Confesso: eu errei sobre Raphinha em 2022. Quando o vejo hoje, às vésperas de uma Copa do Mundo em casa americana, percebo que subestimei o peso de uma ausência — não de talento, mas de narrativa. Um jogador que saiu do Brasil jovem demais para construir memória afetiva com o torcedor, e que voltou como referência técnica sem ter, em nenhum momento, entregado o gol que faz o povo gritar o nome.

O número que mais pesa na relação de Raphinha com o torcedor brasileiro

Raphinha disputou todos os jogos do Brasil na Copa do Mundo de 2022, no Catar, e terminou o torneio com zero gols marcados. Em um ataque que contou com Neymar, Richarlison e Vinicius Júnior, o camisa 11 passou pelo torneio sem deixar a marca mais elementar que um atacante pode oferecer ao torcedor. Richarlison foi ovacionado pelo hat-trick contra Sérvia. Neymar marcou contra a Coreia do Sul. Raphinha ficou sem o gol que ancora o afeto popular.

Valencia - Barcelona

A comparação com os colegas de seleção é inevitável e, numericamente, desfavorável. Vinicius Júnior acumula prestígio construído nas finais da Champions League pelo Real Madrid — troféus que o torcedor brasileiro acompanha e que criam pertencimento mesmo à distância. Lucas Paquetá tem a história do acesso pelo Flamengo e a identificação com o Rio de Janeiro. Luiz Henrique, revelado pelo Botafogo, carrega o DNA de um clube com base de torcida massiva. Matheus Cunha é o homem que marcou o gol do ouro olímpico em Tóquio-2020 — um momento que o Brasil inteiro viu, sentiu e guardou.

Raphinha não tem nenhum desses marcos na memória coletiva brasileira. E ele próprio reconhece isso com uma honestidade rara em coletivas de seleção.

"Para ser sincero, sinto que realmente é diferente o carinho do torcedor brasileiro em comparação com o pessoal de fora [Europa] que me acompanha diariamente. Acredito que, se tenho de me provar para alguém, é para mim, para meus pais, meus filhos e minha mulher", disse o atacante na coletiva desta quarta-feira (10), no hotel The Ridge, em Nova Jersey.

A declaração foi dada a menos de 72 horas da estreia do Brasil contra Marrocos, no MetLife Stadium, em Nova Jersey, marcada para as 19h de Brasília do sábado (13). O timing é revelador: Raphinha escolheu o momento de maior visibilidade para fazer a confissão que muitos torcedores já sabiam, mas que poucos esperavam ouvir do próprio jogador.

Por que a trajetória europeia de Raphinha criou um vácuo no Brasil

Natural de Porto Alegre, Raphinha foi formado pelo Avaí — clube catarinense que o revelou nas categorias de base — mas nunca chegou a disputar uma partida oficial pela equipe profissional. Saiu diretamente para o Vitória de Guimarães, de Portugal, antes de completar a transição para o futebol adulto brasileiro. Esse atalho, que do ponto de vista técnico foi inteligente, criou um problema de visibilidade no mercado interno.

A trajetória seguinte é de crescimento consistente: Sporting, Rennes, Leeds United e, finalmente, Barcelona. No clube catalão, Raphinha se consolidou como um dos melhores pontas da Europa, com números expressivos na temporada 2025/2026 da La Liga. O problema é que esse crescimento aconteceu longe das câmeras do Brasileirão, longe do SporTV às 19h, longe do torcedor que forma opinião assistindo a jogos no horário nobre da televisão aberta.

"Entendo que tem quem goste e quem não goste do meu futebol. Vai ter dias que não vou entregar, mas sempre busco dar o meu melhor. É algo natural. Saí muito jovem do Brasil", completou o atacante na mesma coletiva.

Essa ausência de passagem profissional pelo futebol brasileiro é o que, tecnicamente, diferencia Raphinha de praticamente todos os seus companheiros de seleção no que diz respeito à construção de torcida. Vinicius Júnior jogou pelo Flamengo. Rodrygo foi revelado pelo Santos. Endrick saiu do Palmeiras com status de fenômeno nacional antes de completar 18 anos. Raphinha pulou essa etapa — e o pulmão afetivo do torcedor não perdoa lacunas de memória.

O que Raphinha precisa fazer em campo para mudar esse quadro na Copa

A equação é simples, mas a execução é difícil: Raphinha precisa de um gol em momento decisivo. Não qualquer gol — um gol que o Brasil inteiro veja ao vivo, que vire meme positivo, que entre na lista dos momentos que os filhos vão pedir para os pais que expliquem daqui a dez anos. O Brasil joga contra Marrocos, Espanha e Japão na fase de grupos. Ao menos um desses jogos, provavelmente o confronto com a Espanha no dia 18, terá audiência televisiva suficiente para criar o tipo de momento que ancora reputações.

Há um paralelo histórico que funciona como referência. Ronaldo Fenômeno chegou à Copa de 1998 como o melhor jogador do mundo, mas foi desumanizado pela derrota na final. Em 2002, marcou oito gols — dois deles na decisão contra a Alemanha — e se tornou imortal para o torcedor brasileiro de uma forma que os títulos com o Inter de Milão e o Real Madrid jamais conseguiriam. O gol na Copa do Mundo tem peso específico diferente de qualquer outra competição.

Em matéria do SportNavo, já analisamos como a ausência de uma passagem marcante pelo futebol nacional prejudica a popularidade de jogadores tecnicamente superiores. Raphinha é o caso mais evidente da geração atual. Ele tem 31 anos, está no auge técnico documentado pelos números do Barcelona nesta temporada, e tem pela frente a Copa do Mundo em território americano — com transmissão ao vivo para milhões de brasileiros. A janela existe. A pergunta é se o atacante vai atravessá-la com o gol que falta ou se vai encerrar a Copa como em 2022, tecnicamente presente e afetivamente ausente.

O Brasil estreia contra Marrocos no sábado (13), às 19h de Brasília, no MetLife Stadium. Se Raphinha marcar nessa estreia, a conversa muda antes do fim do primeiro turno da fase de grupos.