A última vez que a França entrou em uma Copa do Mundo sem seu zagueiro mais dominante foi em 2002, quando Marcel Desailly e Lilian Thuram chegaram ao torneio desgastados, e a equipe caiu na fase de grupos sem marcar um gol sequer. Não se trata de repetir história — o futebol mudou demais para isso —, mas o paralelo existe: a ausência de uma peça estrutural na zaga francesa abre fissuras reais, e o amistoso desta quinta-feira em Boston, contra o Brasil, pode ser o primeiro teste para medir o tamanho desse estrago.

O que a final da Champions revelou sobre o estado físico de Saliba

William Saliba, 25 anos, atuou os 120 minutos da final da Liga dos Campeões entre Arsenal e PSG com dores nas costas — e, segundo o jornal espanhol AS, a situação se agravou após o apito final. O zagueiro está afastado das atividades e passará por exames médicos em Clairefontaine, o centro de treinamento da seleção francesa, para determinar se tem condições de disputar a Copa do Mundo 2026. O prognóstico, por ora, é considerado preocupante.

Titular absoluto sob o comando de Didier Deschamps, Saliba não é apenas um zagueiro de qualidade técnica elevada — ele é o organizador da saída de bola francesa, o jogador que dá ritmo à construção desde a defesa. Em 57 partidas pela seleção, sua presença transformou a linha defensiva dos Bleus em algo mais do que uma barreira: tornou-a um ponto de partida ofensivo. Substituí-lo sem perda de rendimento exige um substituto com perfil semelhante, e esse perfil não está disponível na mesma prateleira.

A defesa francesa sem seu pilar e o que isso significa em campo

Pense em uma orquestra que perde seu primeiro violinista na véspera do concerto mais importante do ano. Os outros músicos continuam talentosos, mas a coesão que aquele instrumento garantia — o timing, a referência sonora para os demais — simplesmente some. Com Saliba fora, a defesa francesa enfrenta exatamente esse problema de coordenação, especialmente nas transições defensivas rápidas.

O Brasil, por sua vez, chega ao amistoso de Boston com sua própria linha defensiva em reconstrução. Carlo Ancelotti deve utilizar Ibañez e Léo Pereira como dupla de zaga, já que Marquinhos está fora por dores no quadril. Os laterais Wesley e Douglas Santos completam o setor. Mas a vulnerabilidade francesa é o dado mais relevante para a estratégia ofensiva brasileira: sem Saliba organizando a saída de bola, a tendência é que a defesa dos Bleus fique mais exposta a pressões altas e a transições velozes — exatamente o tipo de situação que jogadores como Vinícius Jr. e Raphinha exploram com consistência.

"Mbappé tem muita qualidade e é extremamente eficaz na finalização", alertou Ancelotti antes do duelo, reconhecendo o perigo francês — mas o contexto do amistoso mostra que os riscos são bilaterais.

A França também terá Ousmane Dembélé de volta ao grupo após mais de seis meses afastado por lesão na panturrilha. O atacante do PSG, Bola de Ouro em 2025, reentra em cena para o duelo de Boston e para o amistoso seguinte, contra a Colômbia em Washington, no domingo. Em 57 partidas pela seleção, Dembélé marcou apenas sete gols — o último deles em março de 2025, contra a Croácia pela Liga das Nações. A expectativa francesa é que ele finalmente entregue, com a camisa azul, o nível que apresentou no PSG ao longo da última temporada europeia.

O que o Brasil precisa fazer para transformar a brecha em dado concreto

A ausência de Saliba não torna a França uma equipe frágil — seria ingênuo concluir isso. Kylian Mbappé segue como o maior perigo individual do duelo, e a pressão francesa no campo adversário é suficientemente intensa para punir qualquer erro brasileiro na saída de bola. Ancelotti já reconheceu que a construção desde a defesa é um ponto de atenção para sua equipe, especialmente com a dupla de zaga inédita que vai escalar.

Mas o amistoso de Boston oferece ao Brasil uma oportunidade concreta de testar algo que vai além do resultado: a capacidade de pressionar uma defesa francesa reorganizada sem seu principal elemento de equilíbrio. A saída de bola dos Bleus sem Saliba tende a ser mais lenta e mais propensa a erros sob pressão — e se o Brasil conseguir transformar essa pressão em recuperações de bola em zonas adiantadas, o amistoso cumprirá sua função preparatória de forma muito mais rica do que uma vitória construída sobre um adversário em dia fraco.

Em matéria do SportNavo, o contexto do amistoso vai além de um simples ensaio pré-Copa: ele é um laboratório tático para ambas as seleções, com a França precisando demonstrar que sobrevive sem Saliba e o Brasil tentando provar que consegue pressionar alto contra adversários de elite. Os exames médicos do zagueiro em Clairefontaine estão marcados para os próximos dias, e a decisão sobre sua participação no Mundial deve ser comunicada antes de 16 de junho, data em que a França estreia na Copa do Mundo contra o Senegal — prazo que também definirá se Deschamps chega ao torneio com ou sem seu zagueiro mais importante.