Quem, honestamente, consegue montar uma lista dos dez maiores jogadores da história das Copas do Mundo sem travar uma briga interna consigo mesmo? A BBC tentou, e o resultado — com Ronaldo, Pelé e Romário entre os escolhidos — é defensável, rigoroso e, ao mesmo tempo, capaz de irritar qualquer torcedor que tenha assistido a um único jogo de Garrincha. Não há tragédia: há contabilidade. O problema é que futebol nunca foi só isso.

A seleção britânica partiu de um critério razoável: impacto direto nos torneios, números de gols, títulos conquistados e capacidade de ser sinônimo da Copa do Mundo enquanto competição. Pelé, com três títulos (1958, 1962 e 1970) e 12 gols em 14 jogos de Copa, é o nome mais óbvio da lista — e provavelmente o mais óbvio da história do esporte. Romário, artilheiro de 1994 com cinco gols e arquiteto do quarto título brasileiro, entra sem contestação. Ronaldo, com 15 gols em três Copas (1994, 1998 e 2002), é o segundo maior artilheiro da história do torneio, atrás apenas de Miroslav Klose, que marcou 16 — e também ficou de fora.

O que a lista acerta e por que isso importa

Há uma lógica histórica clara nas escolhas. A presença de Geoff Hurst, por exemplo, não é nostalgia inglesa: o atacante do West Ham marcou um hat-trick na final de 1966 contra a Alemanha Ocidental, feito que só seria repetido 56 anos depois, por Kylian Mbappé na final do Catar — e ainda assim a França perdeu. Nenhum jogador havia feito isso antes de Hurst em 44 anos de Copa. Quando se pensa nos ciclos de hegemonia do futebol mundial, esses momentos pontuais valem tanto quanto campanhas inteiras.

Outros nomes que aparecem nas discussões como Johan Cruyff (1947-2016), Eusébio (1942-2014) e Gerd Müller (1945-2021) têm argumentos fortes. Cruyff chegou à final de 1974 com uma Holanda que jogava o futebol total mais bonito da época, mas perdeu para a Alemanha Ocidental de Müller. Eusébio foi artilheiro de 1966 com nove gols, incluindo quatro num único jogo contra a Coreia do Norte. Müller marcou 14 gols em duas Copas, sendo campeão em 1974. Nenhum dos três entrou na lista — e a omissão é compreensível, ainda que dolorosa para quem viveu aquelas décadas.

"Entre os brasileiros, foi difícil não incluir Garrincha, o surpreendente craque das pernas tortas, do Botafogo e da seleção nacional", reconheceu o autor da lista na BBC.

O caso Garrincha e o que os números não capturam

Aqui mora a antítese. Manuel Francisco dos Santos, o Garrincha (1933-1983), jogou apenas duas Copas de forma relevante — 1958 e 1962 — e em ambas foi campeão. Em 1962, com Pelé lesionado já na segunda rodada, Garrincha carregou o Brasil sozinho: foi eleito o melhor jogador do torneio, artilheiro com quatro gols e ainda distribuiu assistências de um nível que os dados da época mal conseguiam registrar. O Brasil não perdeu uma única partida em Copa quando Garrincha jogou — são 11 vitórias e 1 empate, um aproveitamento que nenhum outro jogador de campo da história pode igualar.

O problema de Garrincha para listas como esta é estrutural. Ele não acumulou Copas como Pelé ou Ronaldo. Sua carreira no torneio foi curta e intensa, concentrada em dois torneios. Num critério de volume, ele perde. Num critério de impacto por partida, talvez vença todos. Quando assisti aos filmes da Copa de 1962 durante meu período em Milão, conversando com jornalistas italianos que tinham visto aquele torneio ao vivo, a unanimidade era desconcertante: para eles, Garrincha era o jogador mais impossível de defender que o futebol já havia produzido.

Impossível.

Klose, Fontaine e a questão dos artilheiros puros

A ausência de Klose é igualmente reveladora. O atacante alemão marcou 16 gols em quatro Copas (1998 a 2014), superando Ronaldo e se tornando o maior artilheiro da história do torneio. Mas Klose nunca dominou uma Copa sozinho da forma que Romário dominou 1994 ou que Ronaldo dominou 2002. Ele foi consistente durante 16 anos — o que é extraordinário — mas raramente foi o protagonista absoluto de um título. A Alemanha de 2014, por exemplo, tinha em Müller e Lahm figuras igualmente centrais. Just Fontaine (1933-2023), por sua vez, marcou 13 gols em apenas cinco jogos na Copa de 1958, uma densidade estatística que ninguém jamais repetiu. A Espanha campeã de 2010, como observou a própria BBC, diluiu seus méritos coletivamente a ponto de nenhum jogador específico emergir como símbolo daquele título — o que diz muito sobre o futebol de Pep Guardiola que Vicente del Bosque soube adaptar.

"Uma lista dos top 20 talvez fosse mais fácil", admitiu o autor, reconhecendo que o corte em dez inevitavelmente deixa lendas incontestáveis do lado de fora.

A síntese honesta, como analisado em matéria do SportNavo, é que qualquer lista de dez nomes neste universo será simultaneamente defensável e injusta. Pelé, Romário e Ronaldo no top 10 é irretocável. A ausência de Garrincha é explicável pelos critérios adotados, mas não deixa de ser uma lacuna que qualquer brasileiro — e qualquer europeu que tenha estudado aquela Copa de 1962 — sentirá. Klose merecia estar lá pelo volume histórico; Garrincha merecia pelo impacto por jogo. O debate, como os melhores da história do futebol, não tem árbitro. A Copa do Mundo de 2026, que começa em menos de uma semana nos Estados Unidos, talvez acrescente novos nomes a essa conversa — e aí a lista de dez ficará ainda mais impossível.