A última vez que Portugal entrou em campo para um amistoso relevante sem nenhum de seus titulares do meio-campo do PSG foi em novembro de 2024 — e o resultado foi uma derrota por 2 a 0 para a República da Irlanda, um tropeço que ainda pesa na memória de Roberto Martinez. Naquele jogo, João Neves estava presente, mas o equilíbrio que ele e Vitinha juntos proporcionam ao miolo português simplesmente não existia. Neste sábado (6), no Estádio Nacional do Jamor, contra um Chile em reconstrução, Martinez se vê diante de um laboratório obrigatório: a dupla parisiense não está disponível, e a Copa do Mundo começa em menos de duas semanas.

O vazio deixado pelos campeões da Champions

Vitinha e João Neves chegaram ao amistoso contra o Chile com a Champions League no bolso — o PSG conquistou o título europeu nesta temporada 2025/2026, em uma campanha que consumiu os dois até o limite físico. Por isso, assim como Nuno Mendes e Gonçalo Ramos, eles só se integrarão ao grupo português após este jogo, a tempo do segundo amistoso, contra a Nigéria, em Leiria. O quarteto parisiense tem presença garantida na Copa, mas não neste ensaio que Martinez precisava justamente para rodar peças alternativas.

A ausência dos dois é mais do que administrativa. Vitinha e João Neves formam há dois anos o par mais regular do meio-campo lusitano: um oferece saída de bola curta e leitura posicional fina; o outro equilibra intensidade com capacidade de progressão. Sem eles, o técnico belga precisa montar um quebra-cabeça com peças de perfil diferente — e o resultado desse experimento pode definir quem sobe ao banco como opção na Copa.

Rúben Neves e Samu Costa como base, Bruno Fernandes no topo

A solução mais lógica, segundo o raciocínio tático de Martinez, passa por Rúben Neves e Samuel Costa na base do meio-campo. Rúben Neves, hoje no Al-Hilal depois de passagem marcante pelo Wolves e pela seleção, traz o peso de experiência em Copas — esteve no torneio de 2018 e 2022 — e a capacidade de organizar a saída de bola com passes longos que Vitinha não costuma utilizar com a mesma frequência. Samuel Costa, revelação recente, aparece como opção de marcação e cobertura de espaços.

À frente deles, Bruno Fernandes assume o papel de meia armador, função que desempenhou com desenvoltura no Manchester United nesta temporada — onde quebrou o recorde de assistências da Premier League. Segundo análises do portal PortuGOAL, a expectativa é que Bernardo Silva opere pela direita, criando uma linha de três meias que tenta compensar, pela criatividade, o que perde em compacidade defensiva.

"Martinez will be using the opportunity to test midfield combinations due to the absence of PSG's Vitinha and João Neves", registrou o PortuGOAL na cobertura pré-jogo, sintetizando o caráter experimental desta convocação.

A dúvida sobre Matheus Nunes e o precedente de Euro 2016

Há um paralelo histórico que poucos comentaristas têm evocado: no Euro 2016, Fernando Santos também chegou ao torneio sem a certeza sobre quem jogaria ao lado de Adrien Silva e William Carvalho no miolo. Naquele verão francês, a solução improvisada — com João Mário e Renato Sanches sendo testados em diferentes configurações — terminou, contra todas as expectativas, com a taça erguida em Saint-Denis. Não foi pela solidez do meio-campo; foi pela adaptabilidade.

Matheus Nunes seria outra opção natural para este jogo, mas o jogador do Manchester City perdeu o treino de quinta-feira com gastroenterite, colocando sua presença neste sábado em dúvida. Caso se recupere, ele representa uma alternativa de perfil diferente: mais vertical, com capacidade de conduzir e pressionar linhas. João Félix, por sua vez, realizou treino individual na academia antes de se juntar ao grupo — sua participação também depende de avaliação médica de última hora.

"Matheus Nunes missed training on Thursday due to gastroenteritis. João Félix did individual training in the gym before joining the group", confirmou a cobertura oficial da seleção portuguesa.

Chile como termômetro e o que Portugal precisa provar antes da Copa

O adversário desta tarde não é dos mais exigentes para medir o meio-campo português. O Chile de Nicolás Córdova — que assumiu interinamente em julho de 2025, após uma campanha eliminatória catastrófica nas Eliminatórias Sul-Americanas (dois triunfos em 18 jogos, nove gols marcados e 27 sofridos) — não conseguiu sequer se classificar para a Copa do Mundo, terminando na lanterna da CONMEBOL. A La Roja ganhou três amistosos no segundo semestre de 2025, contra Peru (duas vezes) e Rússia, e mais recentemente bateu Cabo Verde por 4 a 2 em Auckland — resultados que revelam mais sobre a reconstrução do projeto chileno do que sobre qualquer ameaça concreta.

Para Martinez, o Chile serve como termômetro controlado. A prioridade não é o placar — é entender se Rúben Neves ainda consegue ditar o ritmo de uma seleção que vai à Copa como uma das favoritas do Grupo E, e se Bruno Fernandes, no papel de meia mais adiantado, consegue conectar o setor com Cristiano Ronaldo (41 anos) na referência central, já que Gonçalo Ramos — titular nos três últimos jogos da seleção — ainda está integrado ao grupo do PSG. A escalação mais provável aponta para: Diogo Costa; Dalot, Rúben Dias, Gonçalo Inácio, Cancelo; Rúben Neves, Samu Costa; Bernardo Silva, Bruno Fernandes, Leão; Ronaldo.

O jogo começa às 14h45 (horário de Brasília), no Estádio Nacional do Jamor, e quem quiser entender como Portugal chegará à Copa do Mundo vale gravar este ensaio — é nele que as combinações de meio-campo que Martinez usará como plano B em caso de emergência durante o torneio vão tomar forma pela primeira vez.