Dez anos. Esse era o tempo que a Ponte Preta esperava para voltar a vencer o América-MG — jejum iniciado em 2016, quando um certo Roger Silva marcava gols com a camisa da Macaca em Belo Horizonte. Na noite desta sexta-feira (24), no Moisés Lucarelli, quem quebrou essa maldição foi justamente o centroavante que naquele mesmo jogo estava no banco de reservas: William Pottker. O gol, de cabeça aos 44 minutos do primeiro tempo, valeu mais do que três pontos — colocou a Ponte Preta fora do Z4 e transformou um jogador que havia sido relegado ao banco em protagonista da campanha campineira na Série B.
O reserva que a Ponte precisava enxergar
O argumento favorável ao ceticismo em relação a Pottker era simples: ele havia ficado fora do time titular nas rodadas anteriores, com participação limitada às entradas no segundo tempo. Para um centroavante de 32 anos com passagens por Paraná, Internacional e Athletico-PR, a posição de reserva poderia soar como sentença de fim de ciclo. Mas os números contam outra história. Com dois gols em seis rodadas — sendo o único jogador da Ponte Preta a marcar mais de uma vez na Série B — Pottker se torna o artilheiro isolado do clube na competição. Para um jogador que mal aparecia no time titular, isso representa uma eficiência que técnicos costumam ignorar até precisar dela.

O gol desta sexta seguiu o roteiro clássico do centroavante oportunista. Luis Phelipe puxou contra-ataque pela esquerda, ganhou espaço e cruzou na medida para a entrada da pequena área. Pottker apareceu livre, se jogou de cabeça e estufou as redes, punindo o América-MG que havia sido muito superior em criação durante os 43 minutos anteriores. Roger Silva, curiosamente o técnico adversário e ex-jogador da própria Ponte, viu sua equipe levar o gol no único momento em que a Macaca construiu uma jogada limpa no primeiro tempo.
Uma vitória construída na muralha de Diogo Silva
Seria desonesto creditar a vitória apenas a Pottker. O goleiro Diogo Silva foi o verdadeiro alicerce do resultado. Nos 10 e 12 minutos do primeiro tempo, o arqueiro fez duas defesas espetaculares em finalizações de Thauan e Nathan, impedindo que o América-MG abrisse o placar. No segundo tempo, com o Coelho lançado ao ataque, Diogo voltou a aparecer aos 28 e 34 minutos, parando cabeçadas de Felipe Amaral e Nathan. O artilheiro Mastriani, principal ameaça visitante, foi completamente neutralizado e acabou substituído sem marcar. A avaliação do SportNavo sobre este jogo é direta: sem Diogo Silva, a conversa sobre Pottker simplesmente não existiria.
"Roger elogiou a postura do time em campo e disse estar otimista para o time deixar a zona de rebaixamento", segundo relato do O Tempo após a estreia do treinador no empate por 0 a 0 com o Sport — otimismo que nesta sexta virou pó diante da muralha pontepretana.
O segundo tempo ainda reservou tensão adicional. Logo aos 10 minutos, uma confusão entre Segovinha e Kevyson resultou em cartões amarelos para ambos. O América-MG tentou a bola aérea como recurso desesperado, mas encontrou um bloqueio bem organizado e Diogo Silva atento. Nos minutos finais, Paulinho desperdiçou cobrança de falta em posição favorável, e o placar não se alterou.

O que os dados dizem sobre o América-MG
Há quem defenda que o América-MG merecia ao menos o empate dado o domínio territorial apresentado. O argumento tem alguma sustentação na posse de bola, mas é derrubado pela estatística mais cruel do futebol: o Coelho soma apenas dois pontos em seis rodadas, com quatro derrotas, e permanece na lanterna da Série B. O início de temporada mineiro é descrito pelo O Tempo como o segundo pior neste século para o clube. Mais revelador ainda: a última derrota do América para a Ponte na Série B havia sido em setembro de 2010, por 3 a 1, na Arena do Jacaré — um tabu de quase 16 anos que Pottker enterrou de cabeça.
"A Ponte Preta não vence o América-MG há dez anos", havia alertado o ge antes da partida, referindo-se ao histórico geral entre os clubes — o que tornava o resultado desta sexta ainda mais significativo do ponto de vista histórico.
O impacto real na tabela e o caminho à frente
Com o 1 a 0 confirmado, a Ponte Preta chegou a sete pontos e subiu para a 13ª colocação, a apenas um ponto do Avaí, que na sexta ocupava o sexto lugar. O triunfo representa também a primeira sequência de duas vitórias consecutivas da Macaca em 2026 — feito que a análise do SportNavo identificou como dado concreto de virada de chave psicológica para um grupo que havia vencido apenas dois jogos em 15 partidas disputadas no ano. Pottker, de reserva a artilheiro da equipe na Série B, é o símbolo mais visível dessa reação. O próximo teste vem já em 3 de maio, quando a Ponte enfrenta o São Bernardo fora de casa, às 16h, em jogo que dirá se essa sequência é transformação real ou apenas acidente de percurso.

