A câmera estava no vestiário antes mesmo de o jogo começar. Não havia locução, trilha dramática ou voz em off explicando o que estava acontecendo — só Carlo Ancelotti, de braços cruzados, observando o grupo com a mesma serenidade de quem já ganhou quatro Champions Leagues. É nesse tipo de cena que Vai, Brasil, série documental produzida pela Globo e pela Feel The Match em parceria com a CBF, aposta para reconectar o torcedor brasileiro à Copa do Mundo que começa em menos de duas semanas. A estreia na TV aberta acontece nesta quarta-feira, 10 de junho, com um formato de longa-metragem que inclui cerca de 10 minutos de conteúdo inédito em relação à versão já disponível no Globoplay.
O que a série revela sobre o método Ancelotti na Seleção
Criada e dirigida por Bruno Maia, Vai, Brasil é descrita pela produção como a primeira obra audiovisual a acompanhar de forma contínua a preparação de uma Seleção Brasileira para um Mundial. O acesso concedido à equipe é incomum para os padrões da CBF: câmeras em treinos fechados, viagens internacionais, reuniões da comissão técnica e bastidores de vestiário em jogos oficiais. O que emerge desse material é um retrato de gestão que contrasta com o estilo mais hermético de ciclos anteriores. Ancelotti, 66 anos, aparece em momentos de decisão estratégica sem o filtro habitual das coletivas de imprensa — e é exatamente aí que a série ganha relevância analítica.
A produção registrou encontros dos jogadores brasileiros com estrelas de outras seleções, incluindo Kylian Mbappé, Luka Modrić, Sadio Mané e Son Heung-min. Esses momentos revelam algo que os números de audiência e as escalações não capturam: o peso diplomático que a camisa amarela ainda carrega fora do Brasil. A série também documenta visitas de Ronaldo, Rivaldo e Bebeto ao longo da preparação — um movimento deliberado da comissão técnica para construir narrativa de pertencimento histórico num grupo que carrega o peso do hexacampeonato como meta declarada.
"De fato, é um formato inédito e muito complexo que nós optamos por adotar nesse projeto. A ideia é permitir aos torcedores estarem pertos e conectados ao que os jogadores e comissão técnica estão vivendo."
A fala do diretor Bruno Maia sintetiza a aposta editorial da produção: romper a distância entre torcida e equipe num momento em que essa relação ainda carrega cicatrizes do ciclo anterior. Depois da eliminação nas quartas de final da Copa de 2022 para a Croácia, nos pênaltis, e de uma sequência de resultados irregulares nas Eliminatórias, o Brasil chega ao Mundial de 2026 com Ancelotti como primeiro técnico estrangeiro da história da Seleção — e com uma série documental como instrumento de reconexão emocional.
A Copa começa agora e a série muda o ritmo da torcida
No dia seguinte à estreia na TV aberta, o SporTV exibe os três episódios completos da série para seus assinantes, ampliando o alcance para o público de TV por assinatura. O timing é calculado: a Vai, Brasil funciona como aquecimento narrativo para uma Copa que já mobiliza o país num ritmo parecido com o trânsito da Avenida Paulista às 18h — todo mundo em movimento, ninguém querendo perder o próximo passo. O UOL, por exemplo, já anunciou cobertura diária com edições especiais do Posse de Bola às 8h30 e transmissões ao vivo ao longo do torneio, o que indica o nível de ativação midiática em curso.
Há um dado estrutural que a série não menciona explicitamente, mas que está em todo frame: o Brasil não chega a uma Copa do Mundo como favorito absoluto desde 2006. A produção acompanha vitórias e derrotas do ciclo — sem esconder os tropeços — e esse compromisso com a narrativa real, e não com a propaganda institucional, é o que diferencia Vai, Brasil dos materiais de comunicação da CBF dos últimos 20 anos. Ancelotti aparece gerenciando tensão, não apagando-a.
O que muda no mapa da Copa com essa narrativa de bastidores
Séries documentais sobre seleções nacionais têm precedentes claros de impacto em engajamento. A All or Nothing da Seleção Alemã, lançada pela Amazon Prime em 2022, gerou mais de 1 milhão de visualizações nas primeiras 48 horas e foi citada pela DFB como ferramenta de aproximação com torcedores jovens. No Brasil, onde a relação entre torcida e Seleção passou por desgaste real — a audiência da Copa de 2022 na Globo caiu 18% em relação a 2018 nos jogos da fase de grupos — uma produção com linguagem cinematográfica e acesso real aos bastidores tem potencial de recuperar parte desse vínculo antes do primeiro apito.
A série também expõe, mesmo que involuntariamente, o tamanho do desafio de Ancelotti: montar um grupo coeso num país onde a expectativa pelo hexacampeonato convive com 24 anos de frustração mundialista. Os encontros com ídolos como Bebeto e Rivaldo não são nostalgia gratuita — são parte de uma construção de identidade que a comissão técnica claramente orquestrou. O técnico italiano, que nunca escondeu sua admiração pelo futebol brasileiro, aparece na série não como um gestor distante, mas como alguém que entendeu que treinar o Brasil exige mais do que planilha tática.
A Vai, Brasil estreia hoje na TV Globo. O Brasil estreia na Copa do Mundo em 19 de junho, contra Marrocos, no estádio SoFi, em Los Angeles.








