O Hard Rock Stadium, em Miami, receberá nesta quarta-feira (24) um detalhe que passou quase despercebido entre a discussão sobre Neymar no banco e a pressão pela liderança do Grupo C: um garoto de 19 anos, revelado pelas categorias de base do Vasco, vai começar uma partida de Copa do Mundo no lugar de um dos melhores atacantes do Barcelona. O garoto se chama Rayan. E a decisão de colocá-lo entre os onze iniciais não foi impulsiva — foi construída ao longo de meses de observação de Carlo Ancelotti.
A lesão de Raphinha abre uma janela que o Brasil não planejava abrir agora
Tudo mudou na última sexta-feira (19), no Lincoln Financial Field, em Filadélfia. Raphinha saiu ainda no primeiro tempo da vitória por 3 a 0 sobre o Haiti com uma contusão muscular na coxa direita. O camisa 11 do Barcelona entrou em tratamento intensivo e, embora não tenha sido cortado do Mundial, não tem condição de atuar nesta quarta. Ancelotti ficou sem sua referência técnica na ponta-direita às vésperas de um jogo que vale a liderança do grupo.
O Brasil chega ao confronto com quatro pontos, mesma pontuação do Marrocos, mas com vantagem de dois gols no saldo. A Escócia, terceira colocada com três pontos, sabe que precisa vencer e torcer por um tropeço marroquino diante do Haiti — que joga simultaneamente no Estádio de Atlanta — para sonhar com o primeiro lugar. Para os brasileiros, um empate já garante a classificação, mas Ancelotti deixou claro que o objetivo é confirmar a liderança da chave e ganhar confiança para as fases eliminatórias.
De Vasco a Bournemouth — a trajetória que convenceu Ancelotti
Rayan não chegou à Copa do Mundo pela porta dos fundos. Revelado nas categorias de base do Vasco da Gama, o atacante fez sua transição para o futebol europeu ao se transferir para o Bournemouth, da Premier League inglesa. Na Inglaterra, foi utilizado como extremo — função diferente da de centroavante que exercia em São Januário — e essa versatilidade foi exatamente o que chamou a atenção do técnico italiano.
Na chegada ao Hard Rock Stadium, Ancelotti foi direto ao explicar a escolha à TV Globo:
"As características do Rayan... Ele não é um extremo. Ele é um atacante completo. Ele pode jogar em muitas posições. Ele jogou como centroavante no Vasco, como extremo no Bournemouth... Ele tem um golpe muito forte, tem uma forte cabeça, é um jogador contínuo. Eu acho que ele pode fazer um bom jogo."
A definição de Ancelotti é reveladora. Quando um técnico da estatura do italiano — campeão da Champions League com Real Madrid, Milan e novamente com o Merengue — descreve um jovem de 19 anos como "atacante completo", está dizendo que confia nele para tomar decisões dentro do jogo, não apenas para correr na linha e cruzar. Rayan e Endrick são os únicos dois jogadores sub-20 da delegação brasileira nesta Copa do Mundo, e ambos carregam o peso de uma geração que o país não via desde os anos 1990 — quando Ronaldo tinha 17 anos e foi levado por Parreira ao Mundial dos Estados Unidos em 1994, sem entrar em campo, mas como símbolo de uma renovação que viria.
O que Ancelotti espera do ataque brasileiro contra a Escócia
O técnico não escondeu que a partida terá um perfil físico intenso. Ao analisar o adversário, foi preciso:
"Obviamente, vai ser uma partida física, com muita bola longa. Temos que estar preparados na segunda bola para recuperar e ter o controle do jogo."
A Escócia de Steve Clarke — treinador que comanda os escoceses desde 2019 — perdeu por 1 a 0 para o Marrocos na rodada anterior e tende a adotar uma linha de três zagueiros, sistema já utilizado naquela partida. Os principais nomes do time são o lateral-esquerdo Andy Robertson, ex-Liverpool, e o meia Scott McTominay, estrela do Napoli, que pode atuar até como atacante. Nesse contexto, a capacidade de Rayan disputar bolas aéreas e finalizar com força — atributos destacados por Ancelotti — pode ser mais decisiva do que a habilidade técnica refinada de Raphinha.
O Brasil vai a campo com: Alisson; Danilo, Marquinhos, Gabriel Magalhães e Douglas Santos; Casemiro, Bruno Guimarães e Lucas Paquetá; Rayan, Vinícius Júnior e Matheus Cunha. Neymar, recuperado de uma lesão de grau dois na panturrilha direita e sem atuar há mais de um mês, estará no banco pela primeira vez neste Mundial — disponível para entrar no decorrer da partida.
Ancelotti enxerga o jogo contra a Escócia como um passo de consolidação, não apenas de classificação:
"Esse jogo é importante para confirmar a primeira posição do grupo e para confirmar a melhoria feita. Precisamos de uma confirmação para tomar mais confiança, pois quando chegarem as partidas depois da fase de grupos temos que estar preparados. A equipe está crescendo e precisamos de uma confirmação no jogo de hoje."
A escalação de Rayan como titular às 19h (horário de Brasília) no Hard Rock Stadium é, ao mesmo tempo, uma solução de emergência e uma declaração de intenções. Ancelotti poderia ter optado por Luiz Henrique, Martinelli ou Endrick — todos disponíveis. Escolheu o menino de 19 anos que aprendeu a ser extremo na Premier League sem esquecer que nasceu centroavante no Rio de Janeiro. Como uma receita que muda de técnica mas mantém o sabor essencial, Rayan chega ao palco mais importante do futebol mundial carregando duas versões de si mesmo — e Ancelotti quer as duas em campo ao mesmo tempo.








