Quarenta dias antes do apito inicial da Copa do Mundo de 2026, três seleções entre as favoritas ao título acordaram para uma realidade cruel: Rodrygo Goes, Hugo Ekitike e Xavi Simons não estarão em campo. Em março e em maio, lesões graves — ruptura de ligamento cruzado anterior, rompimento do tendão de Aquiles — varreram do torneio nomes que deveriam ser protagonistas. O calendário não perdoa, e os médicos, dessa vez, tampouco têm resposta rápida.
A cascata de diagnósticos que mudou o mapa do torneio
Rodrygo sofreu a ruptura no ligamento cruzado anterior e no menisco do joelho direito em uma partida do Real Madrid, em março. A cirurgia foi realizada em seguida, e o prazo de recuperação estabelecido pelos especialistas é de oito meses — o que empurra o retorno do atacante, no melhor cenário, para novembro de 2026. Um mês após o procedimento, o próprio Rodrygo publicou imagens que mostravam o primeiro momento em que pisou no chão com a perna operada, marco simbólico mas ainda distante dos gramados. O Brasil perde, assim, um dos três atacantes titulares de Carlo Ancelotti no Real Madrid e um dos mais usados pelo treinador italiano na temporada europeia.
Hugo Ekitike, do Liverpool, teve um desfecho igualmente severo. A ruptura do tendão de Aquiles ocorreu durante partida da Champions League, e o tempo estimado de recuperação oscila entre cinco e nove meses. O francês havia marcado um gol contra o Brasil em amistoso disputado em março — exatamente o tipo de performance que o havia consolidado como titular no projeto de Didier Deschamps para o Mundial. A França, que chega ao torneio como uma das nações com elenco mais profundo do mundo, perde mesmo assim uma peça ofensiva de ritmo e verticalidade difíceis de replicar.
O terceiro diagnóstico chegou no último fim de semana, quando o Tottenham confirmou que Xavi Simons sofreu ruptura do ligamento cruzado anterior do joelho direito durante a partida contra o Wolverhampton, pela Premier League. O clube londrino anunciou que o holandês será submetido a cirurgia nas próximas semanas. Para a Holanda, a perda é sensível: Simons vinha sendo um dos organizadores do meio-campo e um dos jogadores de maior desequilíbrio individual da seleção de Ronald Koeman.
O peso tático do ausente
Conforme levantamento do SportNavo, os três jogadores compartilham uma característica que os torna difíceis de substituir: são atacantes ou meias que operam em espaços reduzidos, com habilidade para criar superioridade numérica em situações de transição. Não se trata apenas de qualidade individual — trata-se de funções táticas muito específicas dentro de sistemas que foram construídos ao longo de dois anos de trabalho nas respectivas seleções.
No caso do Brasil, a ausência de Rodrygo abre uma disputa entre nomes como Luiz Henrique, Antony e Savinho pela posição de atacante pelo lado direito. Nenhum deles, no entanto, acumula a mesma experiência em jogos decisivos de nível máximo que o camisa 11 do Real Madrid, que disputou três finais de Champions League. Para a França, a perda de Ekitike significa que Marcus Thuram e Ousmane Dembélé precisarão absorver carga maior no setor ofensivo. Já a Holanda deverá recorrer a Cody Gakpo ou Donyell Malen para cobrir o espaço de Simons, alterando a estrutura do meio-campo que Koeman vinha construindo desde a Euro 2024.
Militão também está na lista de incertezas
O cenário de desfalques do Brasil tem ainda um segundo capítulo pendente de resolução. Éder Militão, zagueiro do Real Madrid, sofreu nova lesão no bíceps femoral da perna esquerda — a mesma região que o havia tirado por quatro meses em período recente. Segundo o jornal espanhol Marca, Militão chegou a considerar um tratamento conservador para tentar chegar à Copa, mas o Real Madrid descartou essa possibilidade e determinou que o defensor passe por cirurgia. As chances de participação no torneio são, nas palavras dos especialistas, bastante remotas.
"Devemos estar preparados, mas é possível que não participemos da Copa do Mundo. No entanto, a decisão final será tomada pelo governo e pelo Conselho Supremo de Segurança Nacional", disse Ahmad Donyamali, Ministro do Esporte e da Juventude do Irã.
A fala de Donyamali remete a um problema de natureza completamente diferente, mas que também pesa sobre a Copa de 2026: o Irã segue com participação incerta no Grupo G, ao lado de Bélgica, Egito e Nova Zelândia. O país disputa a possibilidade de transferir seus jogos do solo americano — algo que a Fifa já negou — e treina em território neutro, a Turquia, nas próximas três semanas. A estreia iraniana está marcada para 15 de junho, no SoFi Stadium, em Inglewood, na Califórnia, contra a Nova Zelândia. A análise do SportNavo indica que, somada à instabilidade política, a eventual saída do Irã obrigaria a Fifa a convocar um país substituto ou manter o grupo com três seleções — ambas as situações logisticamente complexas a menos de dois meses do torneio.
Copa sem a geração mais esperada
Há uma crueldade histórica particular nessas ausências. Rodrygo tem 24 anos, Ekitike completou 23 em janeiro, Xavi Simons tem 22. São três dos jogadores que deveriam cravar a presença de sua geração num torneio que se desenhava como a Copa da transição — da era Messi-Cristiano para a geração de Vinícius Júnior, Bellingham e Lamine Yamal. A Copa do Mundo de 2030 pode acolhê-los de volta, todos ainda jovens, mas 2026 pertencerá a outros.
"A seleção realizará um período de treinamento em um país vizinho (Turquia) nas próximas três semanas. Se a segurança dos membros da seleção nos Estados Unidos for garantida, viajaremos para lá para participar da Copa do Mundo", declarou Donyamali, revelando o nível de incerteza que cerca pelo menos um dos 48 participantes do torneio.
O Brasil retorna às eliminatórias de preparação para o Mundial com uma convocação de Carlo Ancelotti que precisará ser montada sem Rodrygo e provavelmente sem Militão. A lista deve ser anunciada nas próximas semanas, antes do início do torneio em 11 de junho, quando Estados Unidos, México e Canadá receberão as 48 seleções classificadas.








