Quantos torcedores a Copa do Mundo de 2026 vai efetivamente receber se o país-sede continua negando vistos a nações inteiras? A pergunta não é retórica no sentido vazio do termo — ela tem um número crescente de respostas concretas, e nenhuma delas é animadora.
Abdulla Adnan comprou ingressos para os jogos do Iraque contra Noruega e França — em Boston e Filadélfia, respectivamente — logo após sua seleção garantir a vaga histórica em março de 2026, apenas a segunda participação do país em toda a história da competição. O custo dos bilhetes e da viagem à Jordânia, para onde se deslocou em busca de uma entrevista consular, chegou a US$ 1.800 (cerca de R$ 9.400). Quando chegou à embaixada americana em Amã, foi informado de que, por não ser cidadão jordaniano, aquela representação não poderia processar seu pedido. Desistiu.

O caso de Adnan não é isolado. Uma análise de dados de viagens conduzida pela BBC identificou que torcedores de mais de um quarto dos 48 países participantes do Mundial enfrentam proibições de viagem, restrições mais rígidas ou altas taxas de rejeição de vistos para os Estados Unidos. O governo Trump suspendeu os serviços consulares de rotina no Iraque após o início do conflito entre EUA, Israel e Irã, eliminando qualquer ponto de atendimento dentro do próprio país. Não há tragédia: há contabilidade. O resultado é que um torcedor que quer ver sua seleção numa Copa do Mundo precisa, antes, resolver um labirinto diplomático que nenhum outro país-sede jamais impôs.
O árbitro somali que a Copa perdeu antes da apitar
Se o caso dos torcedores iraquianos ilustra a dimensão humana do problema, o episódio envolvendo Omar Abdulkadir Artan revela o impacto institucional. Considerado um dos melhores árbitros do mundo em atividade, o somali teve a entrada negada pelo governo norte-americano e não poderá apitar nenhuma partida do Mundial. O sonho de trabalhar numa Copa do Mundo — objetivo de carreira de qualquer árbitro — foi destruído por uma decisão administrativa que a FIFA sequer contestou com firmeza.
A resposta do presidente da entidade, Gianni Infantino, numa entrevista coletiva na véspera da abertura, foi monossilábica em substância:
"Relaxem."A frase resume com precisão desconcertante a postura da FIFA diante de uma série de violações à isonomia esportiva que, em qualquer outra edição do torneio, teria gerado crise institucional. Artan não é o único caso emblemático: Aymen Hussein, principal estrela da seleção iraquiana, foi submetido a sete horas de interrogatório ao desembarcar em Chicago. A base da seleção do Irã, país sob proibição formal de visto de visitante, está instalada no México, e os jogadores precisam cruzar a fronteira de avião para cada partida da fase de grupos.
Quatro seleções com cidadãos proibidos de entrar nos EUA
A lista do governo Trump com restrições e proibições de visto atinge diretamente quatro países participantes do torneio: Haiti, Irã, Senegal e Costa do Marfim. Os cidadãos dessas nações estão impedidos de obter o tipo de visto de visitante que as próprias autoridades americanas recomendam para torcedores. No caso da Costa do Marfim, relatos indicam que cerca de 500 torcedores foram barrados antes mesmo de embarcar. Para o Senegal, um dos favoritos do torneio com Sadio Mané ainda influente na cultura do futebol local, a proibição significa que a maioria de seus torcedores naturais simplesmente não estará presente.
O contraste com edições anteriores é factual. Na Rússia em 2018, Vladimir Putin aboliu a exigência de visto para qualquer pessoa portadora de ingresso — uma decisão que, independentemente das críticas ao regime, garantiu acesso universal ao torneio. No Qatar em 2022, as polêmicas giraram em torno de direitos trabalhistas e restrições culturais, mas nenhum país foi formalmente impedido de enviar seus torcedores. Em 2026, pela primeira vez na história moderna do torneio, a política de imigração do país-sede criou uma hierarquia de cidadãos: há quem possa comprar ingresso e há quem não possa entrar.
O que a FIFA ainda pode fazer antes das oitavas de final
A entidade sediada em Zurique tem um histórico bem documentado de impor seu livro de regras a países-sede em questões que vão da legislação trabalhista ao direito de venda de cerveja dentro dos estádios. No Brasil em 2014, o Congresso Nacional aprovou a chamada "Lei Geral da Copa" para adequar a legislação local às exigências da FIFA. No Qatar, a entidade negociou condições específicas para a entrada de torcedores LGBTQ+. A pergunta que os dados de vistos tornam inevitável é: por que a mesma pressão institucional não foi aplicada ao governo Trump?
"Ir a um jogo, a um estádio, a uma multidão, torcer e ver meu time, isso é tudo para mim. É um sentimento incomparável"
A frase é de Abdulla Adnan, o torcedor iraquiano que gastou R$ 9.400 para não conseguir um visto. Ele não verá o Iraque jogar sua segunda Copa do Mundo da história. Os ingressos que comprou continuam válidos — para quem puder entrar no país.
A fase de grupos do torneio termina em 2 de julho, e as oitavas de final começam em 5 de julho. Se a FIFA não obtiver do governo americano alguma forma de facilitação consular emergencial para os países afetados — especialmente Iraque, Senegal e Costa do Marfim —, a segunda fase do torneio será disputada com arquibancadas geograficamente seletivas. Se Senegal ou Costa do Marfim avançarem às oitavas, a FIFA aceitará que suas torcidas estejam fisicamente ausentes dos estádios, ou finalmente usará o único instrumento que tem: ameaçar a credibilidade do torneio que ela mesma organizou?








