Se Abdessamad Ezzalzouli estivesse disponível para o dia 13, o Brasil enfrentaria um problema específico e bem documentado: um ponta-esquerda capaz de inverter lado, acelerar em espaços reduzidos e criar desequilíbrio sem precisar de associação prévia. Não estará. A confirmação da entorse do ligamento colateral medial do joelho direito, divulgada nesta terça-feira (9), praticamente retira o jogador do Real Bétis da fase de grupos da Copa do Mundo. O número que sintetiza o problema de Mohamed Ouahbi é 2 — dois titulares potenciais saíram lesionados no mesmo amistoso, contra a Noruega, no domingo (7), num empate por 1 a 1 que custou caro antes mesmo de a competição começar.
O que a lesão de Ezzalzouli tira do sistema ofensivo marroquino
Ezzalzouli não é apenas um nome na lista de convocados. No empate com a Noruega, foi ele quem forneceu a assistência para o gol de Brahim Díaz — o único gol marroquino da partida. Essa contribuição, aparentemente pontual, revela uma função estrutural: o ponta-esquerda como gerador do último passe em situações de pressão lateral. A entorse no ligamento colateral medial é classificada como lesão complexa, e embora a seleção marroquina ainda não o tenha cortado oficialmente, aguardando nova avaliação, a probabilidade de recuperação dentro do prazo da fase de grupos é, nos termos do próprio diagnóstico divulgado, praticamente nula.
Noussair Mazraoui, lateral-direito do Barcelona que deixou o mesmo amistoso com dores no ombro, representa uma segunda dúvida de natureza diferente — defensiva e de construção pelo corredor direito. Somam-se a esses dois casos o zagueiro Nayef Aguerd e o atacante Chemsdine Talbi, ambos em recuperação de lesões musculares, e o lateral Anass Salah-Eddine, poupado preventivamente. Cinco interrogações simultâneas a menos de uma semana de uma estreia contra a oitava colocada no ranking FIFA.
"O desfalque é uma grande perda para os marroquinos", avaliou a cobertura do lance.com.br ao confirmar o diagnóstico nesta terça-feira — síntese que, dita de forma direta, esconde uma pergunta tática de considerável profundidade.
As peças que Ouahbi tem para remontar o quebra-cabeça ofensivo
O técnico Mohamed Ouahbi não parte do zero. Azzedine Ounahi e Sofyan Amrabat formam uma base de meio-campo com capacidade de progressão, mas o nó está nos extremos. Ilias Chair, do QPR, e Bilal El Khannouss, do Genk, figuram entre as alternativas mais imediatas para ocupar o espaço deixado por Ezzalzouli. Chair tem 28 anos e carrega experiência no futebol inglês, com capacidade de jogo entre linhas. El Khannouss, 21 anos, representa o perfil mais vertical — e, segundo análises recentes de desempenho na Jupiler Pro League belga, registrou 9 assistências na temporada 2025/2026, números que indicam vocação para a criação mais do que para a finalização direta.
O dilema de Ouahbi não é de escassez, mas de encaixe. Ezzalzouli funcionava como a parede de ferro do lado esquerdo — a referência que absorvia marcação e liberava Brahim Díaz para circular. Sem ele, o técnico precisa decidir se aposta num substituto de perfil semelhante, mantendo a estrutura, ou se recalibra o sistema para dar mais centralidade a Díaz e redistribuir a criação pelo meio.
Marrocos chega à Copa do Mundo como sétima colocada no ranking FIFA, posição imediatamente atrás do Brasil, e é apontada como principal concorrente da Seleção Brasileira na liderança do Grupo C, que também inclui Escócia e Haiti. Esse contexto de ranking não é decorativo: indica uma equipe com densidade técnica suficiente para absorver baixas individuais sem colapso sistêmico. A questão é se a absorção será suficientemente rápida para o dia 13.
O que o Brasil encontrará no MetLife Stadium em 13 de junho
Carlo Ancelotti chega ao confronto com um único desfalque confirmado — Neymar, do Santos, em tratamento de lesão na panturrilha e com expectativa de retorno apenas na segunda rodada. A convocação emergencial do volante Éderson, da Atalanta, para substituir Wesley (lesão muscular na coxa esquerda contra o Egito, em 6 de junho) alterou o perfil de cobertura do meio-campo brasileiro, mas não o potencial ofensivo.
Em matéria do SportNavo publicada nos últimos dias, o padrão tático da Seleção para a Copa foi detalhado com base nas sessões de treino observadas. O ponto central: Ancelotti prioriza superioridade numérica no terço médio, o que significa que qualquer fragilidade marroquina na transição defensiva será explorada sistematicamente.
"Marrocos costumava aparecer como uma seleção capaz de dificultar jogos específicos; agora desembarca na América do Norte como uma das forças emergentes do futebol internacional", registrou a cobertura especializada — frase que, inadvertidamente, resume o paradoxo da situação: a ascensão do futebol marroquino como projeto nacional torna a ausência de Ezzalzouli mais custosa, não menos, porque o nível de exigência agora é outro.
Se Ouahbi optar por El Khannouss como titular no lado esquerdo, o Brasil precisará monitorar o espaço entre o lateral-direito e o zagueiro central — região onde o jovem belga-marroquino tende a aparecer na segunda fase da construção. Se a opção for Chair, o jogo tende a ser mais pausado, com Marrocos tentando explorar transições após recuperação de bola no campo médio. Em ambos os cenários, a ausência de Ezzalzouli reduz a imprevisibilidade marroquina no um contra um — e imprevisibilidade, contra defesas organizadas, tem valor que nenhuma estatística de assistências captura inteiramente.
A partida entre Brasil e Marrocos está marcada para as 19h (horário de Brasília) do dia 13 de junho, no MetLife Stadium, em Nova Jersey. Ouahbi tem até 24 horas antes do apito inicial para convocar um substituto caso Ezzalzouli seja oficialmente cortado — decisão que moldará a identidade ofensiva marroquina para os 90 minutos mais importantes que essa geração já disputou. Uma receita pode ser ajustada mesmo quando falta o ingrediente principal; o que não se improvisa é o tempo de cozimento.








