Três dados: 1h40 de paralisação, 16 quilômetros de distância e zero milímetros de chuva. É assim que o protocolo climático da FIFA funcionou no Mundial de Clubes — e é exatamente assim que pode funcionar nos jogos do Brasil na Copa do Mundo.

O protocolo que nenhum brasileiro conhecia até semana passada

A paralisação do jogo entre Pachuca e Red Bull Salzburg por 1h40 em Cincinnati foi o primeiro encontro real do torcedor brasileiro com as regras climáticas do futebol americano. A partida foi interrompida não por chuva forte, não por alagamento no gramado — mas por um alerta de tempestade emitido pelo Serviço Nacional de Meteorologia dos Estados Unidos (NWS). Um dia antes, em Orlando, o duelo entre Mamelodi Sundowns e Ulsan já tinha começado com quase uma hora de atraso pelo mesmo motivo.

O critério central do protocolo é simples e implacável: se um trovão for ouvido, a tempestade está a até 16 quilômetros do estádio — distância classificada como de alto risco para raios. A retomada só acontece 30 minutos após o último trovão registrado. Tecnologia de detecção de raios, aspecto visual do céu e dados da Rádio NOAA também entram na equação.

"Não há lugar seguro ao ar livre quando há uma tempestade na área", diz o manual do NWS, que orienta a suspensão imediata de atividades diante de qualquer risco iminente de tempestade elétrica.

Tem mais: segundo o mesmo documento, "se o céu parecer ameaçador, as atividades devem ser interrompidas, pois tempestades podem se desenvolver diretamente sobre o estádio". Ou seja, o céu fechado já é argumento suficiente para parar um jogo.

Nova Jersey no verão e o histórico de tempestades que a FIFA já sabe de cor

O Brasil jogará sua fase de grupos no MetLife Stadium, em East Rutherford, Nova Jersey — região que registra picos de tempestades elétricas entre junho e agosto, exatamente o período da Copa. O estado de Nova Jersey está entre os mais afetados por tempestades convectivas de verão no leste dos EUA, com células de chuva que se formam rapidamente no final da tarde e à noite.

A boa notícia é que os jogos do Brasil na fase de grupos foram marcados para o período noturno — dois deles às 19h no horário de Brasília (18h em Nova York) e um às 21h30. Isso reduz a exposição ao calor extremo, que chegou a 38°C durante o Mundial de Clubes. Palmeiras, Flamengo, Botafogo e Fluminense sentiram esse peso durante os 90 minutos das partidas em junho de 2025. A Seleção escapa do pior do calor, mas não necessariamente das tempestades — que, no nordeste americano, são mais frequentes justamente à noite.

"Autoridades responsáveis por atividades esportivas ao ar livre precisam entender o que são tempestades e raios para tomar decisões conscientes sobre quando buscar segurança", alerta o texto do NWS que embasa o protocolo da FIFA.

O que muda taticamente quando um jogo para por quase duas horas

Aqui entra o aspecto que menos se discute: o impacto tático de uma paralisação longa. Pense em termos de PPDA (passes permitidos por ação defensiva) — uma métrica que mede a intensidade da pressão de uma equipe. Times que jogam com pressão alta, como o Brasil sob Seleção Brasileira costuma propor, dependem de ritmo físico e mental para manter o PPDA baixo, ou seja, pressão eficiente. Uma pausa de 1h40 no meio do jogo destrói esse ritmo.

O mesmo vale para progressive passes — passes que avançam ao menos 10 metros em direção ao gol adversário. Times que constroem jogo pelo chão perdem sincronismo com longas interrupções. No Mundial de Clubes, o jogo do Palmeiras contra o Al-Ahly também foi interrompido, e a equipe de Abel Ferreira precisou religar o motor depois de parada por condições climáticas.

Quem sai na frente na hora da paralisação leva vantagem? Depende. Times mais físicos tendem a se recuperar melhor do que equipes que dependem de xG (expected goals) construídos por triangulações rápidas e movimentação off-ball. Se o Brasil estiver criando bem — com xG acumulado alto — e o jogo parar, o adversário ganha tempo para reorganizar a linha defensiva e zerar o contexto tático construído.

O protocolo que nenhum brasileiro conhecia até semana passada Por que uma tempes
O protocolo que nenhum brasileiro conhecia até semana passada Por que uma tempes

Como se preparar para algo que o futebol brasileiro nunca viveu

Quem não tem cão caça com gato — e a comissão técnica da Seleção vai precisar adaptar protocolos que simplesmente não existem no futebol brasileiro. Jogos no Brasil são paralisados apenas quando o gramado fica impraticável. A ideia de evacuar 80 mil pessoas de um estádio porque um trovão foi ouvido a 16 km é, literalmente, outro esporte para o torcedor nacional.

A preparação passa por simulações de retomada de jogo, gestão do aquecimento físico durante a espera e estratégia de substituições. Comissões técnicas europeias já viveram essa experiência em torneios nos EUA. Para o Brasil, o Mundial de Clubes foi um laboratório — mas a Seleção não estava lá para aprender essa lição na prática.

Conforme registrado pelo SportNavo ao longo da cobertura do Mundial de Clubes, as paralisações climáticas pegaram todos de surpresa — times, torcedores e até transmissoras. Na Copa, com 104 partidas e 48 seleções, o protocolo vai ser acionado mais de uma vez. A pergunta é se o Brasil vai estar pronto quando o trovão soar a 16 quilômetros do MetLife. O primeiro jogo da Seleção no torneio está marcado para 15 de junho — faltam 4 dias.