Quando Ramon Abatti Abel apitou o final da partida no Mangueirão, o placar de 2 a 0 para o Vasco sobre o Paysandu carregava muito mais que uma simples vantagem na Copa do Brasil. Os dois gols de Claudio Spinelli, marcados na etapa final em 21 de abril, representavam o fruto de uma revolução tática silenciosa que Renato Gaúcho vem implementando em São Januário nas últimas cinco rodadas da temporada.
O técnico gaúcho, conhecido historicamente por sua preferência por esquemas ofensivos clássicos, surpreendeu ao alterar a formação do Vasco em três dos últimos cinco jogos. A mudança mais significativa aconteceu justamente contra o Paysandu, quando optou por um 4-3-3 com Spinelli como referência central, ladeado por Rojas e Andrés Gómez nas pontas. O resultado foi imediato: o time aumentou a posse de bola em 15% desde a chegada do comandante, saltando de uma média de 52% para 67% nos últimos confrontos.
A metamorfose tática de São Januário
A análise das escalações recentes revela um padrão interessante. Nos primeiros jogos sob o comando de Renato, o Vasco mantinha uma estrutura rígida em 4-2-3-1, com Brenner como único homem de área. Mas as estatísticas mostravam uma equipe previsível: apenas 38% dos ataques resultavam em finalizações perigosas, número que subiu para 58% após as alterações implementadas pelo técnico.
Conforme levantamento do SportNavo, a revolução tática não se limitou apenas à formação. O posicionamento de meio-campistas como Thiago Mendes e Tchê Tchê ganhou maior liberdade criativa, enquanto os laterais Puma Rodríguez e Cuiabano passaram a subir com mais frequência para apoiar o ataque. O resultado foi um Vasco mais vertical, que criou 23 oportunidades claras de gol nos últimos três jogos como titular de Spinelli.
Spinelli e a disputa interna que eleva o nível
O atacante argentino, de 27 anos, tornou-se o grande beneficiado das mudanças táticas. Desde que assumiu a titularidade há três partidas, Spinelli balançou as redes quatro vezes, incluindo os dois gols decisivos contra o Paysandu. Sua média de 1,33 gols por jogo supera até mesmo a de grandes nomes do futebol sul-americano em competições continentais.
"Me dói um pouquinho o ombro, mas estou bem feliz. Sinto que aproveitei a oportunidade que o Renato me deu, que confiou em mim. Estou muito feliz que as coisas tenham saído bem para mim", afirmou Spinelli após a vitória no Mangueirão.
A concorrência interna, segundo o próprio atacante, tem sido fundamental para o crescimento coletivo. A disputa entre Spinelli, Brenner e David pela posição de centroavante criou um ambiente de competição saudável que se reflete nos treinamentos. Brenner, que perdeu a titularidade, passou a ser usado como coringa tático, entrando nos minutos finais para explorar espaços criados pelo desgaste dos adversários.
O terceiro gol anulado e as controvérsias arbitrais
O jogo contra o Paysandu também ficou marcado pela polêmica envolvendo o terceiro gol do Vasco, anulado pelo VAR após revisão de Ramon Abatti Abel. Nos acréscimos, Nuno Moreira havia balançado as redes após assistência de Brenner, mas o lance foi invalidado por um suposto puxão de camisa do atacante reserva.
"Fizemos inclusive o terceiro gol, eu vi agora no vestiário, o gol foi legítimo. O Ramon Abatti teve uma boa atuação, mas é o que eu sempre falo, o VAR é complicado. Futebol é esporte de contato, e não houve nada no lance, nem o zagueiro deles reclamou", declarou Renato Gaúcho após a partida.
A declaração do técnico reflete uma posição que ele vem defendendo ao longo da carreira: a interferência excessiva da tecnologia em lances duvidosos. Para Renato, o futebol como esporte de contato deve preservar certa margem de interpretação, evitando que o VAR transforme cada toque em falta.
Calendário desafiador pela frente
As mudanças táticas implementadas por Renato Gaúcho serão testadas em uma sequência desafiadora de jogos. O Vasco enfrenta o Corinthians fora de casa no dia 26 de abril, às 16h, pelo Brasileirão, antes de receber o Olimpia em 30 de abril, às 19h, pela Sul-Americana. O clássico contra o Flamengo, marcado para 3 de maio, às 16h, também fora de casa, representará o maior teste para a nova filosofia tática implementada em São Januário.
Com a vantagem de 2 a 0 construída em Belém, o Vasco encara o jogo de volta contra o Paysandu, em 13 de maio, como uma oportunidade de consolidar as mudanças táticas e garantir a classificação para a próxima fase da Copa do Brasil. O duelo em São Januário promete ser o palco ideal para que Renato Gaúcho demonstre que sua revolução tática veio para ficar no clube carioca.

