20 anos — esse é o hiato que a República Tcheca carregava nas costas ao embarcar para o México. A última vez que os tchecos pisaram em um Copa do Mundo havia sido em 2006, na Alemanha, com um elenco de luxo encabeçado por Pavel Nedved, Tomas Rosicky e o goleiro Petr Cech, e mesmo assim não passaram da fase de grupos. Do outro lado do confronto desta sexta-feira em Guadalajara, a Copa do Mundo de 2026 reserva um jogo que vai além de pontos na tabela: é o encontro de dois atacantes que definem o estilo e a esperança de suas seleções, com o apito marcado para as 23h (horário de Brasília).
O legado que Son Heung-min precisa construir agora
Son Heung-min, 33 anos, chega a esta Copa do Mundo em um momento peculiar de carreira: não mais o jovem revelado pelo Bayer Leverkusen, nem o artilheiro consolidado do Tottenham, mas o veterano que trocou a Premier League pelo Los Angeles FC e ainda assim manteve a braçadeira de capitão da Coreia do Sul. É ele o principal instrumento ofensivo de uma seleção que ostenta a melhor colocação da história do futebol asiático em Copas — o quarto lugar conquistado em 2002, quando o país sediou o torneio ao lado do Japão, ainda que cercado de polêmicas de arbitragem que marcaram aquele Mundial.
A expectativa em torno de Son, contudo, vai além da nostalgia. No Los Angeles FC, o sul-coreano manteve regularidade suficiente para seguir sendo o referencial técnico e emocional da seleção. Ao seu lado, o jovem Bae Jun-ho, do Stoke City da Inglaterra, deve começar a partida no banco, mas representa a geração que pode herdar o posto de estrela nacional nos próximos ciclos. Por ora, o palco é de Son — e ele sabe que esta pode ser sua última Copa com chances reais de impacto.
Schick e o gol que virou símbolo de uma geração tcheca
Se Son carrega o peso de um legado coletivo, Patrik Schick carrega o de um momento específico que ficou gravado na memória do futebol europeu. Na Eurocopa, o atacante marcou um gol de fora da área — do meio de campo, com o goleiro adversário deslocado — que entrou imediatamente para a galeria dos mais belos da história da competição. Aquele chute não foi apenas bonito; foi a afirmação de que a República Tcheca tinha um finalizador capaz de resolver jogos sozinho.
A chegada da seleção tcheca a este Mundial, porém, foi acidentada. O técnico Ivan Hašek caiu após uma derrota surpreendente para as Ilhas Faroe — resultado que ainda provoca desconforto na federação —, e Miroslav Koubek assumiu o comando apenas em dezembro de 2025, às vésperas dos playoffs. Com pouco tempo de trabalho, Koubek conduziu a equipe sobre a Irlanda e, nos pênaltis, sobre a Dinamarca para garantir a classificação. A estrutura tática prioriza a solidez defensiva, as jogadas de bola aérea e os contra-ataques — e no topo dessa cadeia ofensiva, a responsabilidade recai sobre Schick.
"Por desespero de tentar corrigir esse erro, tivemos que sair e não sabíamos o que poderia acontecer. Obviamente, aquele que não se equivoca não consegue nada", disse Fernando Muslera, goleiro do Uruguai, após levar um gol da Coreia do Sul nas oitavas de final — uma frase que, curiosamente, resume bem o dilema de qualquer defesa que enfrenta Son em um dia inspirado.
O grupo que pune quem tropeça em Guadalajara
O contexto do grupo em que Coreia do Sul e República Tcheca estão inseridas amplifica a pressão sobre ambas as equipes. Mais cedo no mesmo dia, às 14h (horário de Brasília), México e África do Sul se enfrentam pela mesma chave — o que significa que o resultado do jogo de Guadalajara pode ser lido em tempo real como um posicionamento estratégico dentro de uma disputa de quatro seleções em equilíbrio precário. Uma derrota, a depender do outro resultado do grupo, pode colocar qualquer time em situação de necessidade absoluta na última rodada.
Para a Coreia do Sul, a equação é conhecida: jogar com intensidade nos primeiros 45 minutos, explorar a velocidade de Son nos espaços e não permitir que o adversário se instale no jogo aéreo — justamente a principal arma tcheca. Para a República Tcheca, o desafio é conter o capitão sul-coreano sem sacrificar a linha defensiva a ponto de abrir espaços para os contra-ataques adversários. Koubek, com apenas seis meses à frente da equipe, terá de resolver esse quebra-cabeça com recursos limitados de repertório coletivo.
Conforme apurado em matéria do SportNavo durante a fase de preparação, o grupo foi descrito por analistas europeus como um dos mais imprevisíveis do torneio — uma avaliação que se confirma pelo peso específico deste confronto entre as duas seleções que, no papel, têm o perfil mais próximo de classificação às oitavas de final.

O duelo dentro do duelo e o que ele define para as próximas rodadas
Quando Son e Schick estiverem no mesmo gramado, o confronto direto entre os dois vai além da marcação individual. Son opera pela esquerda, buscando inversões e finalizações com o pé direito — seu padrão consagrado nos anos de Tottenham. Schick, por outro lado, é um centroavante que vive do posicionamento e da finalização de primeira, capaz de criar do nada como ficou provado na Eurocopa. As defesas de ambas as seleções terão de lidar com atacantes de perfis completamente distintos, o que torna o jogo taticamente rico e potencialmente aberto.
A consequência direta do resultado desta partida se estenderá além da tabela do grupo. A seleção vencedora chegará à última rodada com margem de manobra — podendo, inclusive, administrar um empate dependendo do que acontecer nos outros jogos. A perdedora, por sua vez, entrará na última rodada em situação de eliminação potencial, o que muda completamente a abordagem tática e o peso psicológico sobre jogadores e comissão técnica. Para Son, que provavelmente não terá outra Copa do Mundo depois desta, e para Schick, que quer transformar o gol da Eurocopa em legado de Copa do Mundo, o jogo desta sexta-feira em Guadalajara não é preliminar — é o nó central de tudo.
Coreia do Sul e República Tcheca entram em campo às 23h (horário de Brasília), com o vencedor assumindo posição confortável no grupo e o perdedor precisando de resultado combinado na última rodada para avançar às oitavas de final — a pressão está distribuída de forma igual, mas as histórias dos dois homens que decidirão o jogo não poderiam ser mais diferentes.








