Se a Copa do Mundo de 2026 fosse decidida pelo número de torcedores dispostos a dormir em solo americano, os Estados Unidos já teriam sido eliminados na fase de grupos. Os dados da empresa de análise hoteleira CoStar, divulgados às vésperas do torneio, mostram que Vancouver e Guadalajara lideram as reservas de hospedagem entre as sedes do Mundial, ambas com 48% de ocupação — enquanto nenhuma cidade americana, à exceção de São Francisco, com 44%, consegue figurar nesse patamar. Kansas City, Boston e Miami registram diárias em torno de US$ 300, o equivalente a R$ 1.500, contra os US$ 100 cobrados nas cidades mexicanas. A matemática do torcedor é simples, mas as causas do fenômeno são muito mais complexas.
O custo de entrar nos EUA vai além da passagem
Quem acompanha a história das Copas do Mundo sabe que o torneio sempre foi, antes de tudo, um exercício de logística para os torcedores. Na Copa de 1994, também disputada nos Estados Unidos, o país recebeu cerca de 3,6 milhões de espectadores nos estádios — um recorde que durou anos. Três décadas depois, o contexto geopolítico inverteu a equação. A política de vistos do governo Donald Trump, que retornou à Casa Branca em janeiro de 2025, introduziu barreiras burocráticas e retórica hostil que afastam visitantes de dezenas de países, particularmente os latino-americanos, que formam a espinha dorsal do público de uma Copa realizada na América do Norte.
A plataforma AirDNA registrou, em 26 de maio de 2026, que a procura por imóveis de curta duração no México estava consistentemente acima dos demais mercados nas noites próximas aos jogos.
"Esses lugares baratos e econômicos são os primeiros e os que mais rapidamente se esgotam", afirmou Bram Gallagher, diretor de economia e previsão da AirDNA, ao Wall Street Journal.A observação de Gallagher resume um padrão que analistas do setor já identificavam desde o sorteio dos grupos: a demanda por pacotes para a Cidade do México foi descrita por Dave Guenther, presidente da empresa de viagens esportivas Roadtrips, como excepcionalmente alta, impulsionada sobretudo por torcedores latino-americanos que optam por cruzar a fronteira a pé ou de carro em vez de enfrentar a alfândega americana.
Há também um fator que os números frios não capturam com facilidade: o clima. Não o meteorológico, mas o político. Passar pela imigração americana em 2026 significa, para muitos visitantes, submeter-se a um escrutínio que não existia em edições anteriores do torneio. Torcedores de países africanos, do Oriente Médio e da América Latina relatam receio de detenções arbitrárias ou negativas de entrada. A situação chegou a um ponto tão delicado que a própria FIFA precisou negociar garantias diplomáticas para que árbitros e delegações de determinadas nações pudessem circular livremente entre as sedes.
Toronto vira destino improvável e Guadalajara enche os estádios
A cena que se repetiu em Toronto na quinta-feira, 11 de junho, seria impensável em qualquer Copa anterior: grupos de torcedores escoceses, com seus tartãs coloridos, vagando pela CN Tower em busca de um bar local — não para assistir a um jogo da Escócia, mas simplesmente porque o Canadá não é os EUA.
"Estamos aqui em Toronto por causa dos voos baratos, e não podemos beber nos EUA porque temos 20 anos", explicou Bryden, da Escócia, que viajou com mais seis amigos antes de seguir de carro para Boston, onde a Escócia enfrenta o Haiti pelo Grupo C, com idade mínima para consumo de álcool fixada em 21 anos — contra 19 em Toronto.Seria injusto chamar isso de migração turística estruturada — mas é uma migração em escala continental.

Em Guadalajara, o cenário foi diferente por outras razões. Na partida entre Coreia do Sul e Tchéquia, disputada no Estádio Akron com capacidade para 46 mil pessoas, a FIFA informou presença de 44.985 torcedores — mas a imprensa internacional foi unânime ao notar os assentos vazios. O The Athletic registrou que "reclamações sobre preços de ingressos, custos de viagem e questões de visto têm sido um grande tema na preparação para o torneio". O Guardian confirmou "áreas visíveis de assentos desocupados", mesmo que a maioria dos presentes apoiasse visivelmente a Coreia do Sul. O paradoxo mexicano é que, mesmo sendo o destino mais procurado para hospedagem, os estádios locais também sofrem com a seletividade imposta pelos preços dos ingressos — os mais caros da história das Copas, segundo o próprio Gianni Infantino admitiu indiretamente ao defender a política tarifária da FIFA em entrevista à CazéTV.
O que os números de ocupação revelam sobre o futuro do torneio
Toronto, com taxa de ocupação acima de 40%, abriga uma população imigrante densa que comparece para torcer pelas seleções de seus países de origem. Irfan, cidadão canadense de 41 anos nascido na Bósnia e Herzegovina, viajou de Ottawa com os dois filhos para assistir à estreia de seu país natal na Copa — um dado que ilustra como o Canadá funciona, neste Mundial, como uma válvula de escape cultural para torcedores que encontrariam barreiras nos EUA. A cidade de Monterrey, no México, também supera os 40% de ocupação, segundo a CoStar, consolidando o padrão: quanto mais longe da fronteira americana, maior a procura.
Patrick Cicvak, torcedor que pagou C$ 1.300 — aproximadamente US$ 930 — por um ingresso para Canadá x Itália, exemplifica outro problema que se soma à equação: a Itália não se classificou para a Copa de 2026, eliminada pela Bósnia nos pênaltis na repescagem europeia. A ausência italiana, a terceira consecutiva do país em Mundiais, privou Toronto de uma das torcidas mais barulhentas e numerosas da Europa. O presidente da FIFA, Gianni Infantino, ironizou a situação ao sugerir que talvez fosse necessário expandir o torneio para 64 ou até 208 seleções para garantir a presença italiana. A piada não esconde o problema real: sem as grandes torcidas europeias dispostas a enfrentar os custos e a burocracia americana, as sedes dos EUA entram no torneio com cadeiras vazias e hotéis com disponibilidade.
A Copa do Mundo de 2026 tem 16 partidas programadas para cidades americanas na fase de grupos, incluindo Dallas, Los Angeles, Nova York e Seattle. Os jogos da fase eliminatória, com maior peso e torcidas mais mobilizadas, também passam pelos EUA — o que significa que o fenômeno da baixa ocupação hoteleira será testado com mais intensidade nas próximas semanas. A Argentina, por exemplo, estreia em 16 de junho contra a Argélia, com Facundo Medina improvisado na lateral-esquerda no lugar do lesionado Nicolás Tagliafico. Se a Albiceleste avançar, as torcidas argentinas — historicamente as mais numerosas e organizadas do continente — precisarão decidir se encaram os custos e a burocracia americanas ou se assistem aos jogos de Toronto ou Cidade do México.
Se a Copa do Mundo de 2026 fosse decidida pelo número de torcedores dispostos a dormir em solo americano, os Estados Unidos já teriam sido eliminados — e os dados da próxima semana dirão se o cenário muda com a chegada das oitavas de final.








