Um país chega à Copa do Mundo com seu melhor jogador e, ao mesmo tempo, sem ele. Thomas Partey desembarcou no Canadá com a seleção de Gana — e foi impedido de entrar. A contradição não é apenas burocrática: ela expõe, já na véspera da estreia contra o Panamá, nesta quarta-feira (17), às 20h (horário de Brasília), no BMO Field, em Toronto, o quanto a seleção africana construiu sua identidade ao redor de um único nome.

O buraco no centro que Partey deixou

Há uma geração inteira de torcedores ganeses que nunca viu a seleção jogar uma grande competição sem Thomas Partey no centro do campo. O volante do Arsenal, aos 31 anos, acumulou mais de 50 partidas com a camisa das Estrelas Negras e tornou-se o metrônomo de tudo: saída de bola, pressão alta, leitura de jogo. Sua entrada negada no Canadá — motivada por questões legais relacionadas a acusações que tramitam na Justiça britânica — não é apenas uma baixa tática. É a remoção da coluna vertebral de um esquema inteiro.

O técnico Carlos Queiroz, veterano que já comandou Portugal, Irã e Colômbia em Copas anteriores, tratou o assunto com a frieza de quem já viu muita turbulência antes de um torneio. Em entrevista divulgada antes da partida, o português declarou que

"Gana tem o plano definido e o elenco tem qualidade para executá-lo."
A frase soa como escudo, mas também como desafio lançado aos próprios jogadores: provem que existem além de Partey.

Owusu e Yirenkyi na missão de dois homens contra uma sombra

A solução mais provável de Queiroz passa por Elisha Owusu, meio-campista que atua no futebol belga, ao lado de Caleb Marfo Yirenkyi. Nenhum dos dois carrega o peso internacional de Partey, mas a dupla tem características complementares: Owusu é mais físico e disciplinado taticamente, enquanto Yirenkyi oferece mobilidade e capacidade de pressionar linhas. A questão não é se eles são bons — é se conseguem, juntos, fazer o que um único jogador fazia sozinho.

No ataque, a referência será Jordan Ayew, capitão que marcou sete gols nas Eliminatórias africanas e chega como o nome mais experiente do setor ofensivo. Pelos flancos, Antoine Semenyo e Ernest Nuamah representam a velocidade que Gana precisará para desequilibrar uma defesa panamenha que, em 2018, sofreu seis gols em três jogos — todos derrotas. A ideia é clara: se o meio não consegue controlar o jogo, que a largura do campo faça esse trabalho.

O Panamá e a fome de quem nunca venceu

Do outro lado do gramado, o Panamá disputa apenas sua segunda Copa do Mundo e carrega um dado que pesa como uma pedra: zero vitórias em três jogos na estreia de 2018, com seis gols sofridos e apenas dois marcados. O capitão Aníbal Godoy, meio-campista experiente que conhece o futebol norte-americano como a palma da mão, foi direto ao ponto antes do jogo:

"O Panamá não está no Mundial apenas para participar."
A frase tem o sabor de quem sabe que uma geração inteira está sendo julgada em 90 minutos.

A seleção da Concacaf entende que o Grupo L, com Inglaterra e Croácia como favoritas, oferece uma janela estreita. Essa janela se chama Gana — e ela está, por acidente da burocracia canadense, ligeiramente entreaberta. O Panamá não vai desperdiçar a oportunidade de empurrar essa janela. A questão é se tem força técnica para isso: em 2018, a equipe nunca encontrou equilíbrio entre defesa organizada e transição ofensiva, e o técnico Thomas Christiansen ainda busca a combinação certa.

O que uma vitória na estreia significa para cada um

Para Gana, vencer o Panamá não é apenas começar bem — é sobreviver ao calendário. Os jogos seguintes contra Inglaterra e Croácia são, matematicamente, mais difíceis, e uma derrota na estreia colocaria as Estrelas Negras numa posição quase sem saída. A seleção africana já chegou às oitavas de final em 2006 e 2010, mas desde então não passou da fase de grupos. O projeto de Queiroz precisa de pontos agora, antes que os europeus entrem em cena.

O buraco no centro que Partey deixou Sem Partey, Gana descobre se tem time ou
O buraco no centro que Partey deixou Sem Partey, Gana descobre se tem time ou

A partida terá transmissão pela CazéTV, conforme registrado pelo SportNavo. Queiroz tem nas mãos um elenco que, apesar dos resultados irregulares em amistosos recentes, possui peças individuais de qualidade acima da média africana. O problema — e aqui está o paradoxo que abre esta história — é que a ausência de Partey pode, involuntariamente, forçar Gana a descobrir se é uma seleção de verdade ou apenas um jogador cercado de coadjuvantes. Essa resposta começa às 20h desta quarta, no BMO Field.

O vencedor do duelo entra na segunda rodada com vantagem psicológica e matemática sobre o adversário, enquanto o perdedor precisará de um resultado positivo contra Inglaterra ou Croácia — cenário que, historicamente, poucos times fora da elite europeia conseguem transformar em pontos. Jordan Ayew aquece no vestiário. Aníbal Godoy amarra as chuteiras. E Toronto espera para ver qual das duas histórias vai começar a ser escrita.