Aos 58 minutos da vitória de 3 a 1 sobre o Crystal Palace neste sábado (25), Mohamed Salah agarrou a coxa esquerda, olhou para o banco e caminhou lentamente em direção à linha lateral — e Anfield, em pé, aplaudiu cada passo. O gesto silencioso da torcida dizia aquilo que nenhum locutor precisou verbalizar: aquele poderia ter sido o último lance de Salah naquele estádio. Com suspeita de lesão na parte posterior da coxa e apenas quatro rodadas restantes na Premier League, o egípcio de 33 anos pode ter encerrado prematuramente um capítulo que já estava programado para terminar em junho.

Uma saída que já estava escrita

Há cerca de um mês, Salah havia confirmado publicamente o que os rumores de corredor em Liverpool sussurravam há temporadas: ele não renovaria o contrato vigente até meados de 2027, optando por deixar o clube ao fim desta edição do campeonato inglês. A decisão não foi tomada em clima de guerra — ao contrário do episódio de novembro, quando o atacante foi afastado do grupo após uma interview bomb que irritou a diretoria e levou a seu corte da viagem para Milão na Champions League. Depois de uma conversa privada com o técnico Arne Slot na última sexta antes do duelo com o Brighton, Salah foi reintegrado e voltou a render dentro de campo.

Uma saída que já estava escrita Salah sai lesionado e pode ter dito adeu
Uma saída que já estava escrita Salah sai lesionado e pode ter dito adeu

O treinador holandês foi cuidadoso ao avaliar a nova lesão, mas o tom era o de quem já calcula o pior cenário possível.

"É muito cedo para dizer, mas todos nós conhecemos o Mo e sabemos o quanto é difícil para ele sair de campo. O fato de ter que sair já demonstra algo, mas temos que esperar para ver a gravidade da situação", disse Slot à BBC após o apito final.
Em outro momento, o técnico acrescentou que a temporada encerra em quatro semanas e que restam poucos jogos — uma forma sutil de dizer que o tempo está contra o egípcio.

255 gols e nove títulos — o peso de um legado Salah sai lesionado e pode ter dit
255 gols e nove títulos — o peso de um legado Salah sai lesionado e pode ter dit

255 gols e nove títulos — o peso de um legado

Quando Salah chegou a Liverpool em 2017, vindo da Roma por cerca de 42 milhões de euros, poucos previam a dimensão do que estava por vir. O egípcio se tornou o terceiro maior artilheiro da história do clube, com 255 gols em todas as competições — atrás apenas de Roger Hunt e Ian Rush, dois nomes que habitam a memória coletiva da Merseyside como semideuses locais. Na temporada atual, mesmo diante de uma campanha irregular do Liverpool — eliminado da Champions e da Copa da Inglaterra —, Salah acumula 12 gols e nove assistências.

Os nove títulos conquistados com a camisa vermelha incluem uma Champions League (2019), duas Premier Leagues (2020 e 2024-25, esta última o título mais recente), um Mundial de Clubes e outros torneios domésticos. Na perspectiva europeia, que o SportNavo acompanha de perto, a trajetória de Salah em Liverpool tem paralelos com a de Thierry Henry no Arsenal ou de Arjen Robben no Bayern de Munique: jogadores que definiram a identidade de um clube por quase uma década, tornando-se inseparáveis da própria mitologia da instituição.

Como o Liverpool cobre a lacuna

A questão tática que se coloca agora, segundo análise do SportNavo, é como Arne Slot reorganiza seu pressing alto sem a referência ofensiva mais constante do elenco. Contra o Crystal Palace, foram Alexander Isak, Andy Robertson e Florian Wirtz — contratação do mercado de inverno — os responsáveis pelos gols da tarde. Wirtz, ex-Bayer Leverkusen formado na escola do gegenpressing de Xabi Alonso, tem demonstrado capacidade de absorver parte da criatividade que Salah concentrava no corredor direito. Mas substituir 255 gols e o instinto de um jogador que humilhava defesas com a naturalidade de um rondo de Barcelona não é questão de uma janela de transferências.

O Liverpool ocupa o quarto lugar da Premier League com 58 pontos — mesma pontuação de Manchester United e Aston Villa, que disputam as vagas restantes para a Champions League da próxima temporada. Os Reds ainda têm compromissos contra Chelsea (9 de maio, em Anfield), Manchester United (3 de maio, fora), Aston Villa (17 de maio, fora) e Brentford (24 de maio, em casa). Curiosamente, Old Trafford era um dos palcos favoritos de Salah — o egípcio marcou repetidamente contra o United ao longo dos anos — e a dúvida sobre sua presença neste duelo específico adiciona um elemento dramático à reta final da temporada.

O que fica de Salah em Anfield

Há uma cena que resumia bem a despedida involuntária deste sábado: Salah, ao deixar o gramado, virou-se para as arquibancadas com um aceno que parecia carregar mais peso do que o habitual.

"Não sabemos [a gravidade], essa é a melhor resposta que posso dar. Simplesmente não sabemos, mas o que sabemos é que a temporada termina em quatro semanas. Não restam muitos jogos", reconheceu Slot em entrevista após a partida.
Se aquele foi de fato o último jogo de Salah em Anfield Road, a história registrará que ele saiu aplaudido de pé — não com um troféu na mão, mas com a dignidade de quem entregou tudo o que tinha enquanto pôde.

Os exames para determinar a extensão da lesão na coxa esquerda devem ocorrer nos próximos dias. Caso a confirmação chegue com prognóstico conservador, o próximo jogo possível de Salah pelo Liverpool seria a visita a Old Trafford em 3 de maio — e, para um adeus que ainda não aconteceu oficialmente, atormentar o Manchester United uma última vez não seria o pior dos roteiros.