Confesso: eu errei sobre o poder de uma música de Copa do Mundo em 2010. Estava em Milão, cobrindo os preparativos para a temporada europeia, e quando ouvi Waka Waka (This Time for Africa) pela primeira vez num rádio de táxi, achei que seria mais um jingle descartável — desses que somem junto com os confetes da cerimônia de encerramento. Dezesseis anos depois, a faixa soma mais de 3 bilhões de visualizações no YouTube e continua sendo usada em campanhas publicitárias de marcas globais. Errei feio. E hoje, diante do que a Copa do Mundo 2026 está montando para a cerimônia de abertura, o erro de 2010 me ajuda a enxergar com mais clareza a dimensão do que está em jogo.

Shakira e o currículo que nenhum artista pop conseguiu replicar

Há uma lógica histórica interessante nos números que envolvem Shakira e as Copas. Em 2010, na África do Sul, Waka Waka foi lançada com a cantora colombiana já consolidada internacionalmente — mas foi o Mundial que a transformou em fenômeno transcultural, ouvida de Lagos a Seul. Em 2014, no Brasil, ela cantou La La La ao lado de Carlinhos Brown na cerimônia de encerramento, no Maracanã. Agora, em 2026, ela retorna para a abertura no Estádio Azteca, na Cidade do México, cantando Dai Dai ao lado do nigeriano Burna Boy — tornando-se a única artista a marcar presença em três Copas consecutivas em funções musicais oficiais.

Penso nessa trajetória como alguém que pensa em ciclos de hegemonia no futebol europeu. O Barcelona de Guardiola dominou três temporadas seguidas da La Liga entre 2009 e 2011 com uma consistência que parecia impossível de replicar. Shakira construiu algo análogo na música de Copa: não é presença por acaso, é consistência sistêmica. A FIFA confirmou ainda que ela dividirá o palco com Madonna e o BTS no show do intervalo da final, no estádio MetLife, em Nova Jersey — um formato inspirado diretamente no Super Bowl americano. Três momentos num único torneio. Decidiu.

O clipe de Dai Dai foi gravado no Maracanã, no Rio de Janeiro, o que não é detalhe menor: é um gesto simbólico de conexão com o Brasil, país-sede da Copa anterior em que ela participou. A música tem ainda um componente filantrópico — a FIFA Global Citizen planeja arrecadar US$ 100 milhões para o Fundo Global de Educação a partir da faixa, o que eleva o peso do projeto bem além do entretenimento.

Anitta no SoFi Stadium e o que os números do streaming já dizem

Em Los Angeles, no estádio SoFi, na mesma quinta-feira (11 de junho), Anitta se apresentará antes da partida entre Estados Unidos e Paraguai — ao lado de Katy Perry, Future, Lisa (do BLACKPINK) e da paraguaia Marilina Bogado. A brasileira não está ali por gentileza da FIFA: está ali porque seus números de streaming em mercados hispânicos e anglófonos cresceram consistentemente desde 2022, quando Envolver alcançou o primeiro lugar no Spotify global, feito inédito para uma artista brasileira.

"Dai Dai marca mais uma participação da artista em trilhas da Copa do Mundo, depois de Waka Waka, da edição de 2010, e La La La, do Mundial de 2014", conforme registrado pelo SportNavo com base nas informações divulgadas pela FIFA.

A presença de Anitta em Los Angeles — e não em Toronto ou no México — tem uma lógica geográfica e comercial precisa. O mercado de Los Angeles concentra a maior comunidade brasileira dos Estados Unidos e é o epicentro da indústria do entretenimento americano. Colocar a artista brasileira mais ouvida no exterior num palco dessa magnitude, perante uma audiência global estimada em centenas de milhões de espectadores, é uma aposta com retorno de exposição que nenhum contrato publicitário isolado conseguiria comprar.

A produção das três cerimônias — México, EUA e Canadá — está a cargo do italiano Marco Balich, o mesmo responsável pela cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos de Inverno de Milão-Cortina, realizados neste ano de 2026. Balich tem um histórico de construir narrativas visuais que funcionam tanto no estádio quanto na transmissão televisiva, o que sugere que os shows foram concebidos como produtos audiovisuais completos, não apenas como entretenimento de intervalo.

O que a Copa 2026 pode mudar no mapa global do pop latino

Há um paralelo histórico que me ocorre toda vez que penso em como eventos esportivos moldam mercados culturais. Quando a Copa de 1994 foi realizada nos Estados Unidos — a última vez antes desta edição de 2026 —, Diana Ross se apresentou na cerimônia de abertura em Chicago, numa performance memorável por razões que incluíam um pênalti propositalmente errado. Naquele momento, o pop americano dominava a cena de forma absoluta, e a música latina ainda era tratada como nicho nos grandes mercados anglófonos.

Trinta e dois anos depois, a mesma Copa retorna aos EUA e o lineup da abertura em Los Angeles inclui uma brasileira, uma tailandesa do K-Pop e artistas de afrobeats — enquanto a cerimônia do México reúne J Balvin, Maná, Los Ángeles Azules e Tyla, da África do Sul. O mapa sonoro das aberturas de 2026 é, ele próprio, um documento de como o eixo de influência cultural se deslocou. Não é retórica: é dado de mercado.

Em Toronto, Michael Bublé e Alanis Morissette representarão o Canadá antes da partida contra a Bósnia-Herzegovina, no BMO Field, no dia 12 de junho — uma escolha que privilegia o mercado doméstico canadense. A diversidade dos três lineups, pensados em conjunto, sugere que a FIFA entendeu algo que os grandes clubes europeus levaram décadas para aprender: audiência global exige representação geográfica real, não apenas simbólica.

A cerimônia de abertura do México acontece em 11 de junho, no Estádio Azteca, antes de México e África do Sul. No dia seguinte, 12 de junho, Anitta e Katy Perry sobem ao palco em Los Angeles antes de EUA e Paraguai. Shakira, por sua vez, reserva seu maior momento para a final, no MetLife, ao lado de Madonna e BTS — três atos, três públicos, uma Copa que começou a ser decidida musicalmente muito antes de qualquer chute a gol.