É um relógio suíço com pavio curto.

Jorge Sampaoli é exatamente isso: um sistema de altíssima precisão que, quando funciona, devora adversários em bloco. Quando não funciona, explode na mão de quem o carrega. A Argentina acabou de apertar esse mecanismo, e o mundo do futebol vai assistir ao resultado nas próximas rodadas das eliminatórias sul-americanas para a Copa do Mundo.

Sampaoli assume com a Argentina no limite da classificação

A AFA confirmou a contratação na manhã desta quinta-feira, e o próprio presidente Claudio Tapia fez questão de anunciar um contrato de cinco anos — horizonte que vai muito além das eliminatórias e já aponta para um projeto de ciclo. Sampaoli foi apresentado em Buenos Aires com a Argentina na quinta colocação das eliminatórias, com 22 pontos, e quatro rodadas ainda a disputar. O quadro é de urgência real, não de conforto.

"A dificuldade da eliminatória é real e a Argentina não está classificada, mas nós temos sonhos e esperanças de mudar isso. Temos recursos para fazê-lo e estamos convencidos de poder conseguir isso", afirmou Sampaoli em sua apresentação oficial.

O primeiro desafio já tem data marcada: 31 de agosto, contra o Uruguai, em Montevidéu — uma das praças mais hostis das Américas. Em seguida, a Argentina recebe a Venezuela no Monumental de Núñez, no dia 5 de setembro. Dois jogos que, na prática, definem se a Argentina vai à Copa com passagem direta ou vai brigar por uma repescagem contra o vencedor da Oceania.

O sistema de Sampaoli e o que muda para Messi e companhia

Sampaoli declarou ter mais de 100 jogadores sob observação — dado que revela uma varredura ampla do mercado antes de fechar qualquer lista. Mas o ponto central do seu modelo de jogo é estrutural: pressão alta, transições verticais e um atacante que funciona como referência no espaço, não nas costas da linha adversária. Para Copa América de 2015, ele usou exatamente esse mecanismo com o Chile, conquistando o título sobre a Argentina na final, nos pênaltis.

Sampaoli assume com a Argentina no limite da classificação Sampaoli chega à Arge
Sampaoli assume com a Argentina no limite da classificação Sampaoli chega à Arge

Lionel Messi, que opera melhor em zonas de meia-sombra e com liberdade para buscar a bola no meio-campo, se encaixa com naturalidade nesse desenho. O que sufocava o camisa 10 nos últimos ciclos era a dependência de um sistema mais reativo, que colocava a Argentina em bloco médio e exigia de Messi a criação do zero, sem linhas de pressão que abrissem espaços. Sampaoli inverte essa lógica: a equipe pressiona alta, recupera rápido e entrega a bola ao craque já em condição de finalizar ou assistir.

"Sempre matizamos em nossas equipes situações relacionadas ao arco da frente, algo que vamos melhorar com esta camisa. Isso nos obriga a um protagonismo desmedido", disse o treinador, deixando claro que não veio para administrar resultados.

O legado do Chile e o peso da comparação com Bielsa

Sampaoli foi formado intelectualmente pela filosofia de Marcelo Bielsa — pressão intensa, marcação por zona de pressão, transição ofensiva veloz. Com o Chile, entre 2012 e 2016, ele refinou esse modelo e entregou o título da Copa América 2015, quebrando um jejum de 99 anos da seleção chilena. No Sevilla, o trabalho rendeu a quinta colocação na La Liga 2016/17 e uma campanha sólida na Europa League, antes de ele assumir a própria Argentina pela primeira vez — ciclo que terminou nas oitavas da Copa de 2018, eliminado pela França por 4 a 3.

Aquele primeiro ciclo com a Argentina, entre 2017 e 2018, foi turbulento: Sampaoli oscilou entre sistemas e chegou a perder autoridade sobre o vestiário durante o próprio Mundial da Rússia, segundo relatos amplamente documentados à época. A questão que se coloca agora é se a maturidade de um treinador de 57 anos, com mais experiências acumuladas no banco, consegue sustentar o modelo sem que o grupo escape do controle nos momentos de crise.

O próprio Sampaoli reconheceu o peso da história ao ser apresentado: "Nosso primeiro pensamento é construir uma equipe que respeite a história do futebol argentino", disse, numa frase que soa como recado direto aos veteranos do elenco e à torcida que cobrou respostas nos últimos meses.

A Argentina de Messi tem o melhor jogador do mundo — campeão da Copa de 2022 — e um elenco com profundidade real. O que faltava era um sistema que transformasse talento individual em fluxo coletivo. Sampaoli, em 31 de agosto, em Montevidéu, começa a responder se consegue entregar isso a tempo.

Argentina x Uruguai, dia 31 de agosto, em Montevidéu. Sampaoli tem 50 dias para montar o relógio.