Duas horas. Esse número perseguiu gerações de atletas, treinadores e fisiologistas como uma barreira quase metafísica. No domingo, 26 de abril, em Londres, ela caiu duas vezes na mesma tarde. O queniano Sebastian Sawe e o etíope Yomif Kejelcha — estreante na distância de 42,2 km — cruzaram a linha de chegada abaixo dos 120 minutos, destruindo o recorde mundial de 2h01min09s que Eliud Kipchoge havia cravado em Berlim. O atletismo acordou diferente na segunda-feira.

A mecânica de uma performance impossível

Correr uma maratona abaixo de duas horas exige uma combinação de variáveis fisiológicas que a ciência do esporte compara à precisão de um mecanismo de relógio suíço. O pace médio necessário fica em torno de 2min50s por quilômetro — velocidade que a maioria dos atletas amadores sustenta por, no máximo, 400 metros. Para Sawe e Kejelcha, esse ritmo foi mantido por 42,2 km consecutivos. O VO2 máximo estimado de corredores nesse patamar supera 85 ml/kg/min, enquanto a média de um maratonista competitivo de elite já é considerada alta acima de 70 ml/kg/min.

A economia de corrida — métrica que mede o custo de oxigênio por distância percorrida — é outro diferencial técnico decisivo. Corredores do Leste Africano apresentam, historicamente, biomecânica que minimiza o impacto vertical e maximiza a propulsão horizontal, reduzindo o gasto energético por passada. Estudos publicados no Journal of Applied Physiology indicam que essa eficiência pode representar uma vantagem de até 8% em relação a atletas de outras regiões com mesmo VO2 máximo.

O hardware que fala mais alto

Não foi por acaso que a Folha de S.Paulo utilizou o termo hardware para descrever o feito. A tecnologia das palmilhas de carbono — presentes nos modelos de corrida de alto desempenho usados pelos dois atletas — comprovadamente devolve energia cinética a cada passada, funcionando como uma mola que reduz a fadiga muscular acumulada. Pesquisas da Nike, publicadas a partir de 2017, demonstraram ganho médio de 4% na eficiência energética com esse tipo de solado.

O corredor amador e ex-esquiador olímpico brasileiro Lelo Apovian foi um dos que comentou o feito com maior precisão técnica nas redes sociais após a prova. Na avaliação do SportNavo, a postagem de Apovian se destacou por contextualizar a quebra de recorde dentro do debate sobre a influência do equipamento no desempenho — uma discussão que divide a comunidade do atletismo global entre admiradores do progresso tecnológico e defensores de um marco regulatório mais rígido por parte do World Athletics.

"Uma das postagens mais sensatas sobre a quebra das 2 horas foi a do corredor amador e ex-esquiador olímpico brasileiro Lelo Apovian", destacou a Folha de S.Paulo em sua cobertura do evento.

Kipchoge e o peso de um legado que ainda respira

O recorde de Eliud Kipchoge, estabelecido em Berlim em setembro de 2022 com 2h01min09s, resistiu quase quatro anos antes de ser derrubado. O queniano, hoje com 40 anos, já havia cruzado a barreira das 2 horas em 2019, no projeto Ineos 1:59 Challenge em Viena — mas aquela marca não foi homologada pela World Athletics por ter sido produzida em condições artificiais, com pelotão de lebres especialmente recrutadas e sem adversários diretos. O recorde agora superado por Sawe era, portanto, a marca oficial de prova aberta.

A análise técnica do levantamento feito pelo SportNavo mostra que Kipchoge abriu caminho não apenas com resultados, mas com um método de periodização de cargas e altitude que virou referência global. Sawe e Kejelcha, ambos formados no ecossistema de treinos do Vale do Rift, no Quênia e na Etiópia, são produto direto dessa escola — altitude entre 1.800 e 2.400 metros, volume semanal acima de 200 km e ênfase em corridas de longa duração em terreno irregular.

"O hardware fala mais alto", sintetizou a Folha de S.Paulo, sugerindo que a combinação de genética, treinamento e tecnologia de calçados criou uma convergência perfeita em Londres.

O que vem depois de 2 horas

A quebra simultânea por dois atletas na mesma prova sugere que o novo piso competitivo na maratona masculina está sendo renegociado. Nos anos seguintes ao recorde de Kipchoge em 2022, pelo menos oito atletas correram abaixo de 2h02min, indicando que o volume de competidores aptos a disputar esse patamar cresceu substancialmente. A próxima grande janela para novos ataques ao recorde são as Maratonas de Berlim e Chicago, agendadas para o segundo semestre, onde as condições climáticas — temperatura entre 10°C e 15°C e vento favorável — historicamente favorecem marcas rápidas. Sawe é esperado em Berlim, em setembro, onde Kipchoge construiu dois de seus melhores tempos.