Ser o melhor do mundo antes da Copa do Mundo é, desde 1993, uma sentença de fracasso. Esse é o paradoxo que persegue a Argentina neste exato momento, enquanto Lionel Messi e seus companheiros se preparam para defender o título conquistado no Catar: a albiceleste lidera o ranking da Fifa e, por isso mesmo, carrega sobre os ombros o peso de um tabu que já derrubou Brasil, Espanha e Alemanha — as maiores potências do futebol mundial das últimas três décadas.
O ranking foi criado em agosto de 1993. Desde então, oito Copas foram disputadas. Em todas as oito, o país que chegou ao torneio na primeira posição saiu sem a taça. O dado foi registrado pelo SportNavo a partir do levantamento histórico das edições: Alemanha liderava em 1994 e viu o Brasil de Romário levantar o troféu em Pasadena; o Brasil liderava em 1998, 2006, 2010 e 2022 — e perdeu todas as quatro; a França liderava em 2002 e caiu ainda na fase de grupos; a Espanha liderava em 2014 e foi eliminada nas oitavas pela Holanda; a Alemanha liderava em 2018 e não passou da fase de grupos, derrotada por Coreia do Sul e México.
O Brasil de 1998 e a armadilha do favoritismo absoluto
Nenhum caso ilustra melhor a maldição do que aquele julho de Saint-Denis. O Brasil chegou à França de 1998 como líder do ranking, atual campeão mundial, com Ronaldo eleito melhor jogador do mundo pelo segundo ano consecutivo e com uma campanha nas eliminatórias que não deixava dúvidas: a equipe de Zagallo era, numericamente, a melhor do planeta. Romário, craque da Copa de 1994, foi cortado por lesão — ou por decisão técnica, dependendo de quem você perguntar — e a responsabilidade recaiu inteiramente sobre o Fenômeno. Na final contra a França de Zidane, o Brasil foi goleado por 3 a 0. O contexto da convulsão sofrida por Ronaldo horas antes do jogo ainda é discutido até hoje, mas o resultado foi cristalino: o número 1 do mundo voltou para casa sem a taça.
Quando um time domina o ranking por muito tempo, ele acumula não apenas prestígio, mas também a expectativa máxima dos adversários. Cada seleção que enfrenta o líder joga a sua melhor Copa. O Brasil de 2006 tinha Ronaldo, Ronaldinho, Adriano, Kaká e Roberto Carlos — provavelmente o elenco mais caro da história até então — e foi eliminado pela França nas quartas de final, por 1 a 0, com um gol de Zidane. O Brasil de 2010, também líder, caiu nas semifinais para a Holanda de Robben e Van Persie. O padrão é recorrente demais para ser coincidência.
A França cai para terceiro e a Argentina assume o trono mais perigoso do futebol
A reviravolta aconteceu nos dias que antecederam a abertura do torneio: a França, que ocupava a liderança do ranking, perdeu por 2 a 1 para a Costa do Marfim em amistoso de preparação e escorregou para a terceira posição. A Argentina, então, assumiu o topo — e com isso herdou também o tabu. É uma ironia histórica notável: a albiceleste passou décadas tentando chegar ao primeiro lugar do ranking sem conseguir, e agora que chegou, a posição é a mais incômoda possível.
"Portugal é um dos favoritos, mas não transborda entusiasmo", escreveu o jornal espanhol Marca após o amistoso contra a Nigéria — avaliação que poderia ser estendida a outras seleções do grupo de elite.
O supercomputador Opta, que realizou 25 mil simulações do torneio, não coloca a Argentina entre os três primeiros favoritos. A Espanha lidera com 16,1% de probabilidade de título, seguida pela França (13%) e pela Inglaterra (11,2%). A atual campeã aparece em quarto, com 10,4% — número que reflete tanto o respeito pelo elenco quanto a incerteza gerada pelo tabu estatístico.
O que a história dos ciclos europeus ensina sobre pressão e hegemonia
Quem acompanhou a Serie A nos anos 1990 ou a Premier League nos 2000 reconhece esse fenômeno com facilidade. Quando o AC Milan de Capello acumulou 57 pontos em 18 jogos na temporada 1993-94 — o famoso Invincibili — e chegou à final da Champions League como favorito absoluto, perdeu por 4 a 0 para o Barcelona de Cruyff. Quando o Arsenal de Wenger terminou a Premier League 2003-04 invicto, com 90 pontos, foi eliminado nas quartas da Champions pelo Chelsea. A hegemonia cria um alvo. E alvos são mais fáceis de acertar quando todos miram no mesmo ponto.
Quando a Espanha liderou o ranking em 2014, ela chegava como bicampeã mundial e tricampeã europeia — o ciclo mais dominante da história recente do futebol. Terminou eliminada na fase de grupos, com apenas três pontos, depois de levar 5 a 1 da Holanda. Quando a Alemanha liderou em 2018, vinha do título de 2014 e de uma Bundesliga dominada pelo Bayern de Guardiola, que acumulou 91 pontos em 2012-13. Saiu na fase de grupos.
Quando a Argentina entra em campo contra a Argélia no dia 16 de junho, às 22h (horário de Brasília), ela não estará apenas disputando uma partida da fase de grupos. Estará tentando quebrar um padrão de 33 anos — o mesmo padrão que destruiu o Brasil em 1998, a França em 2002, o Brasil novamente em 2006 e em 2010, a Espanha em 2014, a Alemanha em 2018 e o Brasil pela quarta vez em 2022.
"Estou mais preparado; era imaturo em 2022", disse Raphinha, em declaração que captura bem o espírito de uma geração que aprendeu com o fracasso anterior — e que talvez seja exatamente o tipo de mentalidade que a Argentina de Messi precisa ter para escapar da armadilha do ranking.
A abertura do torneio aconteceu nesta quinta-feira (11) no Estádio Azteca, com México e África do Sul, em um estádio que já recebeu Copas em 1970 e 1986 — o mesmo palco onde Maradona marcou o Gol do Século e onde o Brasil conquistou o tricampeonato com Pelé. O contexto histórico do Azteca é quase uma metáfora para o que está em jogo: um torneio que sempre foi maior do que qualquer ranking, qualquer estatística, qualquer favoritismo computadorizado.
Se a Argentina vencer o título em julho, será a primeira vez em 33 anos que o líder do ranking da Fifa consegue a proeza. Se perder — especialmente nas fases eliminatórias — será mais um capítulo de uma das curiosidades estatísticas mais duradouras do esporte moderno. A pergunta concreta que fica é esta: se a Argentina chegar à final contra a Espanha ou a França, e Messi marcar, a lógica histórica vai se dobrar — ou vai se repetir pela nona vez consecutiva?








