Diz-se que a Seleção Brasileira chega à Copa do Mundo de 2026 sem uma liderança clara entre os jogadores de linha. Os números, porém, contam outra história — e ela tem nome e sobrenome. Raphinha, 29 anos, 43 convocações, 11 gols em 39 jogos pela amarelinha, apresentou-se nesta quarta-feira (10) na coletiva de imprensa em Basking Ridge, Nova Jersey, não apenas como atacante do Barcelona, mas como o condutor do ambiente interno de um grupo que estreia contra Marrocos no próximo sábado, 13 de junho, no MetLife Stadium, em East Rutherford.

O silêncio calculado de Raphinha diante do ruído externo

Raphael Dias Belloli não assiste televisão. Não acompanha portais de notícia. Tem uma equipe que administra suas redes sociais no lugar dele. A decisão não é capricho — é estratégia deliberada de quem aprendeu a custo o que o excesso de informação pode fazer com um atleta às vésperas de uma grande competição.

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"Eu acompanho zero do que sai de notícias. Tenho um pessoal que cuida das redes sociais. Não assisto à televisão. Mas não podemos ser hipócritas. Sabemos que os jovens são muito ligados em redes sociais. Não tem como fugir, porque acaba que a notícia cai no colo deles", disse o atacante.

A comparação histórica que essa postura evoca é precisa. Em julho de 1994, Romário chegou aos Estados Unidos depois de uma temporada turbulenta no Barcelona — críticas da imprensa espanhola, desgaste com Johan Cruyff — e adotou exatamente esse isolamento informacional. Não por acaso, marcou cinco gols no torneio e foi eleito o melhor jogador do Mundial. A blindagem mental não é fraqueza; é requisito técnico de alto rendimento.

A geração mais nova e o peso que Raphinha quer tirar dos ombros deles

O vestiário brasileiro de 2026 carrega nomes com menos de 23 anos que chegam à sua primeira Copa. Para esses jogadores, o bombardeio de expectativas nas redes sociais — e a velocidade com que uma atuação abaixo do esperado se transforma em linchamento público — representa um risco real de rendimento.

"A galera mais antiga, experiente, tenta fazer com que eles usem menos redes sociais. Até mesmo para não criar expectativa ou se frustrar pelo que é dito. Tentamos blindar o que vem de fora", acrescentou Raphinha.

Esse papel de para-raio do grupo não é novo no futebol brasileiro, mas raramente é assumido com tanta clareza antes de uma bola ser chutada. Em 2002, Cafu e Ronaldo cumpriam função semelhante de forma tácita. Em 2006, a ausência desse eixo de proteção interna contribuiu para um vestiário fragmentado em Berlim — a Seleção caiu nas quartas para a França de Zidane por 1 a 0, eliminada em parte pelo peso que jogadores jovens como Kaká e Robinho carregaram sem suporte emocional suficiente do grupo.

Raphinha reconhece a desconfiança de parte da torcida, fruto de 24 anos sem um título mundial — o último foi em Yokohama, em 30 de junho de 2002, com Ronaldo marcando duas vezes na final contra a Alemanha. Mas o atacante lê essa frieza como autodefesa do torcedor, não como abandono.

"Foram tantos anos se frustrando, porque tivemos seleções que podiam ganhar e não ganharam. E as pessoas não querem se frustrar novamente. Mas no fundo, todos estão torcendo pela seleção e isso vai ser muito importante para nós."

Raphinha mais maduro, Ancelotti de 67 anos e o Brasil pronto para sábado

O atacante foi direto ao reconhecer que sua primeira Copa, no Catar em 2022, foi marcada por imaturidade. Chegou ao torneio ainda em processo de adaptação ao Barcelona e à Seleção, sem entender completamente o que significava vestir a camisa 11 do Brasil em campo. Saiu sem ser titular em nenhuma partida e sem protagonismo nas eliminatórias do torneio. Três anos e meio depois, o cenário é radicalmente diferente.

"A pressão vai existir sim. A partir do momento que veste a camisa da Seleção, a pressão vem junto. Se não estiver preparado para a pressão, não pode estar disputando um torneio desse tamanho", afirmou. O próprio atacante admitiu que seu rendimento no Barcelona supera o que entregou pelo Brasil até aqui — mas usou isso não como desculpa, e sim como evidência de capacidade: se faz pelo clube, pode fazer pela Seleção.

O ambiente no treino desta quarta reforçou a coesão do grupo. Carlo Ancelotti completou 67 anos e recebeu um corredor polonês dos jogadores durante a atividade, com a CBF publicando homenagem nas redes sociais ao técnico italiano que tenta conduzir o Brasil ao seu sexto título mundial. Matheus Cunha e Léo Pereira, que posaram para as fotos oficiais da Fifa nesta semana, também estiveram no treino. Neymar, ainda em recuperação de lesão na panturrilha direita, foi ao gramado apenas para fotos e atendimento a convidados — não deve jogar no sábado, mas a previsão é de que retorne ao grupo em breve.

Uma receita só funciona quando quem a prepara conhece cada ingrediente pelo que ele é — não pelo que se espera que seja. Raphinha parece ter entendido isso: o trabalho de um líder começa muito antes do apito inicial, nos corredores do hotel, no silêncio escolhido no lugar do barulho das redes, na conversa discreta com o jovem que está com o celular na mão às 23h lendo comentários que não acrescentam nada. O Brasil entra em campo no sábado, 13 de junho, às 19h (horário de Brasília), com essa receita sendo testada pela primeira vez.