"Não quero engessar o talento dos meus atacantes com esquemas rígidos demais." A frase é de Carlo Ancelotti, repetida em diferentes coletivas ao longo deste ciclo preparatório para a Copa do Mundo de 2026. Soa razoável vinda de um treinador que dirigiu Ronaldinho, Kaká, Cristiano Ronaldo e Benzema ao longo de quatro décadas de carreira. O problema é que a liberdade irrestrita, quando mal dosada, pode resultar exatamente no que se viu contra Marrocos: Raphinha praticamente invisível por 60 minutos, enquanto o lado esquerdo do ataque sustentava sozinho a criatividade brasileira.
O que o empate contra Marrocos revelou sobre Raphinha
No empate com Marrocos — resultado que, em termos históricos, coloca o Brasil numa situação desconfortável já na fase de grupos, algo que a geração de 1994 jamais enfrentou nas primeiras rodadas —, Ancelotti iniciou a partida com Raphinha centralizado e Lucas Paquetá pela ponta direita. A inversão de funções gerou um desequilíbrio imediato: Paquetá, que no Flamengo opera como meia e por vezes como segundo volante, não oferece profundidade pela faixa. A troca de posições com Raphinha no segundo tempo trouxe algum alívio, mas não resolveu a raiz do problema.
O mapa de calor da partida, registrado pela plataforma 365scores e reproduzido por veículos especializados, mostrou Raphinha com raríssimas aproximações pela ponta direita durante o primeiro tempo. Quando Marrocos abriu o placar, as posições se alternaram — mas o atacante do Barcelona ainda assim não conseguiu ser criativo. O adversário marroquino, com Achraf Hakimi cobrindo o lado esquerdo, já havia antecipado a ameaça de Vinicius Júnior e reforçado aquele corredor com apoio duplo. A solução de Ancelotti, no entanto, não encontrou resposta equivalente pelo flanco oposto.

Para quem acompanha a história da Seleção desde a Copa de 1982, quando Sócrates, Zico e Falcão formavam um dos meios-campos mais técnicos já vistos numa Copa, o paradoxo é evidente: o Brasil de 2026 tem dois dos melhores pontas do mundo em atividade, mas a estrutura ao redor de um deles — Raphinha — parece construída para deixá-lo sem suporte lateral.
Por que Vini Jr brilha enquanto Raphinha fica sem apoio
Vinicius Júnior foi, objetivamente, o principal destaque individual do Brasil contra Marrocos. Mesmo sendo bem marcado por Hakimi — lateral-direito do PSG, um dos melhores do mundo na função —, o atacante do Real Madrid contou com movimentações de Douglas Santos e Bruno Guimarães para criar triangulações no primeiro tempo. Foi exatamente dessa dinâmica que nasceu o gol do empate, pouco após a parada para hidratação.
O contraste com o lado direito é brutal. Raphinha, pelo flanco, encontrou pela frente Ibañez improvisado na lateral — tecnicamente um zagueiro de origem — mas sequer pôde explorar essa vantagem numérica porque seus companheiros de meio-campo centralizavam as jogadas para o lado de Vini. Com Paquetá no quarteto ofensivo, Ancelotti, na prática, perdeu um homem com vocação de profundidade pela direita. A decisão resolve um problema criativo no centro, mas cria um vácuo na faixa que Raphinha deveria dominar.
"Ancelotti disse em diversas oportunidades que não quer atrapalhar o talento do ataque da seleção brasileira. Por isso, não dá tanto enfoque em formações ofensivas nos treinamentos — a prioridade da comissão técnica são as jogadas defensivas", conforme registrado por SportNavo e confirmado por fontes que acompanham o dia a dia da Seleção.
O 4-4-2 montado pelo italiano tem lógica defensiva clara — e os números de solidez na fase classificatória sustentam a escolha. Mas o mesmo sistema, sem ajustes ofensivos para o lado direito, deixa Raphinha numa espécie de ilha tática. Nas Copas em que o Brasil foi campeão — 1958, 1962, 1970, 1994 e 2002 — nenhum atacante titular ficou sistematicamente isolado no setor de criação. Garrincha tinha Nilton Santos. Ronaldo tinha Roberto Carlos. A assimetria atual é histórica no sentido mais preocupante do termo.
Que ajustes Ancelotti pode fazer antes da fase eliminatória
As opções táticas disponíveis ao treinador italiano não são poucas, mas exigem escolhas que contrariam sua filosofia declarada de não engessar o ataque. Algumas possibilidades concretas merecem análise:
- Reposicionar Raphinha fixo pela direita com lateral de apoio mais ofensivo, liberando Douglas Santos ou seu substituto para sobreposições frequentes — modelo que funcionou para Vini no lado oposto.
- Substituir Paquetá por um extremo com perfil de velocidade — Luiz Henrique ou Savinho — que ofereça profundidade real pelo corredor direito, liberando Raphinha para atuar mais próximo da área.
- Adotar um 4-3-3 com Raphinha na ponta direita e um meia de construção no meio, retirando a sobreposição de funções que hoje prejudica o atacante do Barcelona.
O histórico de Raphinha justifica o investimento tático
Raphinha encerrou a temporada 2025/2026 pelo Barcelona como um dos pontas mais produtivos da La Liga, com números expressivos tanto em gols quanto em assistências. Ignorar esse potencial por ausência de estrutura ao redor é um desperdício que a Copa não perdoa — como a geração de Romário aprendeu em 1990, quando o centroavante foi mal aproveitado e o Brasil caiu para a Argentina nas oitavas de final, em Turim, por 1 a 0.
O Brasil volta a campo pela fase de grupos com a obrigação de vencer para se classificar com conforto. Se Ancelotti mantiver o sistema sem ajustes, Raphinha provavelmente repetirá a performance apagada de Marrocos — e a Seleção chegará às oitavas dependendo de Vinicius Júnior como único criador consistente, uma fragilidade que qualquer treinador de elite saberá explorar.
"Não quero engessar o talento dos meus atacantes com esquemas rígidos demais" — a frase que abriu esta análise só fará sentido quando o talento de Raphinha, enfim, tiver o espaço para aparecer.








