— Cara, como é que o Brasil fica produzindo lateral bom assim todo ciclo?
— Sei lá, deve ser coisa do DNA brasileiro mesmo.
— Não, espera. Danilo acabou de explicar isso numa entrevista. E faz todo sentido.
Essa conversa de boteco acontece há décadas nas arquibancadas brasileiras. Mas foi Danilo, o defensor do Flamengo que vai para mais uma Copa do Mundo como lateral da Seleção Brasileira, quem ofereceu ao jornal britânico The Athletic a explicação mais direta que já se ouviu sobre o assunto. E a resposta não está no talento inato — está na lógica da formação de jogadores no futebol brasileiro.
A confissão de Danilo e o mecanismo que ninguém nomeava
O próprio Danilo admite que começou a carreira em outra posição. A trajetória dele é o retrato fiel do processo que ele descreveu ao The Athletic:
"A maioria dos laterais no Brasil começa a carreira como meio campista ou atacante. Em algum momento, alguém diz: 'Ok, você tem qualidade, mas não essa qualidade para jogar ali no meio'."
O raciocínio continua com uma leitura tática precisa do futebol contemporâneo:
"Então esses jogadores são deslocados para a lateral, onde parece mais fácil porque há mais tempo e mais espaço. Isso acontece porque, no futebol atual, a maioria das equipes pressiona pelo centro do campo e acaba deixando os lados mais livres."
Reparemos no detalhe: Danilo não está descrevendo um privilégio do futebol brasileiro. Está descrevendo um mecanismo de triagem que, por acidente histórico e geográfico, produziu um efeito colateral extraordinário. Quando um menino com pé educado de meia é relocado para a faixa lateral, ele não perde o instinto ofensivo — ele o leva consigo para uma posição onde o adversário raramente espera encontrá-lo.
De Nilton Santos a Carlos Alberto Torres — a linhagem que não se interrompe
O inventário de laterais brasileiros históricos funciona como prova empírica do fenômeno. Pela direita: Djalma Santos, Carlos Alberto Torres — capitão do tricampeonato de 1970 —, Leandro, Cafu e Daniel Alves. Pela esquerda: Nilton Santos, Júnior, Branco, Roberto Carlos e Marcelo. São dez nomes que, em épocas diferentes, definiram o padrão mundial da posição. Nenhum outro país chegou perto dessa densidade histórica em apenas duas faixas do campo.
O movimento do lateral brasileiro é como uma maré de enchente num canal estreito: a água sobe com força, ocupa todo o corredor disponível e transborda para dentro da área adversária antes que a defesa consiga se organizar. Roberto Carlos marcou um dos gols mais famosos da história da seleção — contra a França, em 1997 — justamente porque o goleiro Fabien Barthez não esperava que um lateral chutasse daquele ângulo, com aquela potência. Cafu chegou à final da Copa de 2002 com o pulmão de um atacante e o senso posicional de um zagueiro. Ambos começaram suas formações em posições mais adiantadas.
O dado que sustenta essa linhagem também está nos números da Copa do Mundo: o Brasil é o único país com cinco títulos mundiais, e em quatro deles — 1958, 1962, 1970 e 1994 — os laterais foram protagonistas ofensivos reconhecidos internacionalmente, não apenas peças defensivas. Isso não é coincidência de geração. É sistema.
A Copa do Mundo 2026 e a continuidade de um padrão com 60 anos
Para a estreia do Brasil contra Marrocos, marcada para o dia 13 de junho, em Nova Jersey, Carlo Ancelotti escala Danilo na lateral direita e Alex Sandro na esquerda. Danilo tem 32 anos e esta é sua quarta Copa do Mundo com a Seleção — um número que, por si só, já o coloca entre os defensores mais experientes do torneio. Apesar de atuar como zagueiro no Flamengo na temporada 2025/2026, o técnico italiano optou pela experiência do jogador na função que ele exerceu por décadas na carreira europeia, passando por Real Madrid, Juventus e Manchester City.
O ambiente no CT do Red Bull em Morristown, Nova Jersey, tem sido de preparação intensa com pitadas de descontração. Na última quarta-feira, 10 de junho, um vídeo de Luiz Henrique viralizou nas redes sociais: o atacante do Zenit, da Rússia, teve dificuldades durante um exercício de coordenação motora no aquecimento — uma sequência de movimentação lateral com gestos simultâneos de braços e cintura. O próprio jogador respondeu com bom humor nas redes: "Não estava com a coordenação em dia, tropa". A cena, registrada pelo perfil Comando Santista no X e repostada por milhares de torcedores, ilustra o ambiente leve que a comissão técnica de Ancelotti tem cultivado nos dias que antecedem a estreia.
Conforme registrado pelo SportNavo, o ambiente descontraído convive com testes táticos sérios: Luiz Henrique participou de atividades fechadas disputando posição no setor ofensivo, enquanto Danilo treinou como titular na lateral direita, posição em que sua experiência de três Copas anteriores pesa na escolha do treinador italiano.
O que o Brasil ainda não respondeu é se a próxima geração de laterais já está sendo formada pelo mesmo mecanismo que Danilo descreveu. Os nomes de Wesley e Vanderson surgem nas discussões sobre o futuro da posição — e ambos, não por acaso, começaram suas carreiras em posições mais avançadas nos clubes de base. O ciclo segue seu curso. O Brasil estreia na Copa do Mundo no sábado, 13 de junho, às 19h (horário de Brasília), e a escalação de Danilo como titular nessa partida será mais um capítulo de uma história que começou há mais de 60 anos nos campos de várzea do país.








