A sugestão do enviado especial americano Paolo Zampolli de substituir o Irã pela Itália na Copa do Mundo de 2026 representa mais que uma tentativa diplomática isolada. Trata-se de um teste direto à autonomia do sistema esportivo internacional, que historicamente busca manter-se distante de interferências políticas governamentais. A proposta, direcionada tanto ao presidente Donald Trump quanto ao dirigente da FIFA Gianni Infantino, revela como megaeventos esportivos se tornaram arenas privilegiadas para disputas geopolíticas.

"Confirmo que sugeri a Trump e ao (presidente da FIFA, Gianni) Infantino que a Itália substitua o Irã na Copa do Mundo. Sou italiano e seria um sonho ver a Azzurra em um torneio sediado nos EUA. Com quatro títulos, eles têm o pedigree para justificar a inclusão", declarou Zampolli ao Financial Times.

Regulamento FIFA impede alterações arbitrárias

O sistema de qualificação da FIFA estabelece critérios técnicos rigorosos que inviabilizam substituições baseadas em preferências políticas. O Irã garantiu sua vaga através das eliminatórias asiáticas, terminando em primeiro lugar no Grupo A com 19 pontos em oito jogos. A Itália, por sua vez, foi eliminada nas semifinais da repescagem europeia pela Macedônia do Norte, em março de 2022, resultado que custou cerca de 300 milhões de euros em receitas televisivas perdidas.

Segundo análise do SportNavo, a FIFA historicamente resistiu a pressões políticas similares. Em 1978, a Argentina permaneceu como sede da Copa mesmo durante a ditadura militar. Na Copa de 2018, a Rússia manteve-se como anfitriã apesar das sanções internacionais por questões geopolíticas. O estatuto da entidade, reformulado em 2016, proíbe explicitamente interferências governamentais nas decisões esportivas.

Regulamento FIFA impede alterações arbitrárias Proposta de Trump para trocar Irã
Regulamento FIFA impede alterações arbitrárias Proposta de Trump para trocar Irã

Precedente perigoso para autonomia esportiva

A aceitação de tal proposta criaria um precedente que fragmentaria o sistema global de competições. Se países-sede pudessem alterar participantes com base em critérios políticos, o princípio meritocrático das eliminatórias perderia credibilidade. China, Rússia, Arábia Saudita e outros mercados estratégicos poderiam reivindicar mudanças similares em torneios futuros, transformando competições esportivas em instrumentos de soft power.

Precedente perigoso para autonomia esportiva Proposta de Trump para trocar Irã p
Precedente perigoso para autonomia esportiva Proposta de Trump para trocar Irã p

A questão ganha relevância econômica considerável. A Copa de 2026, primeira com 48 seleções, projeta receitas de 11 bilhões de dólares para a FIFA. A participação italiana aumentaria significativamente a audiência na Europa - mercado que representa 40% das receitas televisivas globais da entidade. Porém, ceder a pressões políticas comprometeria a integridade institucional que sustenta o valor comercial das competições FIFA.

Diplomacia esportiva em território americano

A realização da Copa nos Estados Unidos, México e Canadá adiciona complexidade política ao torneio. Diferentemente de edições anteriores, o país-sede principal possui histórico de utilizar eventos esportivos como plataforma diplomática. Durante os Jogos Olímpicos de Los Angeles 1984, boicotes políticos reduziram significativamente a participação internacional.

O perfil de Zampolli - empresário ítalo-americano com conexões em ambos os países - ilustra como interesses econômicos e políticos se entrelaçam no esporte moderno. Sua sugestão reflete pressões de grupos de interesse que enxergam na Copa uma oportunidade de influenciar relações bilaterais através do futebol.

A FIFA dificilmente acatará a proposta, considerando os riscos jurídicos e institucionais envolvidos. O próximo Congresso da entidade, marcado para maio de 2025 em Bangkok, definirá diretrizes mais claras sobre interferências políticas em competições. Até lá, o Irã mantém sua classificação garantida para estrear contra os Estados Unidos em 11 de junho de 2026, no MetLife Stadium.