Quando Sabastian Sawe cruzou a linha de chegada da Maratona de Londres no último domingo com 1h59min30s no cronômetro, ele se tornou o primeiro homem da história a quebrar a barreira de duas horas em uma prova oficial homologada. O feito pulverizou o recorde anterior de 2h00min35s, estabelecido pelo queniano Kelvin Kiptum em Chicago, em 2023. Mas a conquista não chegou sozinha: ela veio acompanhada de uma discussão que já atravessa uma década no atletismo de alto rendimento e que, desta vez, ganhou proporções globais.

O tênis que pesa menos que um smartphone

No pé de Sawe, durante os 42,195 quilômetros percorridos em Londres, estava o Adizero Adios Pro Evo 3, da Adidas, com apenas 97 gramas — menos que a maioria dos smartphones modernos. O modelo reúne tecnologia de placa de carbono, espuma de alto retorno energético e construção estrutural voltada especificamente para reduzir o custo metabólico da passada. A Adidas não revelou publicamente todos os componentes da solação, mas a combinação entre leveza extrema e resposta elástica é o que atrai atenção de especialistas em biomecânica esportiva.

O próprio Sawe, de 31 anos, não fugiu da pergunta quando confrontado pela imprensa logo após a prova.

"O tênis é muito bom, muito leve, confortável e com muito apoio, e está avançando. E a grande diferença é que ele é muito leve e muito confortável."
Quando questionado se as críticas ao equipamento o incomodavam, a resposta foi categórica:
"Absolutamente não, porque o tênis foi aprovado. E acho que não havia dúvidas sobre isso."

Doping mecânico — o argumento que não desaparece

O conceito de "doping mecânico" surgiu com força após 2016, quando a Nike lançou os primeiros protótipos do Vaporfly, e foi formalizado em debates acadêmicos e na mídia especializada a partir de estudos que apontaram ganhos de economia de corrida entre 4% e 8% com o uso de placas de carbono. A World Athletics regulamentou o tema em 2020, estabelecendo limites para a espessura da sola e para o número de placas rígidas internas, mas críticos argumentam que as normas são defasadas diante da velocidade de inovação das marcas.

O ponto central do debate não é necessariamente a legalidade — o Adizero Adios Pro Evo 3 foi aprovado pela federação. A questão que pesquisadores e atletas colocam é de natureza estrutural: se a tecnologia disponível em um par de tênis pode reduzir o tempo de um maratonista em cerca de 90 a 120 segundos, conforme estimativas publicadas em periódicos como o British Journal of Sports Medicine, até que ponto o recorde reflete capacidade humana e não poder financeiro da marca parceira? O tênis custava, em seu lançamento, cerca de 500 dólares — um valor proibitivo para atletas de países sem estrutura de patrocínio.

Conforme levantamento do SportNavo, o mercado global de tênis de corrida de alto desempenho movimentou aproximadamente 4,2 bilhões de dólares em 2024, com Nike e Adidas somando mais de 60% das receitas no segmento. Esse dado contextualiza o porquê de as marcas investirem pesadamente em P&D para calçados: cada recorde mundial com o produto no pé equivale a milhões de dólares em marketing orgânico e impulso de vendas no varejo.

O tênis que pesa menos que um smartphone Super tênis da Adidas levou Sawe abaixo
O tênis que pesa menos que um smartphone Super tênis da Adidas levou Sawe abaixo

O paralelo feminino e a sombra do doping biológico

A Maratona de Londres também teve protagonismo feminino expressivo. Tigst Assefa, etíope, quebrou seu próprio recorde mundial em provas exclusivamente femininas, registrando 2h15min41s — e ela usava exatamente o mesmo modelo de Adidas de Sawe. A coincidência reforça a narrativa de que a vantagem tecnológica foi transversal às duas provas no mesmo dia, no mesmo percurso.

O debate sobre integridade esportiva ficou mais complexo com o caso de Ruth Chepng'etich, queniana que em outubro de 2025 recebeu uma suspensão de três anos por doping biológico — mas cujo recorde de 2h09min56s, estabelecido em Chicago no ano anterior ao teste positivo de março de 2025, permanece nos livros da World Athletics. A situação gerou confusão pública sobre os critérios de homologação e criou um precedente incômodo: a federação mantém marcas de atletas posteriormente punidos, mas não consegue responder de forma clara sobre os limites da tecnologia de equipamentos.

Onde a regulamentação precisa chegar

A World Athletics, sediada em Mônaco, atualiza suas regras de equipamentos periodicamente, mas o ciclo de inovação das marcas é significativamente mais rápido. Especialistas em direito esportivo e fisiologistas consultados por veículos internacionais sugerem a criação de uma categoria de testes independentes para novos calçados — similar ao que a Fórmula 1 faz com peças estruturais dos carros — antes que um modelo seja liberado para provas oficiais.

Na avaliação do SportNavo, o debate sobre doping mecânico não vai se resolver apenas com a aprovação formal de um produto. A questão que o recorde de Sawe coloca sobre a mesa é mais ampla: o atletismo precisa decidir se quer ser uma celebração da capacidade humana bruta ou se aceita, de forma consciente e regulada, que a tecnologia de materiais seja parte constitutiva da performance. As duas posições têm argumentos legítimos — mas até agora a federação tem evitado essa escolha explícita. O próximo passo concreto está previsto para setembro, quando a World Athletics apresentará uma revisão das regras de equipamentos em seu congresso anual, com votação esperada para antes da temporada indoor de 2026.