A morte de Oscar Schmidt, aos 68 anos, reverberou pela NBA nesta sexta-feira (17), quando Steve Kerr prestou uma das mais tocantes homenagens ao "Mão Santa" antes do decisivo play-in entre Golden State Warriors e Phoenix Suns. O técnico dos Warriors não apenas lamentou a partida do maior pontuador da história do basquete mundial, mas relembrou um episódio de 1986 que transcendeu fronteiras e simbolizou o fair play entre dois países.
"Joguei contra ele no Mundial de 86, rompi meu LCA enfrentando o Brasil e ele me carregou nos braços até a saída da quadra. Foi um gesto incrível", recordou Kerr em coletiva.
O episódio ocorreu durante o Mundial de Basquete de 1986, na Espanha, quando um jovem Steve Kerr, então com 21 anos, defendia a seleção americana. Na partida entre Estados Unidos e Brasil, Kerr sofreu uma lesão grave no ligamento cruzado anterior do joelho direito. O que poderia ter sido apenas mais um acidente esportivo se transformou em um dos momentos mais emblemáticos da relação entre o basquete brasileiro e americano.
O gesto que marcou duas carreiras
Oscar Schmidt, já consolidado como o principal nome do basquete brasileiro, não hesitou em ajudar o adversário machucado. Segundo relatos da época, o ala-armador brasileiro carregou Kerr nos braços até a saída da quadra, em um gesto de compaixão que impressionou jogadores, técnicos e jornalistas presentes no ginásio espanhol. A cena ficou registrada na memória de Kerr, que construiria uma das carreiras mais vitoriosas da NBA como jogador e técnico.
A lesão de Kerr foi diagnosticada como ruptura completa do LCA, afastando-o das quadras por meses. Ironicamente, essa mesma lesão que o brasileiro ajudou a amenizar se tornaria comum na carreira do americano - Kerr passou por múltiplas cirurgias no joelho ao longo de sua trajetória como jogador profissional. O episódio de 1986 permaneceu vivo em sua memória durante quase quatro décadas de carreira.
Comparação técnica revela admiração mútua
Durante a coletiva, Kerr foi além da lembrança pessoal e ofereceu uma análise técnica que surpreendeu. O técnico comparou o estilo de jogo de Oscar Schmidt com Stephen Curry, seu atual comandado e uma das maiores lendas dos Warriors. A comparação não foi casual - ambos compartilham características ofensivas revolucionárias para suas respectivas épocas.
"Um dos maiores arremessadores que vi na vida. Não tinha medo de arremessar, ele tinha um pouco da mentalidade do Stephen Curry, não pensava duas vezes", analisou Kerr.
A comparação faz sentido estatisticamente. Oscar Schmidt finalizou a carreira internacional com 49.703 pontos em 1.093 jogos, média de 45.4 pontos por partida. Curry, por sua vez, revolucionou a NBA com arremessos de três pontos, mantendo 42.6% de aproveitamento além da linha nas últimas cinco temporadas. Ambos compartilham a confiança inabalável no próprio arremesso e a capacidade de criar cestas em situações impossíveis.
Legado que atravessa gerações
O reconhecimento de Kerr ilustra como o basquete brasileiro, personificado por Oscar, conquistou respeito mundial mesmo sem participar da NBA. Schmidt optou por manter-se no basquete europeu durante toda a carreira, rejeitando propostas de franquias americanas para preservar sua elegibilidade na seleção brasileira - regra que vigorava até os anos 1990.
Conforme apuração do SportNavo, Kerr mencionou especificamente os fãs brasileiros durante a coletiva, demonstrando como a NBA reconhece a importância do mercado nacional. O técnico dos Warriors direcionou suas condolências não apenas à família de Oscar, mas a todo o Brasil, reconhecendo o impacto cultural do jogador brasileiro.
"Ele tem muitos fãs no Brasil, então para nossos fãs brasileiros, em nome do Warriors, mandamos nossas condolências", finalizou Kerr.
A carreira de Kerr como técnico dos Warriors inclui quatro títulos da NBA (2015, 2017, 2018, 2022), com aproveitamento de 65.8% em temporadas regulares. Sua capacidade de desenvolver jogadores e criar sistemas ofensivos inovadores ecoa, de certa forma, a mentalidade sem limites que ele admirava em Oscar Schmidt. O brasileiro nunca conquistou um título mundial, mas deixou um legado de 42.796 pontos em competições oficiais da FIBA.

O Warriors enfrenta o Phoenix Suns nesta sexta-feira, às 23h30 (horário de Brasília), em partida única que define a última vaga dos playoffs da Conferência Oeste. Kerr comandará a equipe carregando não apenas a pressão da eliminação, mas também a lembrança de um gesto brasileiro que moldou sua percepção sobre esportividade e humanidade no basquete.

