Confesso: eu errei sobre Cristiano Ronaldo em 2024. Escrevi, aqui mesmo, que sua influência nos bastidores de Portugal estava se tornando um peso — que um capitão com 41 anos e a autoridade de quem carrega 143 gols pela seleção poderia engessar o vestiário mais do que liberar. Hoje, vendo o que aconteceu nos últimos dias de preparação para a Copa do Mundo, preciso rever essa análise.

A cena que nenhum técnico quer ver antes de uma Copa

Dois jogadores do mesmo elenco disputando uma bola como se fosse clássico de rivalidade. Durante atividade tática da seleção portuguesa, João Cancelo exagerou na força ao dividir com João Félix — o atacante ficou visivelmente contrariado, e o episódio escalou o suficiente para chamar a atenção de quem estava ao redor. Ronaldo caminhou até o lateral, segurou-o pela nuca e tratou de repreendê-lo e acalmá-lo antes que a situação saísse do controle. Era apenas o segundo dia de preparação do grupo.

Quem acompanhou a seleção italiana de 2006 de perto — e eu tive o privilégio de cobrir aquele ciclo de Milão — sabe que vestiários tensos não são necessariamente veneno. A Squadra Azzurra de Lippi chegou ao Mundial da Alemanha com Totti e Cannavaro mal se falando depois de uma temporada de atritos na Roma e na Juve. Saiu campeã. O problema não é a tensão — é quando ela não tem um gestor interno capaz de absorvê-la antes que vaze para o campo.

O contexto agrava o episódio. Na véspera, imagens divulgadas pela Federação Portuguesa de Futebol mostraram Ronaldo e Bruno Fernandes se cumprimentando com frieza notável no centro de treinamento — reflexo direto de uma entrevista polêmica em que CR7 havia criticado o Manchester United, o técnico Erik ten Hag e ex-companheiros de clube. Fernandes, jogador do United à época, claramente não havia digerido bem as declarações. O grupo chegou ao segundo dia de preparação já carregando esse peso.

Ronaldo como gestor interno — a leitura que o futebol europeu ensina

Capitães que pacificam vestiários são raros, e a história do futebol continental documenta pouquíssimos casos bem-sucedidos. Paolo Maldini fez isso no Milan de Ancelotti entre 2001 e 2003 — período em que Rivaldo e Rui Costa disputavam espaço e o técnico precisava de um interlocutor dentro do grupo. Didier Deschamps, antes de virar técnico, cumpriu papel análogo na Juventus dos anos 90, mediando o ego de Del Piero e a intensidade de Zidane. O que esses casos têm em comum? O pacificador nunca é o jogador mais técnico — é o de maior capital simbólico.

Ronaldo tem esse capital em Portugal de forma praticamente incontestável. Seus 143 gols pela seleção representam mais do que um recorde: são a moldura dentro da qual toda uma geração de portugueses aprendeu a ver futebol. Quando ele caminha em direção a um colega e o segura pela nuca, não é gesto de amigo — é gesto de hierarquia. E hierarquias, quando legítimas, funcionam.

Aqui entra um dado que poucos analistas trouxeram para o debate. Portugal, nas últimas três edições de Copa do Mundo em que chegou às oitavas ou além — 2006, 2022 e agora com a expectativa de 2026 —, apresentou métricas de pressão coletiva acima da média europeia. Em termos de PPDA (passes permitidos por ação defensiva, indicador que mede a intensidade da pressão sobre o adversário), a seleção lusa costuma operar na faixa de 8 a 9 nas fases de grupos, o que, em linguagem mais simples, significa que pressiona muito e com organização — um comportamento que exige coesão interna. Grupos fraturados tendem a ter PPDA acima de 11, o que equivale a uma pressão frouxa e desorganizada. O desentendimento entre Cancelo e Félix, se não for gerido, pode custar exatamente essa coesão.

A síntese que Portugal precisa encontrar antes de entrar em campo

A narrativa dominante diz que Ronaldo é o problema de Portugal — e a cena desta semana, paradoxalmente, sugere o contrário. A contra-leitura mais honesta é que um capitão que intervém fisicamente para evitar um conflito entre companheiros é um capitão que ainda tem autoridade real, não apenas simbólica. O risco, claro, existe no outro sentido: se Ronaldo usa essa autoridade para proteger a própria posição no time acima do coletivo, o efeito se inverte.

Roberto Martínez, técnico de Portugal, enfrenta aqui um dilema que Carlo Ancelotti conhece bem — e que Sven-Göran Eriksson resolveu mal com a Inglaterra de 2006, quando permitiu que os egos de Beckham, Rooney e Lampard coexistissem sem um mediador claro. A diferença é que Portugal tem, em Ronaldo, um mediador que se autodesignou para a função. A questão é se Martínez vai usar isso a seu favor ou vai tentar neutralizar uma liderança que, neste momento, parece mais útil do que prejudicial.

Em matéria do SportNavo publicada anteriormente sobre o ciclo de preparação português, já havia sinais de que o grupo chegaria ao torneio com fissuras. O que a semana mostrou é que essas fissuras existem — mas também que existe alguém disposto a calafetá-las. Portugal estreia na Copa do Mundo 2026 no dia 18 de junho, contra a República Tcheca, em Kansas City. Cancelo e Félix devem estar no onze titular. A forma como Ronaldo vai administrar a convivência entre os dois nas próximas semanas pode ser tão decisiva quanto qualquer gol que ele marque.