— Cara, o Neymar é igual ao Romário. Cortado antes da Copa por lesão, a mesma tragédia. — Romário marcou 156 gols no ciclo. — Como assim? — Exatamente isso.
Essa conversa de botequim se multiplicou pelo país desde que a lesão na panturrilha de Neymar colocou em xeque sua participação na fase de grupos da Copa do Mundo 2026. O paralelo com o corte de Romário às vésperas do Mundial da França, em 1998, surgiu quase que por reflexo coletivo. Só que comparar os dois episódios sem olhar para os números é como comparar o Barça de Guardiola com o Barça de Johan Cruyff baseado apenas na camisa azul e grená.
O que o levantamento do FutDados realmente revela
Um levantamento do FutDados — plataforma de estatísticas que considera apenas partidas oficiais, incluindo amistosos de seleções, mas excluindo torneios e jogos amistosos de clubes — traçou os ciclos dos dois atacantes entre as Copas imediatamente anteriores e as que os viram ausentes ou em dúvida. Os resultados, publicados em matéria do SportNavo, são contundentes: entre a conquista do tetracampeonato em 1994 e a convocação para a França em 1998, Romário disputou 183 jogos e marcou 156 gols. Neymar, no recorte entre o Catar em 2022 e a preparação para 2026, somou 63 partidas e 23 gols.
A diferença proporcional é ainda mais reveladora do que os números absolutos. Romário encerrou aquele ciclo com média de 0,85 gol por partida — o equivalente a balançar as redes uma vez a cada 1,2 jogos. Neymar chegou ao período pré-2026 com 0,37 gols por jogo, precisando de aproximadamente 2,7 partidas para marcar uma vez. A distância entre os índices não é de geração — é de momento de carreira, contexto físico e volume de competição.
Romário em 1995 era um fenômeno num pico que raramente se viu
Para entender o que Romário representava naquele ciclo, é preciso voltar a 1995. O Baixinho havia acabado de vencer a Copa do Mundo com a seleção e o prêmio de melhor jogador do mundo da Fifa — e retornou ao Flamengo depois de uma temporada de 30 gols pelo Barcelona na La Liga. Antes disso, acumulara cinco temporadas de altíssimo nível no PSV Eindhoven, onde chegou a marcar 35 gols em uma única edição do Campeonato Holandês, na temporada 1988/89. Quando o Cruyff do Barcelona dos anos 80 dizia que o futebol era uma questão de posicionamento, Romário era a prova viva da tese: ele não corria mais do que ninguém, mas chegava antes de todo mundo.
Aquela versão de Romário — madura, campeã do mundo, no ápice técnico — foi quem protagonizou o ciclo de 183 jogos e 156 gols. A média de 0,85 não foi um pico isolado; foi a continuação de um padrão que vinha sendo construído desde os tempos de PSV. Comparar esse recorte com o de Neymar pós-Catar é, sob qualquer lente histórica, uma assimetria de contextos.
O ciclo de Neymar entre 2022 e 2026 tem explicação — e ela é médica
Neymar chegou ao Mundial do Catar já carregando o peso de duas lesões graves nos tornozelos — a primeira em 2018, que o tirou dos quartos de final contra a Bélgica, e a segunda em 2019. No Al-Hilal, clube saudita pelo qual assinou em agosto de 2023, disputou apenas 7 partidas antes de sofrer uma ruptura do ligamento cruzado anterior do joelho esquerdo, em outubro daquele mesmo ano. A recuperação o manteve fora das quatro linhas por praticamente um ano inteiro. Quando voltou, em outubro de 2024, o ritmo de jogo — e consequentemente o ritmo de gols — nunca mais se restabeleceu completamente.
Esse contexto não diminui a gravidade da lesão atual na panturrilha, mas oferece a moldura correta para interpretar os 23 gols em 63 jogos. Neymar não chegou ao ciclo pré-2026 como um atacante em plena maturidade produtiva; chegou como um jogador tentando se reconectar ao próprio corpo — algo que Romário, em 1995, jamais precisou fazer.
"Entre a Copa de 1994 e o corte de 1998, Romário foi o atacante mais eficiente do planeta em jogos oficiais. Nenhum outro jogador naquele recorte chegou perto de 0,85 gols por partida em volume tão alto de jogos", destaca o levantamento do FutDados ao contextualizar os dados históricos.
A comparação não é inválida — é incompleta sem o contexto físico
O paralelo entre os dois episódios tem seu valor simbólico: ambos os maiores jogadores brasileiros de suas respectivas gerações foram — ou podem ser — privados de uma Copa por lesão, e em ambos os casos a dor do torcedor é genuína. Mas equiparar os ciclos de produção como se fossem equivalentes é ignorar que Romário estava vivendo o melhor momento de sua carreira entre 1994 e 1998, enquanto Neymar atravessou aquele período lutando contra o próprio histórico de lesões.

Há um paralelo histórico mais honesto, aliás, que vem da Itália dos anos 90 — o de Roberto Baggio na Copa de 1998. Baggio chegou ao Mundial da França com 31 anos, saindo do banco do Bologna, sem a mesma influência que tivera em 1994, quando quase ganhou a Copa sozinho. Marcou três gols, foi decisivo, mas os números do ciclo pré-98 não refletiam o Baggio de 1993. A lesão ou o declínio físico mudam o recorte — e o recorte muda tudo.
A seleção brasileira enfrenta o Grupo C da Copa do Mundo 2026 com a dúvida sobre Neymar ainda em aberto. O atacante seguirá em observação médica nas próximas 72 horas, e a comissão técnica deve dar um posicionamento definitivo antes da estreia do Brasil, marcada para 13 de junho, contra a Escócia, no SoFi Stadium, em Los Angeles.








