Não é a intensidade dos treinos que define o estado mental de uma seleção em véspera de Copa do Mundo. Quem passou décadas cobrindo a Amarelinha sabe que o perigo mora no silêncio dos corredores de hotel, naquelas horas mortas entre o almoço e o jantar em que o pensamento começa a pesar mais do que qualquer marcação adversária. A concentração em Basking Ridge, Nova Jersey, a três dias da estreia do Brasil contra o Marrocos no MetLife Stadium, tem uma resposta para isso — e ela passa por uma mesa de pingue-pongue, um baralho de truco e um simulador de Fórmula 1.

O que a câmera não mostra nos 15 minutos de treino aberto

Raphinha, aos 29 anos e em sua segunda Copa do Mundo, foi quem abriu as cortinas dessa rotina em entrevista recente. O atacante do Barcelona descreveu com precisão o fluxo do dia: café da manhã, ativação individual ou coletiva, proteção física específica, treino — do qual a imprensa acompanha exatos 15 minutos sob o comando de Carlo Ancelotti — e depois o retorno ao hotel, onde cada jogador encontra seu próprio caminho para descomprimir.

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"Depois do treino, tem a galera que vai para a sauna, faz banheira fria ou tratamento. Quando voltamos para o hotel e terminamos o almoço, alguns vão direto para o videogame, outros para o truco. Temos até um simulador de F1 lá dentro. E também está rolando um campeonato de pingue-pongue", contou Raphinha.

O detalhe do simulador de Fórmula 1 não é trivial. Em 2002, quando o Brasil conquistou o pentacampeonato no Japão, Ronaldo e Ronaldinho Gaúcho tinham fama de passar horas em consoles de videogame durante a concentração — hábito que gerou críticas de parte da imprensa da época, mas que Luiz Felipe Scolari defendeu como válvula de escape necessária. Vinte e quatro anos depois, o princípio é o mesmo; a tecnologia evoluiu para simuladores imersivos de corrida.

O truco, por sua vez, é um clássico que atravessa gerações da Seleção. Há registros do jogo de cartas nas concentrações desde pelo menos a Copa de 1970, no México, quando a delegação chefiada por João Saldanha — e depois por Zagallo — precisava preencher os longos períodos entre partidas em Guadalajara e Toluca. O que muda em 2026 é a consciência coletiva de que essas atividades têm função estrutural, não são apenas passatempo.

54 dias longe de casa e o peso que nenhuma tabela estatística mede

A matemática da concentração desta Copa é implacável: de 27 de maio, quando o grupo se reuniu na Granja Comary, em Teresópolis, até 19 de julho, data da final do torneio, são 54 dias de convívio compulsório. Para ter uma referência histórica, a Copa de 1970 — a mais longa em termos de preparação brasileira — manteve o grupo reunido por cerca de 45 dias. A Copa de 2014, disputada em casa, teve uma concentração de aproximadamente 40 dias. O ciclo atual supera ambos.

Raphinha, que se define como um dos atletas mais experientes do elenco atual, carrega a memória específica do que acontece quando esse peso não é gerenciado. No Qatar, em 2022, ele disputou cinco partidas como titular sob o comando de Tite e terminou o torneio sem marcar um gol sequer e sem registrar uma assistência — desempenho que o marcou negativamente na narrativa popular sobre aquela campanha. A eliminação para a Croácia nas quartas de final, nos pênaltis, encerrou o ciclo de forma traumática.

"A rotina aqui começa bem cedo. Logo depois do café, a gente já vai direto para o treino. Cada um faz sua preparação, às vezes teve ativação individual, às vezes tem ativação em grupo", explicou o atacante, sublinhando a estrutura que sustenta os momentos de descontração.

A narrativa que circula com frequência sobre concentrações de seleção é a de que o lazer é o oposto da seriedade. Os dados históricos contradizem isso. A Seleção de 1994, campeã nos Estados Unidos sob Parreira, era conhecida pela disciplina quase militar — e também pelas longas partidas de sinuca e dominó nos quartos de hotel em Palo Alto. A de 1958, em Gotemburgo, tinha Garrincha e Pelé jogando baralho nos corredores do Hotel Slottsskogen. O grupo que vence Copa do Mundo não é o que trabalha mais horas; é o que sabe quando parar de trabalhar.

A pressão que Ancelotti herdou e o que Klinsmann enxerga de fora

Há uma tensão entre duas leituras sobre o Brasil nesta Copa que merece ser desmontada. Jürgen Klinsmann, campeão mundial com a Alemanha em 1990, declarou à ESPN que o Brasil é o principal favorito ao título — elogiando diretamente o trabalho de Carlo Ancelotti e afirmando que o técnico italiano "tirou o Brasil da zona de conforto". Klinsmann havia feito previsão semelhante antes do Qatar, quando a Seleção caiu nas quartas. A repetição do discurso, portanto, não é necessariamente um bom presságio.

Do lado oposto, Juninho Paulista, ex-coordenador da Seleção Brasileira e atual comentarista do SBT, avalia que o Brasil não é o grande favorito — e que essa condição pode ser benéfica, transferindo pressão para outras equipes. "O Brasil chega com um grande representante, que é o Ancelotti, com excelentes jogadores, e a camisa do Brasil é muito pesada em uma Copa do Mundo", ponderou o pentacampeão, equilibrando expectativa e realismo.

O que a câmera não mostra nos 15 minutos de treino aberto Raphinha revela ping-p
O que a câmera não mostra nos 15 minutos de treino aberto Raphinha revela ping-p

Nesse contexto de pressão difusa, a rotina de lazer em Basking Ridge adquire dimensão estratégica. Um campeonato de pingue-pongue entre jogadores que precisarão confiar uns nos outros em situações de alta tensão competitiva — como um pênalti nas quartas de final — não é detalhe de bastidor. É construção de vínculo. Conforme registrado pelo SportNavo ao longo desta cobertura, seleções que chegam ao mata-mata com maior coesão interna historicamente superam aquelas tecnicamente superiores, mas fragmentadas.

A Seleção de Ancelotti enfrenta o Marrocos no sábado, 13 de junho, às 19h (horário de Brasília), no Estádio MetLife, em Nova Jersey. Depois virão Haiti e Escócia para completar a fase de grupos. Até lá, o campeonato de pingue-pongue em Basking Ridge segue em andamento — e quem ganhar a mesa provavelmente não vai contar para ninguém.

O grupo que ri junto no hotel é o que chora junto no vestiário depois da vitória.