Se a Copa do Mundo de 2026 começasse hoje e os italianos precisassem escolher uma seleção para chamar de sua, o Brasil venceria a votação com folga. Esse exercício hipotético, porém, já tem resposta concreta: a pesquisa realizada pela empresa SWG, divulgada na segunda-feira, 8 de junho, pelo jornal Gazzetta dello Sport, mostrou que 17% dos torcedores italianos apontaram a Seleção Brasileira como a equipe que vão apoiar no torneio. A Espanha ficou um ponto percentual atrás, com 16%, e a Argentina aparece em terceiro, com 10%. França e Inglaterra empataram em 5%. Outros países somaram 12%, e 35% dos entrevistados declararam que não vão torcer para ninguém — o que, por si só, revela o tamanho da ferida deixada pela terceira eliminação consecutiva da Azzurra nas Eliminatórias.
A Itália fora pelo terceiro Mundial seguido e o Brasil como herdeiro afetivo
A Itália não disputa uma Copa do Mundo desde 2014 — e naquela edição, disputada justamente no Brasil, o desempenho foi constrangedor: uma vitória sobre a Inglaterra, derrotas para Costa Rica e Uruguai, e eliminação na fase de grupos com apenas três pontos em nove possíveis. Desde então, a Azzurra falhou nas Eliminatórias para 2018 (perdeu o playoff para a Suécia), para 2022 (eliminada pela Macedônia do Norte, num dos maiores vexames da história do futebol europeu) e agora para 2026. Nenhuma seleção campeã mundial havia ficado de fora de três edições consecutivas — a Itália acaba de inaugurar esse recorde negativo.
Diante de um vazio tão profundo, a escolha pelo Brasil não é aleatória. Ela tem raízes que antecedem qualquer pesquisa de opinião e qualquer resultado em campo. Como um pianista que perde a voz mas reconhece a melodia no canto de outro músico, o torcedor italiano encontra no futebol brasileiro algo que ressoa com sua própria memória afetiva do jogo — a técnica elevada à categoria de arte, o improviso como método, a alegria como filosofia tática… e aí vem o problema de explicar isso só com estatísticas.
Imigração italiana e o DNA do futebol brasileiro
Entre 1880 e 1930, aproximadamente 1,5 milhão de italianos desembarcaram no estado de São Paulo. Caxias do Sul, minha cidade natal, foi fundada por colonos do Vêneto em 1875. Bento Gonçalves, Garibaldi, Nova Trento — o sul do Brasil é, em muitos aspectos, uma extensão cultural da Itália. Não por acaso, clubes como a Juventude, de Caxias, e o Caxias do Sul carregam no nome e nas cores a herança dos imigrantes. Mas o fenômeno foi além do Rio Grande do Sul: em São Paulo, o Palestra Itália — fundado em 1914 por imigrantes italianos — se tornaria o Palmeiras, hoje um dos maiores clubes do país.
Essa herança não ficou nos arquivos históricos. Ela moldou jogadores. Mazzola, o centroavante que marcou dois gols na Copa de 1938 — quando o Brasil chegou ao terceiro lugar — tinha pai italiano. Amadeu, Baltazar, Jair da Rosa Pinto: a geração que encantou o mundo nas décadas de 1940 e 1950 foi construída, em parte, sobre esse substrato cultural. A própria escola técnica do futebol brasileiro, com sua ênfase no domínio de bola e na movimentação fluida, guarda parentesco com a tradição italiana do calcio de posicionamento e habilidade individual.
"O Brasil exporta muito mais do que atletas, exporta cultura, entretenimento e uma forma única de viver o futebol. Ser a seleção mais apoiada pelos italianos entre os estrangeiros mostra que a nossa relevância transcende os resultados recentes. É um reconhecimento ao legado construído por grandes gerações e a capacidade que o futebol brasileiro tem de conectar pessoas ao redor do mundo", disse Alexandre Frota, ex-presidente do Ceará Sporting Club e CEO da FutPro Expo.
Cinco títulos mundiais e o peso histórico que nenhuma pesquisa apaga
O Brasil é o único pentacampeão mundial. Os cinco títulos — 1958 (Suécia), 1962 (Chile), 1970 (México), 1994 (Estados Unidos) e 2002 (Coreia/Japão) — foram conquistados em três décadas diferentes, com três gerações distintas de jogadores. Pelé marcou 12 gols em quatro Copas disputadas (1958, 1962, 1966 e 1970). Ronaldo Fenômeno foi artilheiro em 1998 com quatro gols e em 2002 com oito — 15 gols no total em quatro edições, recorde que só Miroslav Klose (16 gols) superou. Nenhuma outra seleção combina esse volume histórico com a estética que o futebol brasileiro sempre projetou para o mundo.
A Itália, por sua vez, tem quatro títulos: 1934, 1938, 1982 e 2006. O tetra italiano de 2006, conquistado na Alemanha com a geração de Cannavaro, Buffon, Pirlo e Totti, foi o último grande momento da Azzurra em Copas. Desde aquele 9 de julho de 2006, quando a Itália venceu a França nos pênaltis por 5 a 3 em Berlim, o saldo da seleção em Mundiais é de apenas uma vitória em três jogos disputados — todos em 2014. Esse colapso explica, em parte, por que 35% dos italianos preferiram não torcer por ninguém: a dor da ausência é grande demais para ser substituída por qualquer bandeira estrangeira.
Para os outros 65%, no entanto, a Copa continua sendo um evento a ser vivido. E entre os que escolheram uma torcida, o Brasil saiu na frente. A margem de apenas um ponto percentual sobre a Espanha — atual campeã europeia, com uma geração de joias como Yamal e Pedri — mostra que a preferência pelo Brasil não é automática, mas construída sobre camadas de história e afeto que a Espanha, por mais que jogue bem, ainda não acumulou no imaginário italiano.
"Os números mostram que o Brasil continua sendo uma potência de interesse global. Para quem trabalha com conteúdo, isso significa uma chance única de criar narrativas que aproximem torcedores internacionais da cultura, dos atletas e das marcas brasileiras", apontou Wagner Leitzke, head de clubes do marketing digital da Agência End to End.
O efeito cascata para o Brasil na Copa e o que essa torcida representa
Ter 17% dos torcedores italianos como aliados não é detalhe logístico. A Itália tem aproximadamente 60 milhões de habitantes, e a comunidade ítalo-brasileira nos Estados Unidos — país-sede do torneio em 2026 — é numericamente expressiva, especialmente em Nova York, Boston e Chicago. O Brasil estreia no torneio no MetLife Stadium, em Nova Jersey, área metropolitana de Nova York, onde a presença de descendentes de italianos é historicamente concentrada. A pesquisa, divulgada em matéria do SportNavo, sugere que parte desse público pode se converter em torcida verde-e-amarela nas arquibancadas.
Historicamente, o Brasil e a Itália se enfrentaram em três finais de Copa do Mundo: 1938 (semifinal, vitória italiana por 2 a 1), 1970 (final, vitória brasileira por 4 a 1, com gols de Pelé, Gérson, Jairzinho e Carlos Alberto) e 1994 (final, vitória brasileira nos pênaltis por 3 a 2, após 0 a 0 no tempo normal). O placar de 4 a 1 em 1970, no Azteca, é talvez o resultado mais citado quando se fala em futebol-arte — e os italianos, derrotados naquele dia, foram os primeiros a reconhecer a superioridade daquela equipe. Essa derrota com elegância também faz parte do vínculo.
A Copa do Mundo de 2026 começa em 11 de junho, com a fase de grupos se estendendo até 2 de julho. O Brasil está no Grupo C, ao lado de México, Marrocos e Croácia, e faz sua estreia no MetLife Stadium no dia 13 de junho. Se a torcida italiana vier às arquibancadas de Nova Jersey vestida de verde e amarelo, será o capítulo mais recente de uma história que começou nos navios a vapor do século XIX e nunca parou de ser escrita.








