Aos 16 minutos do primeiro tempo contra o Egito, em Cleveland, um atleta de 22 anos saiu mancando do gramado e a pergunta mais incômoda da preparação brasileira ganhou contornos definitivos. Wesley, lateral-direito da Roma, carregava no músculo adutor da coxa esquerda uma lesão que os exames de imagem confirmaram horas depois — e que o tirou da Copa do Mundo antes de ela sequer começar. Quarto desfalque do Brasil por lesão, depois de Militão, Estêvão e Rodrygo, o jovem revelado pelo Flamengo chorou no banco de reservas enquanto a comissão médica ainda o atendia. Não havia mais dúvida sobre o diagnóstico nem sobre a consequência imediata: Carlo Ancelotti chegará ao Mundial sem um único lateral-direito de origem no elenco.
O que a ausência de Wesley representa no plano tático de Ancelotti
Wesley não era apenas mais um nome na lista dos 26. Ele era o único jogador convocado com a função específica de lateral-direito, posição que, na história recente da Seleção, já foi ocupada por nomes como Cafu, Maicon e Daniel Alves — três dos maiores especialistas que o futebol brasileiro já produziu naquele setor. A comparação não é exagerada: o posto tem tradição e exige características físicas e técnicas particulares, especialmente no modelo de Ancelotti, que demanda do lateral-direito tanto trabalho defensivo quanto projeção ofensiva para sobrecarregar o corredor.
O jornal espanhol Marca classificou o corte como um "duro golpe" para o Brasil, afirmando que a Seleção recebeu "uma das piores notícias possíveis" às vésperas do torneio. O AS, também de Madri, foi na mesma direção e apontou que a ausência de Wesley "altera os planos de Ancelotti e cria uma lacuna importante no time titular brasileiro". Em Portugal, o diário A Bola destacou a mudança de última hora e reforçou o impacto da troca no elenco.
"Quando você perde o único especialista de uma posição véspera de Copa, não é só uma vaga que some — é uma referência de comportamento tático que você precisava construir em campo", avaliou um ex-preparador físico da Seleção com passagem por dois Mundiais.
Para cobrir a vaga, a CBF convocou Éderson, volante da Atalanta. A escolha reforça o meio-campo — setor que já conta com Casemiro, Fabinho, Bruno Guimarães, Danilo Santos e Lucas Paquetá — mas deixa a lateral direita sem um dono de origem, como registrado pelo SportNavo desde a divulgação da lista inicial.
Ibañez, Danilo e as alternativas reais que Ancelotti tem à disposição
Com a saída de Wesley, os nomes que surgem com mais força para ocupar a lateral direita são o zagueiro Ibañez e o polivalente Danilo — que, aliás, já entrou no amistoso contra o Egito justamente no lugar do lesionado. Danilo tem histórico de atuar pela direita, tanto no Flamengo quanto em passagens anteriores pela Seleção, mas sua função prioritária no elenco atual é de zagueiro central. Ibañez, que joga pela Roma ao lado do próprio Wesley no clube, também tem mobilidade para recuar ao corredor direito, mas igualmente sem a especialização que a posição exige em alto nível.
Historicamente, o Brasil já recorreu a improvisos semelhantes. Na Copa de 1998, com Cafu absoluto titular, havia cobertura real no banco. Em 2014, com David Luiz e Dante sendo escalados às pressas na zaga por conta de lesões, a fragilidade defensiva ficou exposta de forma cruel — o 7 a 1 contra a Alemanha tem várias causas, mas a desorganização da linha defensiva aparece em qualquer análise séria daquele confronto. O paralelo não é idêntico, mas o risco de improvisar numa posição específica é real.
Uma terceira possibilidade seria Ancelotti adotar uma linha de três zagueiros, liberando um dos laterais para cobrir o corredor direito com mais liberdade. O italiano tem no currículo experiências com diferentes sistemas — no Real Madrid, variou entre o 4-3-3 e o 4-4-2 conforme o adversário — e a Copa do Mundo pode ser o momento para uma adaptação estrutural que proteja o setor mais vulnerável do elenco.
O que ainda falta resolver antes da estreia brasileira
A pergunta que o torcedor quer respondida é objetiva: quem jogará na lateral direita do Brasil na estreia? E a resposta ainda não existe de forma definitiva. Ancelotti terá os dias restantes de preparação para testar combinações, e o comportamento de Danilo e Ibañez nos treinos será determinante para a decisão.
O contexto de desfalques acumulados é inédito na preparação recente da Seleção. Militão era titular absoluto na zaga; Estêvão era a grande novidade ofensiva; Rodrygo tinha papel decisivo nas transições. Agora Wesley se junta a esse grupo, e cada ausência impõe a Ancelotti uma reconstrução de planos que deveria ter sido definida meses antes.
Para o Brasil, a Copa começa com uma questão tática aberta num setor que o país dominou por décadas. Desde Cafu, que disputou quatro Copas do Mundo entre 1994 e 2006 e levantou o troféu em duas delas, a lateral direita brasileira sempre teve nomes de referência. Wesley seria o herdeiro mais imediato dessa tradição numa geração nova. Aos 22 anos, terá que esperar pelo menos até 2030 para viver sua primeira Copa — e Ancelotti terá que resolver, nos próximos dias, um problema que nenhum treinador gostaria de enfrentar antes do jogo de abertura.








