campo — não como lateral convencional, mas numa função híbrida que cobre a faixa sem abrir mão da presença no meio. Isso amplia as possibilidades táticas de Ancelotti sem exigir uma posição fixa.

O segundo motivo é a reconfiguração do meio-campo diante do calor dos Estados Unidos. Antes do corte de Wesley, o setor contava com Bruno Guimarães, Casemiro, Danilo Santos, Fabinho e Lucas Paquetá — cinco jogadores para cobrir um setor que será muito exigido pelas altas temperaturas nas cidades-sede americanas. Com Éderson, o número sobe para seis, dando a Ancelotti rotatividade real no setor mais desgastante do jogo moderno.

O terceiro motivo é o efeito cascata no papel de Fabinho. Revelado como lateral-direito antes de se consolidar como volante no Liverpool e na Arábia Saudita, Fabinho foi convocado originalmente como reserva de Casemiro. Com Éderson no elenco — capaz de cobrir essa função —, Fabinho ganha liberdade para ser acionado na lateral direita se necessário, criando uma segunda camada de cobertura para a posição perdida com Wesley.

O quarto motivo é a mudança tática que Ancelotti vem sinalizando: a possibilidade de escalar Lucas Paquetá como titular no lugar de um atacante, adotando um meio-campo mais populoso. Nesse cenário, a presença de Éderson deixa de ser contingência e passa a ser peça estrutural do sistema.

"Nem sempre a caminhada segue como planejamos. Após a lesão sofrida diante do Egito, Wesley deixa nossa delegação, mas leva consigo o respeito, a admiração e o carinho de todo o grupo", publicou a CBF nas redes sociais ao confirmar o corte.

Éderson e o caminho de Cruzeiro à Atalanta que poucos acompanharam de perto

A trajetória de Éderson até a convocação para a Copa do Mundo 2026 é menos linear do que parece. Formado no futebol brasileiro, passou por Cruzeiro, Corinthians e Fortaleza antes de deixar o país no início de 2022. Na Itália, defendeu a Salernitana por seis meses — tempo suficiente para atrair a Atalanta, que o contratou e o entregou a Gasperini, um dos técnicos mais exigentes da Europa em termos de intensidade e leitura tática. Sob o comando do treinador bergamasco, Éderson se tornou referência no setor de marcação e circulação da equipe que disputou a Champions League e venceu a Europa League em 2024. Suas três partidas pela Seleção Brasileira foram todas sob o comando de Dorival Júnior; pela gestão Ancelotti, havia sido convocado uma vez, na primeira lista do italiano, em junho de 2025, mas não entrou em campo. A diferença entre aquela convocação e esta é a distância entre Recife e Porto Alegre em linha reta — enorme no mapa, mas percorrida em tempo recorde quando o contexto muda.

O jogador também está no centro de negociações para uma possível transferência ao Manchester United, o que reforça o patamar europeu em que se encontra. A comissão técnica brasileira acompanhou esse processo de valorização e o considerou determinante na avaliação final, segundo apuração do SportNavo.

Como o Brasil joga sem lateral-direito de origem e quem sai perdendo

A cadeia de efeitos da convocação de Éderson tem ganhadores e perdedores claros. Andrey Santos e Gabriel Sara ficaram fora — o primeiro após quatro convocações consecutivas, o que torna a ausência ainda mais ruidosa. Paulo Henrique e Vitinho, os laterais da pré-lista, também ficaram de fora, e a mensagem implícita é que Ancelotti prefere um meio-campo mais robusto a uma lateral-direita com especialista de origem.

Do lado dos beneficiados, Ibañez e Danilo ganham protagonismo garantido. Danilo, que voltou à Seleção como zagueiro depois de anos como lateral, pode ser acionado na posição que o revelou para o futebol mundial. Ibañez já demonstrou competência na função em março. A dupla forma uma cobertura heterodoxa, mas tecnicamente respaldada por histórico recente.

O efeito cascata mais relevante, porém, está no meio-campo: com seis opções reais para o setor — Bruno Guimarães, Casemiro, Danilo Santos, Fabinho, Paquetá e agora Éderson —, Ancelotti tem rotatividade para manter intensidade nos jogos de mata-mata, especialmente nas partidas disputadas em cidades como Miami e Los Angeles, onde as temperaturas em junho e julho ultrapassam 35 graus Celsius. Nenhuma Copa do Mundo recente exigiu tanto do condicionamento físico dos meio-campistas quanto esta promete exigir.

O Brasil estreia na Copa do Mundo 2026 com um elenco que não tem lateral-direito de origem — e com um técnico que decidiu que isso não é problema. A convocação de Éderson é a resposta tática de Ancelotti para essa equação.