Diz-se que Bukayo Saka é o jogador mais importante do esquema de Tuchel — o homem que concentra xG, xA e progressive passes no lado direito de um 4-2-3-1 que praticamente foi desenhado para ele. Na verdade, essa afirmação precisa de um asterisco enorme agora: o Saka que chegou à concentração inglesa no último sábado não é o mesmo que destruiu defesas na Premier League e levou o Arsenal à final da Champions League. E o motivo disso importa muito para entender o que Tuchel vai fazer no dia 17.

O tendão que atravessou a temporada toda

A lesão no tendão de Aquiles aconteceu em março, durante a derrota do Arsenal para o Manchester City na final da Copa da Liga Inglesa. O que veio depois foi uma corrida contra o relógio que durou semanas — e que, segundo o próprio Tuchel, o jogador venceu pagando um preço alto.

"Ele foi decisivo; eles o trouxeram de volta contra o Fulham quando a temporada e o título estavam em jogo, e ele foi decisivo de imediato. E então eles decidiram juntos, Bukayo e o Arsenal, que ele jogaria apesar da dor e do desconforto, mesmo que não fosse possível treinar a semana inteira na preparação."

Saka jogou a volta contra o Atlético de Madrid pelas oitavas da Champions, foi titular na final contra o PSG no dia 30 de maio — saiu derrotado, com o time bicampeão eliminado — e ainda ajudou o Arsenal a fechar o título da Premier League. Tudo isso sem conseguir encadear sessões completas de treino durante semanas.

O padrão que Tuchel descreveu na coletiva desta terça-feira é revelador: na segunda-feira, Saka ficou fora; na terça, participou do treino completo. Não consegue fazer sessões em dias consecutivos. Para um jogador cujo valor tático depende de sprints repetidos, pressing de alta intensidade e cruzamentos em velocidade máxima, isso é um sinal de alerta técnico, não apenas médico.

"Bukayo ainda está chegando lá. Ele jogou lidando com o desconforto no final da temporada, administrando a situação e jogando em alto nível, mas ainda não está 100%. Ele é o jogador que estamos poupando e cuidando nos treinos", explicou o treinador alemão.

O que os números de Saka significam taticamente

Para entender o tamanho do problema, basta olhar o que Saka representa em métricas de processo — não só de resultado. Na temporada 2025/2026 pelo Arsenal, ele acumulou um xA (expected assists) acima de 0,25 por 90 minutos, um dos maiores entre pontas do campeonato inglês. Quando a gente fala de progressive passes — passes que avançam o campo em pelo menos 10 metros em direção ao gol adversário —, Saka estava entre os cinco jogadores de toda a Premier League com mais ações desse tipo por partida.

Quando faz o movimento de inversão pela direita, ele força dois defensores a se reposicionarem e abre espaço para o corredor central. Quando faz a diagonal em direção à área, cria linhas de passe para o segundo homem na área — o que inflaciona o xG coletivo do time, não só o dele.

Quando ele não está em condições físicas plenas, o Arsenal — e agora a Inglaterra — perde exatamente essa capacidade de criar sobrecarga posicional no lado direito. A equipe fica mais previsível, o PPDA (passes permitidos por ação defensiva) do adversário tende a cair porque há menos pressão no terço ofensivo, e a rede de passes fica menos conectada entre os setores.

Madueke, Rogers ou Rashford — quem caça com esse gato

Quem não tem cão caça com gato — e Tuchel tem três gatos disponíveis para a posição de Saka: Noni Madueke, Morgan Rogers e Marcus Rashford. O técnico citou os três nominalmente na coletiva, o que por si só já é uma declaração de intenção: a Inglaterra não vai esperar Saka ficar 100% para definir o time da estreia.

Madueke foi o jogador mais consistente do Chelsea no segundo semestre da temporada europeia, com números de xG acumulado superiores a 8 na Premier League — resultado de movimentações sem bola e finalizações de dentro da área. Rogers, do Aston Villa, impressionou pela capacidade de condução progressiva: mais de 4 progressive carries por 90 minutos, um estilo diferente do de Saka, mais vertical e menos técnico no drible curto. Rashford, por sua vez, voltou a ter minutagem relevante após a passagem pelo Aston Villa e oferece velocidade e imprevisibilidade que os outros dois não têm da mesma forma.

Nenhum deles replica o perfil de Saka — e Tuchel sabe disso. A declaração de que "é muito improvável que Bukayo comece e termine todas as partidas daqui para frente" soa como gestão de expectativas, mas também como plano real: usar Saka em doses controladas, preservando o tendão para os jogos que realmente importam no mata-mata.

O amistoso desta quarta-feira (10) contra a Costa Rica, em Orlando, vai funcionar como laboratório. Com Saka fora da partida, Tuchel tem 90 minutos para testar qual das três alternativas se encaixa melhor no lado direito do 4-2-3-1 inglês antes do confronto com a Croácia. O resultado desse teste — registrado pelo SportNavo ao longo da preparação das seleções — vai definir se a Inglaterra chega ao Grupo L com um plano B crível ou apenas com a esperança de que o tendão de Aquiles de Saka aguente até Dallas.