O termômetro marca 53% de aproveitamento em dez partidas, números que em outras circunstâncias poderiam ser considerados razoáveis para um técnico recém-chegado. Mas no São Paulo de 2025, Roger Machado enfrenta uma realidade que transcende estatísticas: uma crise política estrutural que corrói os alicerces do clube há três anos e transforma cada resultado em campo numa batalha pela sobrevivência institucional.
O epicentro da tempestade tricolor
A pressão sobre a comissão técnica mascara o verdadeiro problema são-paulino, que reside nas disputas internas da diretoria. Desde novembro de 2024, Rui Costa assumiu integralmente o departamento de futebol, concentrando poderes que antes eram divididos entre diferentes setores. A centralização, longe de trazer estabilidade, intensificou os conflitos internos e expôs fragilidades na gestão esportiva.
Segundo apuração do SportNavo, pessoas próximas ao presidente Julio Casares manifestam descontentamento com o trabalho do diretor de futebol, criando um ambiente de instabilidade que se reflete diretamente no desempenho da equipe. A torcida organizada, tradicionalmente paciente com mudanças administrativas, agora cobra publicamente a saída de dirigentes, sinalizando o esgotamento da credibilidade interna.
Cronologia de uma crise anunciada
A atual turbulência tem raízes profundas que remontam ao final de 2022, quando o São Paulo encerrou o Brasileirão na 11ª posição, com apenas 50 pontos em 38 rodadas. A temporada seguinte trouxe a chegada de Dorival Júnior, que conseguiu estabilizar o time e levá-lo às oitavas de final da Libertadores, mas foi demitido em setembro de 2023 após eliminação para o Palmeiras.
O período entre outubro de 2023 e março de 2024 exemplifica a falta de planejamento institucional: quatro técnicos diferentes comandaram a equipe (Thiago Carpini interinamente, depois André Jardine, Luis Zubeldía e finalmente Rogério Ceni), cada um implementando filosofias táticas distintas e gerando instabilidade no elenco. Zubeldía, contratado em abril de 2024, parecia ter encontrado a fórmula ideal ao conquistar o título da Copa do Brasil em outubro, mas foi demitido em dezembro após desentendimentos com a diretoria.
O peso das decisões políticas
A contratação de Roger Machado em dezembro de 2024 representa mais um capítulo desta narrativa conturbada. O técnico gaúcho, conhecido por seu trabalho no Juventude e Grêmio, chegou com a missão de implementar um futebol ofensivo, mas encontrou um grupo marcado pelas constantes mudanças de comando. A chegada do atacante Artur, elogiada pela torcida, não conseguiu disfarçar os problemas estruturais que afetam o clube.
"O problema do São Paulo hoje não está dentro de campo e no futebol. A questão é a política do clube", analisa fonte próxima à diretoria.
Os números de Roger (cinco vitórias, três empates e duas derrotas em dez jogos) demonstram um aproveitamento superior aos 50% que historicamente garantem permanência no cargo. Contudo, a pressão política interna transforma cada partida numa prova de fogo para sua manutenção. Decisões táticas como a mudança de posição de Danielzinho, que saiu do meio-campo para atuar mais recuado, geram debates acalorados entre torcedores e dirigentes.
Perspectivas de resolução
A partida contra o Juventude na próxima rodada assume dimensões que ultrapassam os três pontos em disputa. Uma derrota pode custar não apenas o emprego de Roger, mas também acelerar mudanças na estrutura administrativa do clube. A diretoria são-paulina se vê numa encruzilhada: manter a atual configuração política e arriscar maior instabilidade ou promover mudanças que podem gerar ainda mais turbulência no curto prazo. O São Paulo volta a campo no sábado, às 16h30, no Morumbi, num confronto que definirá muito mais que posições na tabela do Campeonato Paulista.

