O calor de Dallas engole tudo. A temperatura passa dos 35°C e o asfalto em volta do AT&T Stadium em Arlington reflete uma luz que irrita os olhos. Dentro do estádio, 80 mil lugares aguardam o confronto que abre o Copa do Mundo 2026 para dois dos candidatos mais estudados do Grupo F: Japão e Holanda. A pergunta que não sai da cabeça de quem acompanhou a semana de treinos é direta: sem Wataru Endo e com Memphis Depay no banco, quais dessas duas seleções consegue executar o plano que ensaiou?

Os buracos que Moriyasu precisa tapar contra a Oranje

Dois titulares. Dois líderes. Dois buracos abertos de véspera. O Japão chega a Dallas sem Wataru Endo, capitão e organizador do meio-campo, que anunciou a aposentadoria da seleção após não se recuperar completamente de uma lesão no pé. A ausência de Kaoru Mitoma nas alas complica ainda mais a vida do técnico Hajime Moriyasu. Juntos, os dois somavam influência direta em boa parte das jogadas japonesas nas eliminatórias asiáticas, onde a equipe terminou líder do grupo C com 23 pontos em dez jogos — sete vitórias, dois empates, uma derrota.

Moriyasu respondeu às perdas com escolhas calculadas. Ao Tanaka forma dupla com Daichi Kamada no meio, ocupando o espaço deixado por Endo. Nas alas, Junya Ito e Takefusa Kubo disputaram a vaga de Mitoma até o último treino, com Kubo mantido entre os onze. Na frente, Ayase Ueda carrega a responsabilidade de finalizador: foram oito gols nas Eliminatórias da AFC. No gol, Zion Suzuki, jovem que voltou de uma lesão na mão e mantém rumores de interesse de clubes da Premier League, segue como titular de Moriyasu. A escalação provável: Suzuki; Taniguchi, Watanabe, H. Ito; Doan, Kamada, Tanaka, Nakamura; J. Ito, Kubo; Ueda — no esquema 3-4-2-1 que o técnico usa como base.

Os buracos que Moriyasu precisa tapar contra a Oranje Sem Endo e com Malen titul
Os buracos que Moriyasu precisa tapar contra a Oranje Sem Endo e com Malen titul

O Japão que chega a este Mundial não é o mesmo de ciclos anteriores. A seleção venceu Brasil e Alemanha em amistosos recentes, construindo um ciclo de resultados que sustenta a narrativa de equipe capaz de surpreender. A organização tática, a intensidade na pressão e a velocidade nas transições são os ativos que Moriyasu quer usar contra a Holanda — mesmo sem suas duas referências mais importantes.

Koeman resolve a dúvida no gol e confirma Malen no lugar de Memphis

Do lado holandês, a semana foi de monitoramento. Bart Verbruggen saiu mancando de um treino após uma queda no amistoso contra o Uzbequistão, e a possibilidade de Mark Flekken ou Robin Roefs começarem no gol chegou a circular nos bastidores. A confirmação de que Verbruggen está recuperado e escalado chegou com alívio para Ronald Koeman — o goleiro participou das últimas duas atividades sem restrições.

A decisão mais comentada é outra. Memphis Depay, 32 anos e maior artilheiro da história da Oranje, começa no banco. O motivo é físico: o atacante não atingiu o ritmo ideal de jogo e Koeman optou por Donyell Malen, atualmente em alta na Roma, como titular no ataque. A escalação confirmada é: Verbruggen; Dumfries, Van Hecke, Van Dijk e Van de Ven; De Jong, Gravenberch e Reijnders; Summerville, Gakpo e Malen.

A Holanda chega ao torneio com histórico recente irregular. Foi derrotada pela Argélia em amistoso e venceu o Uzbequistão com dificuldades. Nas eliminatórias europeias, avançou invicta na liderança do grupo G — mas a preparação deixou sinais de alerta que Koeman prefere não amplificar. O defensor Jurriën Timber também foi cortado por lesão na virilha, com Geertruida, do Sunderland, convocado em seu lugar. Virgil van Dijk segue como capitão e pilar da zaga.

Segundo o técnico Ronald Koeman, Memphis Depay está sendo monitorado diariamente e pode entrar em campo se o jogo pedir — mas a decisão de poupá-lo na estreia foi tomada com base no estado físico atual do jogador.

O que ainda falta resolver antes das 17h no AT&T Stadium

A arbitragem ficou com o americano Ismail Elfath, auxiliado por Corey Parker e Kyle Atkins. O VAR será operado por Armando Villarreal. Quem quiser acompanhar o jogo no Brasil pode assistir pela CazéTV, disponível sem custo adicional no Disney+, com a bola rolando a partir das 17h no horário de Brasília.

O Grupo F tem ainda outros dois selecionados que observam este confronto com atenção. Para o Japão, um resultado positivo contra a Holanda poderia repetir o feito de 2022, quando os Samurais Azuis derrubaram Alemanha e Espanha na fase de grupos. Para a Holanda, vice-campeã em 2010 e terceira colocada em 2014, vencer na estreia é condição mínima para sustentar qualquer ambição no torneio.

Nas palavras do técnico Hajime Moriyasu antes do embarque para Dallas, o Japão preparou uma estratégia específica para neutralizar os pontos fortes da Holanda — e a ausência de Endo não muda o plano tático, apenas exige adaptações nos nomes.

O AT&T Stadium já viveu finais de Super Bowl e noites históricas do boxe mundial. Neste domingo, recebe um confronto que pode definir quem sai do Grupo F com moral — e quem sai correndo atrás. Memphis entra em campo no segundo tempo? Se entrar e decidir, Koeman terá o argumento perfeito para mantê-lo no banco na segunda rodada também. Se Malen render e o Japão não conseguir tapar os buracos de Endo, a resposta sobre quem está mais pronto para a Copa chega antes do apito final. Afinal, se o Japão vencer hoje sem Endo e sem Mitoma, o que isso diz sobre a Holanda de Koeman no restante do torneio?