"Nós vemos isso como uma provocação, como se fosse para dizer: 'olhem como está ruim a situação no México'". A frase foi dita pela presidente Claudia Sheinbaum em sua coletiva desta terça-feira, 9 de junho — exatamente 48 horas antes de o Estádio Azteca receber o jogo inaugural da Copa do Mundo de 2026, entre México e África do Sul. A quem ela respondia? A milhares de professores que, horas antes, haviam bloqueado a principal avenida de acesso ao estádio mais alto do mundo em termos de altitude, a 2.200 metros acima do nível do mar, na Cidade do México.

O que a CNTE quer e por que o momento importa

O grupo responsável pelo bloqueio é uma dissidência da Coordinadora Nacional de Trabajadores de la Educación, a CNTE, o maior sindicato de professores do México. Desde a semana passada, a organização vem realizando ações de desobediência civil na capital: além de paralisar vias de tráfego intenso, chegou a derrubar estátuas alusivas à Copa no Paseo de la Reforma — um dos eixos turísticos e simbólicos mais importantes da Cidade do México — e instalou um acampamento a poucas quadras do Zócalo, a praça central onde ficará a principal fan fest do torneio. As demandas são objetivas: aumento salarial e a revogação de uma lei de pensões que o governo considera fiscalmente inviável. Sheinbaum afirma que as condições dos professores já foram melhoradas e insiste no diálogo, mas a CNTE convocou novas manifestações para a própria quinta-feira, dia da abertura.

Reparemos no detalhe: não é qualquer quinta-feira. Familiares de pessoas desaparecidas também anunciaram presença nas ruas nesse dia, compondo um cenário de mobilização simultânea em torno do evento mais assistido do planeta. Segundo levantamentos citados em reportagem publicada pelo SportNavo, a abertura de uma Copa do Mundo equivale, em audiência global, a um volume que nenhum outro evento esportivo isolado consegue replicar. Ter esse pano de fundo de tensão social é, no mínimo, uma variável incômoda para os organizadores.

A lógica política por trás das barricadas no Azteca

Há uma dimensão estratégica nos protestos que vai além da pauta salarial. A CNTE escolheu a semana da Copa porque sabe que as câmeras do mundo inteiro estão voltadas para a Cidade do México. O bloqueio de uma avenida de acesso ao Copa do Mundo 2026 não é apenas um obstáculo logístico — é uma mensagem transmitida em tempo real para repórteres de dezenas de países. Sheinbaum parece consciente disso. "Querem fazer parecer que no México temos uma ebulição social muito grande, e isso não é verdade", declarou, reiterando que descarta o uso da polícia para reprimir os manifestantes. A opção pelo diálogo em vez da força é politicamente calculada: qualquer imagem de repressão violenta em véspera de Copa seria um desastre de imagem multiplicado pela cobertura global.

O México chega a 2026 realizando sua terceira Copa do Mundo — depois de 1970 e 1986, ambas também no Azteca — desta vez em formato compartilhado com Estados Unidos e Canadá, num torneio que se estende de 11 de junho a 19 de julho. A abertura no Azteca tem um peso simbólico desproporcional: é o estádio onde Diego Maradona marcou o "Gol do Século" em 22 de junho de 1986, onde a altitude já foi personagem de partidas históricas. Colocar barricadas nessa avenida é mexer num símbolo.

A segurança da abertura e o silêncio da FIFA

A presidente mexicana foi categórica:

"Não há problema, a abertura vai acontecer e não vamos cair em nenhuma provocação. A Copa será aproveitada da mesma forma"
. Sheinbaum, no entanto, confirmou que não estará presente na cerimônia inaugural no Azteca e colocou em dúvida sua participação na fan fest do Zócalo — onde o acampamento da CNTE fica a poucas quadras. A ausência da chefe de Estado numa abertura de Copa que seu próprio país co-organiza é um dado político que não passa despercebido.

A Copa do Mundo de 2026 é a primeira com 48 seleções — ampliação decidida pela FIFA em 2017 — e o México enfrenta a África do Sul justamente no jogo de abertura, um adversário que não vence em competições oficiais há cinco partidas. O árbitro designado para a partida é o brasileiro Wilton Sampaio, o que adiciona um dado concreto ao contexto de expectativa em torno da cerimônia inaugural.

Qual o risco real para o torneio

A avaliação mais honesta é que os protestos, até o momento, representam um risco de imagem superior ao risco operacional. O bloqueio desta terça-feira gerou caos de trânsito, mas o jogo de abertura só ocorre em 48 horas, tempo suficiente para o governo redirecionar o acesso de delegações, torcedores e equipes de transmissão. O cenário mais preocupante seria uma escalada na quinta-feira, com manifestações simultâneas de professores e familiares de desaparecidos nos arredores do Azteca no momento exato da abertura — algo que as autoridades mexicanas dizem monitorar, mas que ainda não têm como garantir que não ocorrerá.

O que o México vive hoje guarda ecos de outras edições do torneio marcadas por turbulência política externa à bola. Em 1978, a Argentina realizou sua Copa sob uma ditadura militar, com protestos internacionais e cobertura jornalística dividida entre o campo e a rua. Em 2014, o Brasil enfrentou greves e manifestações nas semanas que antecederam o torneio, com ônibus incendiados em São Paulo e barricadas em capitais. A abertura aconteceu. Os jogos aconteceram. Mas as imagens das ruas ficaram. É o mesmo cenário que o Brasil viveu em junho de 2014 — só que agora a aposta é diferente, porque o mundo olha para um país que recebe uma Copa pela terceira vez e que, desta vez, precisa provar que a festa não ficou grande demais para o anfitrião.