Não, Franco Mastantuono não é simplesmente mais um talento argentino exportado para a Europa antes da hora. A pergunta que o futebol sul-americano realmente deveria fazer é outra: qual modelo de adaptação ele deve seguir para não se perder no caminho? Para David Trezeguet, a resposta já existe — e tem nome e sobrenome.

O que Trezeguet viu em Nico Paz que o futebol argentino ainda não soube nomear

Em entrevistas concedidas ao canal DSports e ao diário espanhol AS na semana que antecede o início da Copa do Mundo 2026, o ex-centroavante francês — um dos 470 jogadores na história a erguer a taça — foi direto ao ponto sobre o caso Mastantuono. O meia de 17 anos assinou com o Real Madrid após despertar o interesse também do Paris Saint-Germain, repetindo uma rota que o próprio Trezeguet conhece bem: saiu de um clube argentino diretamente para a elite europeia.

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"¿Cómo le dices no al Madrid? ¿O al Barcelona? Seguramente se irá prestado. Un buen ejemplo para él debe ser Nico Paz."

A lógica de Trezeguet é precisa. Nico Paz, revelado pelo River Plate — clube onde o ex-atacante hoje ocupa o cargo de responsável pelas relações institucionais —, chegou ao Real Madrid jovem, foi cedido por empréstimo ao Como, da Serie A italiana, e construiu uma progressão orgânica antes de disputar espaço no Santiago Bernabéu. Mastantuono, segundo o campeão de 1998, deveria percorrer trajetória semelhante: "O jogador do River nasce, cresce e vai embora. É o sonho dele", resumiu.

A comparação não é apenas sentimental. Nico Paz, com passagem consolidada pelo Como na temporada 2025/2026 da Serie A, acumulou minutos decisivos em um campeonato de alto nível técnico e físico antes de retornar ao radar do Real Madrid. Esse ciclo de maturação — empréstimo estratégico, regularidade, retorno — é exatamente o que Trezeguet recomenda para que Mastantuono não repita os casos de jovens que chegam cedo demais ao banco de reservas dos gigantes europeus.

A sangria de talentos que o River não consegue segurar

O diagnóstico de Trezeguet vai além dos dois nomes. Ao falar sobre a tendência estrutural do futebol argentino, ele foi categórico sobre a impotência dos clubes sul-americanos diante do apetite europeu: "A partir de que se empiezan a mostrar, no los podemos mantener. Nos ha pasado con Echeverri". Claudio Echeverri, meia-atacante também formado no River, foi mais um nome que deixou o clube antes de completar 20 anos.

O padrão é recorrente. Desde 2019, o River Plate vendeu ou cedeu pelo menos seis jogadores com menos de 21 anos para clubes da Premier League, La Liga e Serie A. Para Trezeguet, a solução não é barrar as saídas — juridicamente inviável —, mas administrar as relações com os compradores europeus de forma que os empréstimos sejam negociados com critério: "Mantener diálogo con los equipos europeos es importante. El talento sudamericano es bruto, apetece mucho a los clubes de Europa."

Há, nessa afirmação, um dado implícito que o mercado confirma. Segundo o Transfermarkt, o valor de mercado médio de um jogador argentino sub-21 vendido para a Europa entre 2022 e 2025 foi de aproximadamente 18 milhões de euros — número que tende a dobrar quando o atleta retorna do empréstimo com estatísticas sólidas, como ocorreu com Nico Paz.

O que separa um empréstimo bem-sucedido de um desperdiçado

Minutos jogados, nível da competição e continuidade tática são as três variáveis que definem se um empréstimo forma ou deforma um jovem. Nico Paz, no Como, teve as três. Atuou em uma Serie A cada vez mais competitiva — a mesma liga que recebeu nomes como Lamine Yamal e Pedri em fases de desenvolvimento —, manteve sequência de jogos e operou em um sistema que explorou sua capacidade de condução e criação entre linhas. O resultado foi visível: ele chegou à Copa do Mundo 2026 como uma das apostas de Lionel Scaloni para a seleção argentina.

Mastantuono, por sua vez, ainda não tem esse histórico. Com 17 anos e poucos meses de futebol profissional no River, o meia precisa de um destino de empréstimo que ofereça as mesmas condições — e não apenas o prestígio do escudo no peito.

Qual clube europeu tem estrutura real para desenvolver Mastantuono sem queimá-lo antes do tempo?

Portugal como candidato e o broche final de Cristiano

Além do debate sobre jovens talentos, Trezeguet aproveitou o espaço para cravar sua aposta na Copa do Mundo 2026. Entre os favoritos, ele destacou Portugal com argumentos táticos e humanos. "Portugal cree en su valor, cree en su ideología, tiene una base sólida que pertenece a Paris Saint-Germain y tiene jugadores importantes tanto en defensa como en el centro campo", analisou, ressaltando que há "calidad para ser protagonistas".

O que Trezeguet viu em Nico Paz que o futebol argentino ainda não soube nomear P
O que Trezeguet viu em Nico Paz que o futebol argentino ainda não soube nomear P

O técnico Roberto Martínez, que conduziu a Bélgica por anos e assumiu Portugal em 2022, montou um elenco com coluna vertebral no PSG — Vitinha, Nuno Mendes e João Neves integram o grupo — e complementos de alto nível em outras ligas europeias. Para Trezeguet, que disputou três Copas do Mundo com a França (1998, 2002 e 2006) e marcou o gol do título na final contra o Brasil em Paris, a experiência coletiva pesa tanto quanto os indivíduos.

"Para Cristiano Ronaldo en lo individual sería el broche final a una carrera extraordinaria que ha hecho."

Cristiano Ronaldo, aos 41 anos, chega à Copa do Mundo 2026 carregando o peso de ser o único grande nome de sua geração ainda em atividade em alto nível. Trezeguet, que também conhece o que significa encerrar uma carreira sem o título máximo — ele não chegou à final em 2002 e foi eliminado nas semifinais em 2006 —, reconhece no português uma narrativa que transcende o futebol. Vencer a Copa seria, nas palavras do francês, o fechamento perfeito de uma trajetória sem precedentes.

A Copa do Mundo 2026 começa oficialmente em 11 de junho, com a fase de grupos distribuída entre Estados Unidos, México e Canadá. A Argentina, que defende o título conquistado no Qatar em 2022, estreia no dia 14 de junho. Portugal entra em campo no dia 18 de junho. Até lá, saberemos se o modelo Nico Paz — empréstimo, maturação, protagonismo — foi o caminho que o Real Madrid escolheu para Mastantuono, ou se o jovem meia seguirá outro roteiro. Em 18 de junho, quando Cristiano pisar no gramado pela primeira vez nesta Copa, parte da resposta sobre o legado português também começará a ser escrita.