O treino já estava em andamento quando Éderson pisou pela primeira vez no campo de concentração da Seleção Brasileira, na última terça-feira, 3 de junho. O volante da Atalanta, convocado às pressas após a lesão do lateral Wesley, encontrou um grupo em que a maioria dos jogadores ainda está aprendendo o idioma tático de Carlo Ancelotti. Mas havia ali três rostos que já conhecem o dialeto do treinador italiano de memória: Casemiro, Vinícius Júnior e Endrick.

O que o trio que passou pelo Real Madrid carrega de diferente

Dos 26 convocados por Ancelotti para a Copa do Mundo 2026, apenas esses três já foram treinados por ele no Real Madrid. Casemiro integrou o elenco madrilenho entre 2013 e 2015, na primeira passagem do técnico, período que culminou na conquista da décima Liga dos Campeões do clube espanhol. Já Vinícius Júnior e Endrick estiveram sob o comando de Ancelotti durante a segunda passagem, entre 2021 e 2025 — fase em que o brasileiro se tornou protagonista absoluto do projeto tático do italiano.

No caso de Vinícius, a relação com Ancelotti moldou o perfil do atacante que o Brasil escalará contra Marrocos no dia 13 de junho, no MetLife Stadium, em Nova Jersey. O técnico o posicionou como peça central no esquema de transição rápida do Real, com liberdade para aparecer no meio e finalizar com frequência. Endrick, por sua vez, chegou ao clube muito jovem e teve os primeiros meses de adaptação ao futebol europeu com Ancelotti como guia direto, acumulando poucos minutos, mas absorvendo os princípios do treinador de perto.

Segundo pessoas que convivem com o técnico no ambiente da Seleção, Ancelotti usa explicitamente a experiência prévia com esse trio para acelerar a integração tática do grupo. Como ele próprio tem reforçado internamente: a Copa, no seu planejamento, começa de verdade nas quartas de final, marcadas para o dia 9 de julho — o que lhe dá espaço para testar variações durante a fase de grupos, com os três jogadores já ambientados servindo de referência para os demais.

A leitura que desafia o otimismo em torno da familiaridade tática

Há, no entanto, uma contra-leitura que merece atenção. A vantagem do trio conhecer os métodos de Ancelotti não resolve o problema coletivo mais urgente da Seleção: a fragilidade defensiva. Em 2026, o Brasil sofreu gols em todos os quatro amistosos disputados, totalizando seis tentos sofridos — média de 1,5 por partida. As 40 finalizações cedidas nos quatro jogos (média de 10 por confronto) incluem as 16 do Panamá, adversário considerado de baixo nível técnico.

Marrocos, o adversário da estreia, apresenta exatamente o oposto: apenas quatro gols sofridos em oito jogos no ano, com uma média de 0,5 por partida, e adversários sendo limitados a 6,3 finalizações por jogo. No amistoso contra a Noruega, os europeus tiveram 54% de posse de bola e conseguiram finalizar apenas cinco vezes. O setor defensivo marroquino conta com Hakimi, do PSG bicampeão europeu, e a dupla de zagueiros Issa Diop, do Fulham, e Chadi Riad, do Crystal Palace — todos habituados ao nível da Premier League.

Como diz o ditado, quem não tem cão caça com gato — e Ancelotti, com apenas três jogadores que já passaram por suas mãos, precisará que o restante do elenco assimile rapidamente os ajustes posicionais que o italiano demanda, especialmente na cobertura defensiva dos laterais durante as transições. O goleiro Bono, herói da campanha marroquina até a semifinal da Copa de 2022 e hoje no Al-Hilal, é mais um obstáculo para a Seleção transformar posse de bola em gols.

O que os números indicam para o Brasil antes da estreia

A síntese mais honesta desse cenário é que a familiaridade de Casemiro, Vinícius e Endrick com Ancelotti é um ativo real, mas de alcance limitado quando 23 dos 26 convocados ainda estão calibrando os princípios do técnico. Casemiro, por exemplo, carrega não apenas a memória da conquista da Champions de 2014 sob Ancelotti, mas também a leitura de como o italiano gerencia pressão em jogos de mata-mata — algo que pode ser transmitido aos companheiros de meio-campo nos treinos.

Vinícius, por sua vez, é o jogador que mais se beneficia da relação construída no Real: seu rendimento sob Ancelotti entre 2021 e 2025 foi quantitativamente superior a qualquer outra fase de sua carreira, e o técnico demonstrou saber como extrair o melhor dele mesmo em partidas de alta tensão defensiva. A questão, levantada em análise do SportNavo, é se essa equação individual se converte em coesão coletiva suficiente para superar um Marrocos que concede espaços com conta-gotas.

O Brasil estreia na Copa do Mundo 2026 no dia 13 de junho, sábado, às 19h (horário de Brasília), contra Marrocos no MetLife Stadium, em Nova Jersey. Após o duelo com os africanos, a Seleção enfrenta o Haiti em 19 de junho, na Filadélfia, e a Escócia em 24 de junho, em Miami — três jogos para Ancelotti ajustar o grupo antes do que ele considera o verdadeiro começo da competição.